sexta-feira, 19 de novembro de 2010

DEPRESSÃO - 1

A maioria das pessoas se sente muito bem na maior parte do tempo. Elas conseguem dormir à noite; a fome, o apetite sexual e a vontade de saber mais funcionam normalmente; concentram-se naquilo que estiverem fazendo, planejam, enfrentam as dificuldades e têm expectativa de que tudo dará certo. Aproveitam a presença da família e de amigos e se sentem razoavelmente satisfeitas consigo mesmas, aceitando as próprias fraquezas, conscientes dos seus pontos positivos, capazes de se perdoar pelas falhas graves e de comemorar suas aptidões e realizações - se é que chegam a pensar nessas coisas.
    No entanto, quase de um dia para o outro, tudo isso pode dar errado. Para o deprimido, nenhuma dessas certezas banais é infalível. O sono torna-se incerto, o futuro parece sombrio ou impossível, não há prazer na vida, e fazer coisas simples, como ler um jornal ou ver um programa na TV, transforma-se num problema. A agitação ou a letargia passa a dominar. Quando a depressão aparece, a visão que se tem de si mesmo transforma-se de aceitação e satisfação em aversão, em culpa por falhas imaginárias de omissão ou de responsabilidade e, ao final, em vontade de morrer.
    [...] A depressão, na forma como a concebemos hoje, é produto tanto da influência sutil da indústria farmacêutica no modo como encaramos a nossa vida emocional quanto da medicina psicológica, os fabricantes de antidepressivos fazem questão de que a aflição seja entendida como depressão para criar a necessidade dos seus produtos.
    Freud, seus contemporâneos e seus predecessores escreveram não sobre a depressão e sim sobre a "melancolia" (literalmente, "humor negro"). Eles procuravam entender aquilo que hoje chamamos de depresão psicótica. Tal estado, segundo o entendimento moderno, seria classificado de distúrbio depressivo maior e psicose maníaco-depressiva. Esses, sim, podem ser chamados de doenças mentais, ao contrário da "depressão clínica", mais comum, familiar para a grande maioria, seja de pacientes (uma entre quatro pessoas sofre de depressão durante a vida), seja de profissionais consultados para "tratar" esse estado corriqueiro.
    Como ex-neurologista, Freud fez sua primeira incursão na psiquiatria com a "histeria" - ou seja, sintomas físicos dramáticos de origem supostamente não "orgânica" - enfermidade que muitos estudiosos da psiquiatria consideram praticamente extinta no mundo ocidental. O que existe hoje no Ocidente, em vez de histeria, é a depressão e a angústia. Vale notar, porém, que em muitas culturas a linguagem predominante pela qual a aflição emocional se manifesta é a corporal. Os iorubás da Nigéria, por exemplo, não têm uma palavra que designe a depressão, e os pacientes que um médico formado no Ocidente consideraria deprimidos apresentam-se em muitos lugares do mundo em desenvolvimento com sintomas como "coração pesado", dores abdominais e náusea ou fraqueza geral no corpo.
    [...] Apesar disso,  a depressão será em todo o mundo o maior problema de saúde física ou mental por volta de 2020, segundo o Organização Mundial de Saúde. Isso representa um desafio enorme para os órgãos de saúde pública.

A fenomenologia da depressão 
    [O estadista] Winston Churchill [...] apelidou sua depressão de “cão preto”, [...] o escritor William Styron [chamou-a por] Escuridão Visível.  Por que associamos a depressão – e também a sua prima próxima, a morte – com escuridão? [...] Estar no escuro é estar dissociado, perdido; a luz simboliza apego e segurança, abertura e não clausura.
Styron fala do abismo (ou “parede de vidro”, como muitos pacientes dizem) que o depressivo sente entre si mesmo e tudo que é bom e desejável. A luz está lá (“num dia luminoso”), mas por algum motivo se encontra fora do alcance, inacessível.
[...] A depressão, desse ponto de vista, não é nada mais nada menos que uma ferida narcísica que nos faz lembrar da nossa fragilidade, impotência, incapacidade de controlar aqueles de quem dependemos e da nossa vulnerabilidade à perda.
Assim a depressão é sombria, solitária, desligada. O deprimido é cheio de ódio, no duplo sentido de que se consome de ódio e provoca rejeição. No fundo, o apego do deprimido aos seus entes queridos e à própria vida se desfaz. A raiva e o ódio da depressão podem ser vistos como uma tentativa de punir o mundo e a si mesmo, por terem permitido que essa ligação terminasse, e também como uma investida por inveja contra os que não se sentem tão aflitos. É também uma tentativa desesperada de restabelecer o convívio. Uma infelicidade óbvia ou um surto de raiva força os outros a prestar atenção; é uma súplica e uma advertência: “por favor, não me rejeitem de novo”.
[...] Estar deprimido é estar faminto, privado de alimento, é perder o objeto de amor. A depressão é o risco que todos correm quando se apaixonam. Para o bebê, a mãe que alimenta e conforta é também aquela que pode abandoná-lo. Vista assim, a depressão é inerente a condição humana. Isso está expresso na psicanálise na situação edipiana, em que a criança, à medida que cresce, precisa conciliar seu desejo de posse exclusiva da mãe com a realidade de que ela é fruto da sexualidade dos pais e tem de aceitar a divisão da atenção com o pai e os irmãos, nascidos ou por nascer.
Perfis clínicos da depressão
[Há a] “depressão psicótica”, em que a culpa depressiva assume proporções de delírio. A obsessão e uma tendência para a depressão andam sempre juntas. As defesas obsessivas representam uma tentativa de impor ordem a um mundo inerentemente caótico – de controlar o incontrolável. [...] A culpa depressiva e a condenação de si mesmo, desproporcionais diante da responsabilidade que a sociedade exigiria do indivíduo, frequentemente de uma maneira quase delirante, mantém a ficção de que tudo poderia ser controlado caso se conhecesse uma conduta correta.
[...] A origem da boa auto-estima está numa relação íntima e afetuosa com os pais. Sem essa auto-estima, a pessoa se torna suscetível às dificuldades e aos traumas que a vida apresenta.
[...] Da perspectiva psicanalítica, o ódio depressivo por si mesmo é um deslocamento. [...] A autodestrutividade da depressão, aparentemente incompreensível, começa a fazer sentido quando se vê que ela é dirigida não para o eu, mas para outra pessoa com quem o deprimido se sinta decepcionado.
[...] Uma pessoa com apego seguro [na infância, a uma pessoa] tem, quando adulta, uma representação interna daqueles que são próximos. A perda é suportável e superável por causa dessa representação interna segura. Quando há apego ambivalente, a representação interna é problemática e faz necessária a presença física de uma figura de apego para que o indivíduo se sinta seguro. Perdida essa pessoa, a depressão reaparece. (Jeremy Holmes - 2005 - Depressão - Coleção Conceitos da Psicanálise)

