segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

A PSICANÁLISE, A HISTÓRIA E A ARTE (Denise Maurano)

Como mencionei acima, ao longo da história a cultura dispôs de diferentes valores de sustentação para o sujeito. Na Antigüidade grega, momento de inauguração do mundo ocidental, a organização da vida em cidades e o estabelecimento de suas leis de funcionamento, constituindo direitos e deveres, regulando relações sobretudo comerciais, configurava o anseio de que o Direito fosse uma saída para a indeterminação das ações humanas. Esperava-se que as leis resolvessem o que era correto ser feito, acabando com o dilema que o livre-arbítrio nos impõe.
Cedo, a qualidade de ser cidadão, mostrou-se insuficiente para abarcar todas as dimensões do sujeito, e eis que a religião, o cristianismo, veio em seu socorro. Durante quase quinze séculos, o apelo a Deus foi o recurso prevalente para o balizamento das questões da existência. Até que, pelos próprios excessos cometidos pela Inquisição, pelos efeitos da Reforma Luterana e o afloramento de mudanças sociais, políticas e artísticas radicais, o apelo à salvação feito a Deus deslocou-se para o que proponho chamar de apelo a que a razão salve.
Descartes, considerado o pai da Idade Moderna, encarna essa aspiração do homem moderno de tomar a razão, os recursos do pensamento, como medida de avaliação de si mesmo e de tudo mais. Através de uma avaliação que faz dele mesmo, chama a atenção para os aspectos de nossa subjetividade, nossa singularidade, que podem confundir nosso raciocínio objetivo e nos fazer chegar a conclusões equivocadas. No anseio de criar métodos para neutralizar a interferência subjetiva nas proposições que se pretendiam gerais, ele abre as portas para o surgimento da ciência moderna. Esta, visando a criação de leis gerais e de previsibilidade, expressa o novo recurso para nos proteger tanto do que não sabemos quanto do que nos espera.
Porém, quando Descartes focaliza a interferência da singularidade de um sujeito e de suas particularidades nas produções da racionalidade, seu gesto só faz ressaltar a importância mesma da subjetividade. Esta focalização da subjetividade como o que não se conforma à razão, ou como o que a confunde, abriu os canais para o movimento oposto ao da valorização da razão cartesiana. Ou seja, abriu as portas para a ênfase na emoção, nas intensidades psíquicas, naquilo que é bem próprio chamar de dimensão econômica do psiquismo. Dimensão que focaliza a existência de montantes de afeto, que operam nos investimentos e desinvestimentos psíquicos. Esse novo movimento que vai a meu ver inaugurar a contemporaneidade, eu proponho caracteriza-lo como momento da prevalência do apelo à libido, apelo ao amor e à sexualidade como via de solução dos problemas da vida. Será ele que dará margem ao surgimento da psicanálise.
Porém, essa valorização da emoção já havia encontrado acolhida na cultura pela via das artes, ainda no tempo de Descartes, na Idade dita Moderna. A arte barroca que se desenvolve nessa época, sobretudo no século XVII, é expressão da visão do sujeito afetado pela paixão. Tal visão, veremos o quanto ela irá interessar à psicanálise. Ainda que neste momento não fosse a libido e a sexualidade que prevalecessem como foco temático, não se pode deixar de observar a exuberância dos afetos, expressos pela via da exibição do corpo dos santos que chega quase à obscenidade, como se o ardor da alma fosse tornado visível pela focalização do corpo. Encontra-se, com isso, meios de dar visibilidade à questões de difícil apreensão.
[...] Mas não foi à toa que essa expressão artística, para ser reconhecida como tal levou muito tempo. Foi apenas no fim do século XIX que Heinrich Wölfflin, um historiador de arte, a reconheceu. Até então, [...] designar uma obra como barroca era o mesmo que dizer que ela era bizarra, sinistra, desproporcional, esquisita. Isso porque ela se diferenciava do que se tinha como modelo, ou seja, se diferenciava do ideal clássico de beleza, até então o único valorizado. Barroco indica uma visão de beleza que escapa às exigências da ordem, da harmonia e do equilíbrio, próprias à visão clássica do belo. A beleza de uma Vênus de Milo, na qual nada excede ou falta, é completamente diferente da beleza que apresenta uma escultura de Aleijadinho, grande expressão do barroco brasileiro. Se designamos esta última como bela é porque estamos aí orientados por uma outra concepção de belo, que não está submetida a um ideal de perfeição, mas sim acolhe o dinamismo da vida, suas imperfeições, a força de suas intensidades. Nelas, o que vale não é a precisão das formas, mas a força de sua expressão, de seu poder de afetar a sensibilidade de quem a observa.
