Como
desenvolver um pensamento psicanalítico e ressignificar a palavra
corrupção, se esta não advém da teoria psicanalítica? Há
muito a psicanálise se esbate com palavras florescidas em outras
disciplinas ou que vieram do senso comum. Mas, neste caso, como
superar a dificuldade metodológica de criar um pensamento
psicanalítico da corrupção, palavra que não surgiu no consultório
de terapia? Ou pior, como analisar psicanaliticamente uma palavra tão
carregada de juízo de valor, sem cair em psicanálise aplicada, de
um já sabido pela clínica, tornando o objeto “corrupção”
apenas ilustração de uma teoria? É o que Luís Claudio Figueiredo
tenta responder em seu artigo “Pensamento clínico e corrupção. A
corrupção entre ligações e desligamentos”, apresentado
recentemente no XIX Encontro do curso de Especialização em
Psicoterapia Psicanalítica (outubro 2015). Faço um comentário,
antecipando que LCF pode não concordar com meus termos...
Antes
de alinhar alguns apontamentos sobre como se dá a corrupção é
necessário afastar-se da tentação de ideologizar o termo
tal como dizer que um partido é corrupto ou a direita ou esquerda
são corruptas, ou patologizar, dizendo que a corrupção é
uma doença ou que o corrupto é um doente, retirando a luz sobre o
entendimento do que significa corromper.
Primeiro,
é necessário, para que haja a corrupção, um pacto instituído
como uma sociedade clandestina, sob a pele do pacto social maior e
geral – a sociedade com todos seus dispositivos de funcionamento.
Viceja, o pacto ilícito, ao mesmo tempo e no mesmo espaço do pacto
lícito, porém à sua revelia e o contradizendo. Essa sociedade
clandestina parasita a sociedade legal, sub-repticiamente.
Depois
é preciso entender que a corrupção é necessariamente trabalhada
em parcerias, num conluio cooperativo e distribuidor de ganhos,
tornando-se uma quadrilha, cujo trato é registrado em planilhas.
Quase sempre se trata de dinheiro, mas nem sempre. Pode se tratar de
valores e bens de ordem imaterial “distribuídos segundo regras
consensuais (por exemplo, as notas de aproveitamento acadêmico e
avaliação docente em conluios que envolvem professor e alunos)”,
ou lobbies feitos por pessoas que detém algum poder e podem
influenciar em negociações legais (e quase sempre imorais) ou
ilegais (sempre criminosas).
Outro
aspecto importante na corrupção é que necessita-se de um pacto
fundante entre vários cidadãos da sociedade comum, criando uma
outra sociedade escondida, mimetizada no tecido dos poderes – suas
ações estão à vista, porém não se pode identificá-las
facilmente, pois elas estão amalgamadas nas mesmas instituições
que visam evitar o surgimento da corrupção. Sua fenomenologia é a
da barganha, traindo o pacto social maior. [Assim] “o caráter
sagrado de um pacto fundante é profanado quando se torna cobertura e
condição de possibilidade de uma prática ilícita”.
Para
que a traição ao pacto social, pelo pacto parasitário dos
corruptos tenha sucesso, é necessário que haja uma sobreposição
da traição pela lealdade, onde os parceiros do pacto ilícito são
extremamente leais entre si, mais leais do que o próprio pacto
cidadão consegue ser. A lealdade é um valor que permite que,
sub-repticiamente, se traia o pacto publicamente aceito pelos agentes
de corrupção. Para que sejam corruptos, precisam de estar inseridos
profundamente no tecido da sociedade, mais exatamente dentro das
instituições públicas e privadas. Declaram lealdade à sociedade
exatamente para poderem ter as condições de possibilidade de trair
a sociedade. Assim, “o 'bom corrupto', o que é leal, é, ao mesmo
tempo, o que trai; ele trai não apenas os que foram mantidos fora do
pacto de corrupção, como trai a própria noção de lealdade, pois
esta passa a se identificar com o 'direito a trair', exercido pela
coletividade corrupta contra a grande coletividade que lhe serve de
cobertura”.
Para
que funcione, a pequena coletividade de corruptos, depende de manter
fora, de excluir, a grande coletividade. Esta sociedade secreta se
exclui do social, excluindo o social de si mesma e evita de todo
modo, que a sociedade maior olhe para dentro de sua pequena sociedade
exclusiva (que exclui para não ser percebida). É por isso que as
'delações premiadas' da Operação Lava-Jato, são tão mal vistas
pela nossa presidente. Está havendo uma traição a lealdade do
pacto ilícito. Enquanto o grande pacto social é inclusivo, o pacto
corrupto é exclusivo.
Como
podem ser pensadas subjetividades capazes de frequentar estes dois
espaços tão paradoxalmente articulados – o pacto social e o
conluio? Sabe-se que um sujeito só pode fazer um conluio contra o
pacto social se estiver em uma posição privilegiada dentro do pacto
maior. Por exemplo, traindo uma instituição que deveria zelar.
Somente pela “dupla militância”, uma traindo a outra, usando os
próprios valores da outra, para traí-la. Só assim podem ser
eficazes e invisíveis. Qual o sofrimento psíquico do corrupto,
pergunta LCF?
