sábado, 26 de dezembro de 2020

A interpretação dos sonhos

by Levi Leonel de Souza
No livro 'A Interpretação dos Sonhos' (Freud 1900) podemos trocar "sonhos" por "desejos" sem prejuízo para a obra; melhor dizendo, coloca num lugar privilegiado um significante que aparece mais rareado que “sonhos”, ainda que não só pontualmente. No entanto, é disso que se trata - interpretação do desejo. Sonhar é desejar e interpretar sonhos será, sempre, interpretar desejos, ainda que sejam desejos inconscientes para o sujeito. Assim encarado, seu livro é um tratado sobre a liturgia do sonhante, fazendo um sem-fim de rituais inconscientes para atingir um desejo, não disponível para a consciência. Dizendo de outro modo, essa liturgia muito pessoal - com atinos e desatinos muito particulares a um sujeito de desejo, que aparece durante a noite na forma de imagens e sons - visa satisfazer desejos. Se analisarmos o desejo inconsciente (o sonho) e trouxermos suas significações à luz da consciência, o sujeito poderá lidar melhor com o desejo inconsciente que torce sua vida enquanto acordado.

No entanto, podemos nos perguntar: se sonho é desejo, que desejo é este que não aparece de modo claro em toda sua gramática? Que desejo é este que só posso confessar à noite, no escuro, ainda assim de modo cifrado, ao ponto de que nem sonhante, nem analista, podem acessa-lo a não ser com muito custo? Segundo Freud, trata-se de desejos que não podem vir à consciência, por seu conteúdo sexual; conteúdo este inaceitável para o sujeito, embora o deseje de algum modo. Além disso, o sonho é um desejo sexual infantil, portanto causador de um estado de atordoamento do sujeito que o reprimiu ou recalcou e o enviou para um "lugar" escondido de si mesmo para evitar seu próprio julgamento. Julgamento este sempre bastante rígido, seguindo ordenamento moral social. Esses desejos sexuais infantis são inadequados, segundo esta moral, levando o próprio sujeito a esconder de si estes perigos representados por estes anseios. 

Como os analistas sabem que não apenas no sonho aparecem os desejos inconscientes, eles analisam a fala do analisante, pois está nas palavras o lugar privilegiado do desejo inconsciente; é na massa de ditos, mas também de não-ditos, que acaba se montando uma constelação de palavras que circunscrevem o desejo escondido. Fino modo, podemos dizer que conversar é sonhar; e é falando que expomos nosso desejo sexual infantil. Aquele mesmo que foi recalcado ou reprimido por representar uma ameaça moral ao sujeito. 

Mas como nada é tão simples, em se tratando do sujeito do desejo, toda uma estrutura é montada para que o sujeito não se assujeite a este desejo muito inicial, inadequado. Então, o sujeito, monta uma vida que possui estrutura onírica, estrutura de sonho; quase tudo que o sujeito faz em seu erguimento de criança em adulto, visa disfarçar seus desejos infantis sexuais. É toda uma vida onírica, em estado de vigília, constituída de palavras, atos, modos de dizer e de ouvir, paixões, trabalho, amores - tudo visando satisfazer esta espécie de desejo original. Mas, de modo que o sujeito não se dá conta disso. O desejo original se esconde nos sonhos, nas conversas, nas piadas, no trabalho, nos estudos, nas conversas pelas mídias sociais e um sem número de atos da vida. 

E podemos fazer mais uma pergunta: de que ordem é o desejo que surge nos sonhos, que só pode ser confiado ao mundo onírico e de forma criptografada? A resposta não é fácil, mas podemos arrisca-la de modo abrupto. Se sonho é satisfação de desejo, e de um desejo sexual infantil, então o desejo infantil deverá ser um desejo sexual necessariamente incestuoso, pois a criança não tem como desejar para além dos contornos oferecidos por um número bem reduzido de pessoas que cuidam dela. Este desejo afastado da consciência deverá ser incestuoso, por definição. Deste modo, o analista analisa o desejo incestuoso em seu trabalho de análise do sujeito de desejo. Este sujeito é assujeitado ao desejo incestuoso e passará uma vida tendo que se haver com este desejo que lhe parece estrangeiro, porém, ao mesmo tempo tão familiar, por causa desta antiga paixão.