Dividida por planos de visões de mundo opostas como o sagrado e o profano, o sofrimento e a alegria, a razão e a emoção, a sensualidade e a espiritualidade, o bem e o mal, a obscuridade e a luz, a vida e a morte, a expressão barroca é a configuração de uma crise. Tal crise, para além de poder ser datável num período da história que abriga as cruzadas pelos mares, o desenvolvimento do mercantilismo, os conflitos religiosos provenientes da Reforma Luterana, e uma série de questões que causaram turbulência nas verdades e nos modos de viver estabelecidos, prenuncia, segundo Irlemar Chiampi, em Barroco e modernidade, a própria modernidade, com tudo que esta trouxe de novidade e subversão, não apenas para os padrões tradicionais das Academias de Belas Artes. Charles Baudelaire, poeta francês, escritor e critico de arte propôs em um pequeno ensaio intitulado Sobre a modernidade, que a beleza é dividida em duas metades. Existe aquela do espírito clássico, que fixa as imagens na dimensão da eternidade. O que nela está posto não sugere nenhuma alteração, a imagem é apresentada como estática, alheia ao tempo e ao movimento. O exemplo acima citado da Vênus de Milo nos serve para observar isso. Mas o poeta lembra que a Modernidade introduziu uma outra relação com a beleza: a beleza do que se movimenta, a beleza do que é transitório e mesmo do que perece. A beleza que se pode ver nos gestos, nas rugas, nas marcas da passagem do tempo. É essa dimensão de beleza na vida que é especialmente valorizada pela psicanálise. Certa vez Freud estava passeando, feliz da vida, com um amigo por um jardim florido. Comentavam sobre a transitoriedade da beleza, ou seja, sobre o fato de que, em breve, com a mudança das estações, aquelas belas flores não estariam mais ali. Diferentemente de uma perspectiva que veria nessa transitoriedade um motivo de pesar, Freud, ao contrário, via no movimento do tempo uma afirmação da vida. O que está vivo se mexe e é o contraste que aguça a percepção. Podemos ler isso num pequeno texto do autor, intitulado A transitoriedade. Ele atesta o espírito de Freud como sujeito inserido na modernidade, sensível a essa forma de beleza que vê para além do ideal. Que mais do que enxergar o objeto, sempre finito e precário, vê para além dele.
Esse modo de sensibilidade, essa forma de ver as coisas, não diz respeito apenas a uma certa visão da arte ou da beleza, mas permeia todo pensamento psicanalítico e toda a sua abordagem da condição humana. Acho mesmo que podemos dizer que a psicanálise serve para percebermos a vida e o mundo pela lente da beleza do que se movimenta, do que não se aquieta. Se isso implica um certo desassossego, uma certa falta de asseguramento, uma certa confrontação com o risco das mudanças, esse é o preço a ser pago pelo que está vivo.
Como disse acima, bem antes de Freud a expressão barroca já colocava em cena esse modo de exprimir a vida. O poema barroco A uma ausência, de Antônio Barbosa Bacelar (1610-1663), é exemplar para mostrar a visão do sujeito, enquanto alguém dividido, visão esta que será posteriormente tão afeita à psicanálise.
          Sinto-me sem sentir, todo abrasado
          No rigoroso fogo que me alenta
          O mal, que me consome me sustenta,
          O bem, que me entretém, me dá cuidado;
          Ando sem me mover, falo calado,
          O que mais perto vejo se me ausenta,
          E o que estou sem ver mais me atormenta,
          Alegro-me de ver-me, atormentado;
          Choro no mesmo ponto em que me rio,
          No mor risco me anima a confiança,
          Do menos que se espera estou mais certo;
          Mas se de confiado desconfio,
          É porque entre os receios da mudança
          Ando perdido em mim como em deserto.
