Neste 2011 iniciei uma pesquisa que visa compreender as relações do sul mineiro com o extinto Hospital Psiquiátrico São Camilo, que fez história nos anos setenta e desapareceu do cenário urbano para entrar no imaginário da cidade de Pouso Alegre, tornando-se personagem cujas histórias habitam o mundo do mito. Farei o trabalho sob coordenação da Profª. Drª Eni Orlandi, ao lado de uma dezena de colegas que estudarão outros processos identitários do sul mineiro. Trata-se do mesmo grupo cujo trabalho acabou sendo publicado neste último fevereiro sob o título Discurso, espaço, memória - caminhos da identidade no sul de Minas. Neste mesmo blog chamei a atenção para o texto que lá publiquei.
Bem, desta vez, falando de loucura, do imaginário sul mineiro a respeito do dito hospital já coloquei um título provisório:
A MEMÓRIA DA LOUCURA EM POUSO ALEGRE
Bem, desta vez, falando de loucura, do imaginário sul mineiro a respeito do dito hospital já coloquei um título provisório:
A MEMÓRIA DA LOUCURA EM POUSO ALEGRE
Hospital São Camilo: o edifício do insensato da cidade
O Hospital São Camilo, hoje desativado, em cujo prédio atualmente funciona um asilo para idosos, teve uma vida fulgurante na primeira metade da década de setenta do século XX. Criado por uma junta de médicos residentes em Pouso Alegre, sob comando de um médico psiquiatra, foi especialmente criado para internação psiquiátrica e chegou a ter 120 internos por alguns anos, com uma fila de espera da ordem de dezenas de pacientes. Sua breve vida no tecido urbano pousoalegrense, mantém viva toda uma memória da loucura para o sul mineiro, frequentando o imaginário popular das mais diversas maneiras, como o espaço e território da loucura da/na cidade. Nos seus primórdios sua localização o colocava à beira de uma rodovia, às margens do perímetro urbano, quase na zona rural, como convinha à desrazão, ao insensato, à moira. A cidade conviveu, naquele curto espaço de tempo, com essa margem ou limbo em seu discurso municipal, que acabou por se propagar no tempo, mesmo depois da desativação dos serviços psiquiátricos. Muitos anos depois, apesar daquele prédio ter sido usado como hospital geral, e atualmente, como asilo, sobrevive na memória do pousoalegrense como um lugar de loucos.
Cremos que ao estudar a existência daquele hospital podemos nos dar conta de uma memória que ainda faz efeitos, porque discursiva, nos discursos dos sujeitos da cidade de Pouso alegre, e que poderá nos apresentar alguns sentidos de identificação do sulmineiro. Por meio de uma teoria do discurso elaborada a partir das contribuições de Pêcheux e Orlandi, no interior do dispositivo teórico Análise de Discurso, vamos estudar os efeitos de sentido surgidos a partir da relação do sulmineiro com aquele hospital. Como pano de fundo, nos debruçaremos sobre algumas obras de Foucault, especialmente Doença mental e psicologia, História da loucura, Nascimento da clínica, O poder psiquiátrico, Os anormais, A hermenêutica do sujeito. Não se tratará, nesta pesquisa de fazer uma história da loucura em Pouso Alegre, mas sim de que loucura o sujeito pousoalegrense fala quando toma como referência o Hospital São Camilo, que foi (e de certo modo ainda é), o lócus da memória que delira e desliza no corpo da cidade. Esse murmúrio, que se faz ouvir até hoje, poderá nos dar alguma pista de como se faz memória discursiva, tanto teoricamente, quanto nas práticas discursivas políticas, urbanas e munícipes (instituições administrativas). O projeto, coordenado pela professora Eni P. Orlandi (UNIVÁS), iniciou sua segunda fase em 2011, sendo que a primeira gerou o livro "Discurso, Espaço, Memória - Caminhos da identidade no sul de Minas", onde escrevi o artigo O teatro de Pouso Alegre - a arquitetura da memória pousoalegrense: um drama nas terras do Mandu.