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

TEATROS DO EU






Teatro Psíquico, Palco Psicanalítico
O mundo todo é um teatro
E todos, homens, mulheres, não passam de atores
Tem suas entradas, tem suas saídas,
E cada homem, nele ganha muitos papéis:
Os atos duram sete eras..
.
(Shakespeare - As you like it, Ato II, Cena 7)


  
   '"All the world's a stage'" declara Shakespeare, constatando que os homens e mulheres nada mais são, nesse enorme palco, que atores, merely players, ensaiando e interpretando os papéis de uma peça desconhecida, num teatro de limites imprecisos. A idéia de Shakespeare era, sem dúvida, de que cada um de seus heróis era uma marionete, [uma] 'quintessência do pó.' Mas, então, quem manipula os fios?
   A tragédia de Hamlet, de Lear, de Ricardo III..., é a história do homem, confrontado com as forças violentas de sua natureza instintiva, forças que, qual profundas correntes subterrâneas, fazem derivar sua vontade e modificam o curso da vida. Atravessado por tempestades de amor e ódio, tentado por vezes a seduzir e agradar, outras a punir e destruir, cada homem, desde a infância, teve que limitar-se a navegar por entre as interdições e as impossibilidades de sua vida. Obrigado a inventar uma solução para cada um dos inevitáveis conflitos suscitados por seus desejos primitivos, foi-lhe necessário encontrar conciliações que o satisfizessem tanto quanto a outrem. Com todas as suas lutas, como com o auxílio de uma palheta de cores, ele desenhou o retrato dessa pessoa que acredita ser quando diz 'Eu'. De fato esse Eu é um personagem, um 'ator' no palco do mundo que, sozinho, em sua realidade interna, assiste a um teatro mais íntimo, cujo repertório é secreto. À sua revelia, os cenários se organizam, para cenas bufas e trágicas, que buscam um local para a representação e a ação. O diretor [desta peça] é, naturalmente, o próprio Eu, mas o rosto dos personagens, a intriga, bem como o desfecho lhe são escondidos; ele não sabe, com efeito, quem são as pessoas que o empurram para o drama. Nenhum aviso lhe é dado de que a ação vai começar e de que, em algum lugar, num local de seu psiquismo, um personagem se agita e deseja entrar em cena... E, no entanto, é lá, nesse universo interior, que se decidirá a maior parte daquilo que ele vai tornar-se em sua vida.
   À medida que esse teatro psíquico funciona com bilheteria fechada, para si mesmo, nós somos, na realidade, como dizia Shakespeare, mere players, reles personagens, levados a realizar desejos obscuros,a cumprir tarefas que tomamos por necessárias, a perseguir uma trajetória em que se reunirão vitórias louváveis e fracassos lamentáveis, sem que para isso sejamos capazes de encontrar as verdadeiras razões que motivaram esses objetivos e fins. O Eu de cada indivíduo ajusta continuamente suas contas com o passado e assim reproduz, infatigavelmente, os mesmos dramas. Justamente aqueles que o Eu de outrora, ainda criança, vivera em sua vontade de sobreviver psiquicamente em meio a um mundo de adultos. Quer manifestem-se sob a forma de neuroses, de problemas de caráter ou perturbações narcísicas, de adições ou perversões, de psicoses ou psicossomatoses, esses enredos psíquicos são sempre invenções artesanais que, no entanto, às vezes se aproximam de uma verdadeira obra de arte. Ignorando sua própria criatividade, o autor dessas peças íntimas as experimenta, na maior parte do tempo, como produções em que tem um papel a desempenhar, em que deve fazer gestos e enunciar réplicas e que, no entanto, são postas em cena em outro lugar, dirigidas por outros".
(Joyce McDougall - Teatros do Eu, 1992 - Francisco Alves)