Como podem observar, não estamos aí no mundo da contradição, mas no do paradoxo. Um paradoxo implica a possibilidade de se acolher idéias antagônicas, sem para isso fazer exclusões ou sínteses. O que se faz aí é afirmar a presença simultânea de elementos que são heterogêneos. Isso é tão presente na arte barroca quanto nas manifestações do inconsciente Assim, posso expressar o sucesso e a decadência simultâneos de alguém. Quando, por exemplo, pinto um quadro de uma pessoa ricamente vestida e situada num cenário estupendo e insiro nele um crânio, marcando sua degeneração como se vê no quadro Os embaixadores, de 1533, pintado por Hans Holbein. Coisa bastante comum nas imagens barrocas e que bem podem fazer parte de sonhos, que são as expressões excelentes do inconsciente.
Nos sonhos podemos aparecer simultaneamente como crianças e velhos, como pobres e ricos, como gloriosos e decadentes, sem que uma coisa anule a outra. Nos atos falhos, esses equívocos de linguagem que
ocorrem quando queremos dizer uma coisa e dizemos outra, por vezes seu oposto, também a presença do inconsciente é atestada, revelando seu modo particular de funcionamento, no qual os opostos não se anulam. Isso ocorre também em nossas fantasias, em nossos sintomas, e ainda nos chistes, esse modo peculiar de piadinhas, ditos espirituosos, através dos quais dizemos, pelo humor, o que jamais poderíamos dizer seriamente. Nossos sonhos, atos falhos, fantasias, sintomas e chistes, são abordados pela psicanálise como formações do inconsciente. Como se pode facilmente perceber, essas produções não obedecem as leis da racionalidade consciente, que exige clareza, coerência, ausência de contradição. Tais formações revelam que as leis de funcionamento do inconsciente mostram que nosso psiquismo é muito mais amplo do que aquilo que dele temos acesso pela nossa consciência. Influenciados pela consciência, temos a tendência de sempre buscar semelhanças entre as coisas, abolindo diferenças e contradições. Tendemos a desprezar o que parece ilógico ou incoerente. Julgamos tudo isso uma besteira e nos afastamos do que parece equivocado. O reconhecimento do diferente como o que é errado afeta não apenas nosso pensamento racional, como até motiva inúmeros conflitos étnicos, religiosos, políticos, e de diversas outras naturezas. Quando a psicanálise sublinha que o psiquismo não é só a consciência; quando valoriza nossas produções psíquicas, como sonhos, fantasias, tidas até então como besteiras, promove um reviramento da abordagem do psiquismo, que implica simultaneamente um reviramento na visão tradicional da vida e do mundo. O que explica o por quê da psicanálise poder ser melhor compreendida pela arte do que pela ciência tradicional.
Não quero com isso que vocês entendam que o inconsciente é o domínio do caótico e do ilógico. Não se trata disso. A questão é que a psicanálise serviu para ressaltar o funcionamento de uma outra lógica também
operante no psiquismo, eu diria que trata-se da lógica do paradoxo. Cabe ressaltar que nesse plano do paradoxo, tão afeito ao inconsciente quanto à expressão barroca, a visão que se tem do Eu, da afirmação de si mesmo, como o que viria definir o sujeito, passa a ser um tema sobre o qual recai todo questionamento. Não se tem como afirmar algo sem se perguntar pela possibilidade de seu contrário. A psicanálise vem ressaltar que o Eu não é senão a fachada de nós mesmos, do sujeito que somos. O que somos escapa às
possibilidades de apreensão do Eu. O que se apresenta na arte barroca não é mais uma perspectiva de apaziguamento do ser e da vida, não é mais uma negação de sua instabilidade e dinamismo, mas sim uma focalização na aceleração do tempo. É isso que incita à desestagnação, e uma certa pressa. Nela, exibe-se um comportamento passional que revela que é preciso todo vigor para defender-se do aniquilamento. A morte não é por ela negada. O que a articula tanto com a posição teórica quanto com a posição clínica da psicanálise. A idéia da confrontação do homem com um limite, onde em última instância situa-se a morte, é a convocação a que se viva a vida. A paixão e a turbulência que a arte barroca incita são as marcas indeléveis que expressam a subjetividade, não enquanto remetida a uma afirmação de si, mas em um movimento de evasão motivada pela inquietação.
