quarta-feira, 24 de junho de 2020

Ideologia política também é reação fisiológica

Palavras por dizer by Levi Leonel
Os estados do corpo o ajudam a decidir o que fazer frente aos fatos da vida. Como diz David Eagleman, em seu livro “Cérebro, uma biografia”: “as emoções fazem mais do que dar riqueza a nossa vida – também são o segredo por trás de como dirigimos o que fazemos em cada momento”. Neurocientistas já relacionam a região do córtex orbitofrontal, um pouco acima dos olhos, como aquela que recebe os sinais que advém do corpo, tais como, fome, excitabilidade nervosa, sede, alegria. Eles nos ajudam a escolher o que fazer, depois que resumos de sensações corporais nos indicam o que decidir a partir de um balanço dos ganhos e perdas ligados a cada evento. Isto indica que o cérebro não é exatamente aquele que comanda “o corpo do alto” (idem), mas sim aquele órgão que recebe sinais físicos do corpo para levar o eu a tomar decisões. Uma imensidão de informações externas está ajudando o cérebro a dirigir o eu para sua melhor performance possível, apesar de todos os problemas que significa agir. Sem garantias, toda ação depende da interpretação que o cérebro está habituado a fazer dos mesmos sinais que vem do corpo, que por sua vez, por meio de um sistema absurdo de conexões com o ambiente, fornece material para a reação. “Na maioria das situações, os sinais fisiológicos são mais sutis e ficamos inclinados a não ter consciência deles. Porém [são] essenciais para conduzir as decisões que precisamos tomar” (idem).
Como decidir frente a uma guloseima; se vai devora-la ou declinar deste prazer? Sua experiência corporal ajudará na decisão – desconforto corporal em cascata, do tipo transpiração na palma das mãos por saber que vai interromper a dieta, desconforto estomacal, intestinal; mas, também a delícia de sentir na boca aqueles sabores. Aí você pode, em um momento que reluta, ler as informações nutricionais e sentir desconforto físico tão sutil, que não o percebe. Mas o cérebro sim. E aí “os estados fisiológicos do corpo [são a chave ajuda] a desequilibrar esta batalha”, permitindo que uma rede de sensações vençaa outra, surgido o ato de decidir.
 Às vezes essas escolhas são tão sutis e intrincadas que não se percebe sua ação a não ser como um comportamento geral que chamamos de ideologia. O neurocientista Read Montague (citado por Eagleman), conseguiu demonstrar que há ligação “entre a opinião política de uma pessoa e o caráter das suas reações emocionais” [corporais] (idem). Ele colocou pessoas frente a imagens com fezes, cadáveres, comida com moscas etc. e registrou suas reações de repulsa. Depois fez um levantamento sobre a ideologia política de cada um perguntando sobre controle de armas, aborto, sexo antes do casamento e outras escolhas cotidianas. Montague “descobriu que, quanto mais enojado o participante fica com as imagens, mais politicamente conservador ele deve ser. Quanto menos enojado, mais liberal. A correlação é tão forte, que a reação neural de uma pessoa a uma única imagem repulsiva prevê sua pontuação no teste de ideologia política com uma precisão de 95%” (idem).
O estudo aponta para a ideia de que sua orientação política, sua ideologia, aparece num ponto qualquer a meio caminho entre as reações fisiológicas ao ambiente e as reações cerebrais, ou no entremeio corpo/mente, unindo aquilo que é corporeidade com aquilo que é do pensamento. Se há essa correlação entre ideologia conservadora e reação de repulsa por imagens e situações que enojam, resta saber como isso foi aprendido durante a evolução de criança em adulto. Mas esta é outra história. A leitura do livro “Cérebro: uma biografia” pode ajudar a entender esse mistério.