Qual
o sofrimento psíquico do duplo militante? Não parece ser um
conflito porque o ego é anódino e o superego mais anódino
ainda, portanto, com ínfimos conflitos entre os desejos do ego e as
interdições do superego. Quando isto acontece os desejos e impulsos
do ego não são interditados, deixando o sujeito exposto a
impulsividade; e sabemos que isso não permite a criação de pactos
de corrupção, que são, por excelência, complexos, além de
obscuros, exigindo planejamento, planilhas e um sistema de
corrupção.
Propõe
pensar, então, em uma cisão permitindo
que o corrupto possa exibir uma “boa consciência”, e depois, que
o corrupto possa usufruir das vantagens da imagem de honesto. Deste
modo o sujeito corrupto não se submete aos impulsos e desejos, nem
tem que lutar contra o superego. Disto surge um sujeito capaz de
grande “autocontrole, cálculo, [de] formação de alianças
funcionais”.
Este
sujeito frui de grande autocontrole porque não está cindido no ego,
como nos casos onde se dá a recusa,
um mecanismo em que o ego, simultaneamente, aceita os limites do
superego (diferenças, regras, prescrições, leis) e recusa-os.
Neste caso, resumindo, a cisão no ego não permitiria a criação de
sistemas corruptos, por faltar ao sujeito uma unidade que evitaria o
caos.
O autor pensa, então, numa cisão
complexa, onde “[o] personagem corrupto [possui] mais unidade
egoica [fruindo] um eu extremamente hábil em permanecer nos dois
pactos, ainda que um parasite e traia o outro”. Ele propõe que a
cisão se dá no superego, mas não no sentido de criar dois valores
e normas contraditórios. Os valores “lealdade” e “solidariedade”
que são valores da cidadania, são os mesmos do pacto corrupto. É
[…] “também a mesma lógica e a mesma racionalidade que vigora
nos dois campos”, e são os mesmos objetivos do pacto social
aqueles do pacto corrupto parasitário – dinheiro, principalmente.
Portanto, os objetivos da transação corrupta, são iguais para os
dois campos, permitindo que “seja usado pelo mesmo cidadão em
compras absolutamente legais”, após sua lavagem.
A cisão superegoica do corrupto é
tão comum e funcional porque esta dupla militância faz parte de uma
certa normalidade social, aparecendo em muitas instâncias da vida
citadina. Todos estamos, de algum modo e em algum momento da vida
cidadã, vivendo no modelo de dupla militância, quando somos
cidadãos da sociedade maior e somos, simultaneamente, leais a uma
sociedade secreta, ou sociedades reservadas, clubes, instituições
bairristas, sendo que, não raramente, a lealdade aos grupos pode ser
contraditória ao pacto social maior, e até mesmo desleal a ele, sem
que com isso o tecido social se deteriore ao ponto da ruptura. A
dupla militância do corrupto se dá quando “uma militância se
alimenta de outra”, parasitando-a e escondendo seu parasitismo,
pois “se descoberto, isso seria a morte do parasita; de outro lado,
o parasita também vai morrer se sua ação predatória levar a morte
o hospedeiro”. Essas tendências à morte colocam os conluios
fragilizados por sua própria fantasia de onipotência, fantasia esta
que os protegem da vergonha no caso de serem descobertos, fazendo uma
grita em nome da decência e ética do bando. Conhecemos o passado de
alguns corruptos comprovados da nação, que gritaram pela decência
e ética, para depois usar essa voz em seu favor no momento de criar
os bandos. No caso de políticos, é comum irem ao palanque defender
a honra e ética, falando contra os corruptos antigos, só para em
seguida implantarem, escudados pelo discurso da ética, os
saqueadores das instituições nas quais se instalam. Talvez, imagino
eu, a nossa dupla-militância social explique uma certa complacência
com a corrupção, levando o cidadão a eleger os mesmos corruptos
cujas práticas parasitárias já foram denunciadas e, eventualmente,
punidas. Penso ainda, que há uma certa inveja do cidadão comum, por
ser mantido fora destas agremiações...Não é incomum ouvir: Ah se
eu tivesse essa oportunidade!
O corrupto, portanto, vive um
estado de contradição generalizada, “um estado crônico de
incompatibilidade” entre sua lealdade ao sistema corrupto e a
lealdade ao sistema social. E esta contradição se estabiliza,
segundo LCF, na dupla militância, é preciso ser um “cidadão
acima de qualquer suspeita” para que o cidadão corrupto possa
usufruir de máxima eficiência (de poder). O sentimento de culpa “é
um sentimento que quase nunca aparece, provavelmente porque a
lealdade em relação a uma outra comunidade suprime (grifo
do autor) o sentimento de culpa por estar traindo a outra”.
Ao final das contas LCF não
consegue decidir-se por uma “cisão” ou “recalque” e se
pergunta o que dirige o corrupto. E encerra:
“Enfim, diante do corrupto não
há motivo de inveja ou de ódio”. Sobre ele pesam contínuas
ameaças e sua vida não está nada fácil. Todo o carinho e
compreensão que lhe pudermos dedicar ainda há de ser pouco”.