Poderíamos pensar que, nela, é a vida pulsional que não está encoberta em função das exigências de harmonia e ordenação. Uma visão clássica de mundo apela a tais exigências visando um plano ideal. No barroco, o eu e a natureza são tidos como manifestações legítimas e únicas próximas da verdade, que não deve ser interpretada pela lógica intelectualista, mas deve ser deixada para ser expressa livremente. Na arte barroca, trata-se de situar o infinito do ser na dimensão finita da natureza e do humano. Nessa perspectiva, o sujeito encontra-se impregnado de mundo e é mesmo confundido com ele. Daí a utilização que faço da noção de dessubjetivação como o que viria paradoxalmente designar a subjetividade barroca. Ou seja, na perspectiva da subjetividade barroca, o sujeito, imbricado no que o circunda, apresenta-se em evasão, exibe-se como fora-de-si, remetido intimamente ao que lhe é exterior, referido a uma relação com o que o transcende. O que é bem diferente de uma visão de sujeito enquanto um ser bem delimitado e circunscrito na consciência que ele teria de si mesmo, e no que se poderia definir por uma psicologia do seu comportamento.
Essa noção de dessubjetivação será preciosa para que se possa abordar questões inerentes ao que se espera de um final da análise. Isso será retomado mais adiante, mas, só para adiantar, refiro-me à análise como o percurso que um sujeito empreende desde a investigação de sua instituição como sujeito, com todas as implicações que nela se operaram para a formação de seu Eu (Ego), articuladas aos processos identificatórios, até o que se propõe chamar de destituição subjetiva. Trata-se, de certa forma, de destituir o herói épico que fizemos de nós mesmos, para o melhor e para o pior, fascinados por essa imagem na qual nos fixamos, em detrimento de vivermos a mobilidade davida.
Foram questionamentos do “si mesmo”, do que é o sujeito, da participação dos afetos na formação do Eu, que veio a fomentar algum tempo depois, aí não mais na Idade Moderna, mas na Idade Contemporânea, o surgimento da psicanálise.  A psicanálise veio tratar desse sujeito que cai de uma perspectiva ideal e vai ter que se haver com seus conflitos, suas divisões, e que tem a particularidade de aspirar que o sucesso no amor e na sexualidade resolva suas questões, como mencionei anteriormente. Esse é o nosso típico sujeito contemporâneo; aliás, somos nós. É óbvio que a abordagem da condição humana enfatizando nossa fragilidade, ou mesmo a força de nossa fragilidade, pode também ser identificada ainda nos primórdios da civilização ocidental através da invenção do teatro como teatro trágico, quando o homem resolveu colocar em cena não as facilidades da existência, mas justamente seus impasses. Vocês vêem assim que esse modo de sensibilidade tem suas os longos desdobramentos e a intensificação incidências ao longo da história da humanidade, sobretudo da história da arte.
Porém, foi somente nos nossos tempos atuais que a tentativa de resolução das coisas pela via da libido ganhou a cena. Essa questão da tragédia foi extensamente abordada em meu livro A face oculta do amor: a tragédia à luz da psicanálise. Costumo dizer em minhas aulas e seminários que a clínica psicanalítica, embora se constitua como a “hora da verdade”, promove a experiência do amor em um contexto, de certo modo, artificial. Não se trata de bater um papo com um amigo que também te pede coisas e que você encontra ocasionalmente. Os encontros ou as sessões como se costuma designar a consulta psicanalítica têm hora e lugar marcados previamente, ainda que eventualmente isso possa se alterar. Não se trata de uma relação onde as duas pessoas interagem a partir do mesmo plano, simetricamente. Se fosse, obviamente não teria porque uma pagar à outra.

PARA QUE SERVE A PSICANÁLISE ? - Coleção Passo a passo em psicanálise - V. 21
Autora: Denise Maurano
RJ: Jorge Zahar ed.
2003
64 pgs.



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