Se trocarmos sonho por desejo e desejo por amor, temos que essa obra é uma longa série de entradas nos domínios do amor; e desta vez fica mais sofisticado dizer amor incestuoso. Não há saída para o bebê, depois criança e depois menina ou menino, a não ser viver um amor que seja encantado pela presença maternante, ou seja, pelo corpo, voz, olhar, cheiro, respiração e um sem número de vivências com a corporeidade de um outro que lhe põe em contato com a realidade. Aí, lembramos que Ferenczi, um psicanalista contemporâneo de Freud, disse que não analisava adultos, apenas crianças, deixando entrever que analisava o infantil no adulto. Este infantil, que mesmo no adulto mais longevo está se havendo com seus primeiros amores. Daí que uma psicanálise trata de amores incestuosos, necessariamente inconscientes. A interpretação dos sonhos freudiana é um trabalho de decifração dos modos como se dão esses amores. Amores muito antigos, vindos da pré-história do sujeito, que seguem vingando na forma de aturditos, uma tradução da palavra l’aturdit que Lacan propõe para falar deste estado de paixão. Ditos atordoantes que constituem o sujeito. Um sujeito aturdido pelo que lhe sai pela boca, mas também pelo que lhe povoa a vida noturna. 

quarta-feira, 24 de junho de 2020

Ideologia política também é reação fisiológica

Palavras por dizer by Levi Leonel
Os estados do corpo o ajudam a decidir o que fazer frente aos fatos da vida. Como diz David Eagleman, em seu livro “Cérebro, uma biografia”: “as emoções fazem mais do que dar riqueza a nossa vida – também são o segredo por trás de como dirigimos o que fazemos em cada momento”. Neurocientistas já relacionam a região do córtex orbitofrontal, um pouco acima dos olhos, como aquela que recebe os sinais que advém do corpo, tais como, fome, excitabilidade nervosa, sede, alegria. Eles nos ajudam a escolher o que fazer, depois que resumos de sensações corporais nos indicam o que decidir a partir de um balanço dos ganhos e perdas ligados a cada evento. Isto indica que o cérebro não é exatamente aquele que comanda “o corpo do alto” (idem), mas sim aquele órgão que recebe sinais físicos do corpo para levar o eu a tomar decisões. Uma imensidão de informações externas está ajudando o cérebro a dirigir o eu para sua melhor performance possível, apesar de todos os problemas que significa agir. Sem garantias, toda ação depende da interpretação que o cérebro está habituado a fazer dos mesmos sinais que vem do corpo, que por sua vez, por meio de um sistema absurdo de conexões com o ambiente, fornece material para a reação. “Na maioria das situações, os sinais fisiológicos são mais sutis e ficamos inclinados a não ter consciência deles. Porém [são] essenciais para conduzir as decisões que precisamos tomar” (idem).
Como decidir frente a uma guloseima; se vai devora-la ou declinar deste prazer? Sua experiência corporal ajudará na decisão – desconforto corporal em cascata, do tipo transpiração na palma das mãos por saber que vai interromper a dieta, desconforto estomacal, intestinal; mas, também a delícia de sentir na boca aqueles sabores. Aí você pode, em um momento que reluta, ler as informações nutricionais e sentir desconforto físico tão sutil, que não o percebe. Mas o cérebro sim. E aí “os estados fisiológicos do corpo [são a chave ajuda] a desequilibrar esta batalha”, permitindo que uma rede de sensações vençaa outra, surgido o ato de decidir.
 Às vezes essas escolhas são tão sutis e intrincadas que não se percebe sua ação a não ser como um comportamento geral que chamamos de ideologia. O neurocientista Read Montague (citado por Eagleman), conseguiu demonstrar que há ligação “entre a opinião política de uma pessoa e o caráter das suas reações emocionais” [corporais] (idem). Ele colocou pessoas frente a imagens com fezes, cadáveres, comida com moscas etc. e registrou suas reações de repulsa. Depois fez um levantamento sobre a ideologia política de cada um perguntando sobre controle de armas, aborto, sexo antes do casamento e outras escolhas cotidianas. Montague “descobriu que, quanto mais enojado o participante fica com as imagens, mais politicamente conservador ele deve ser. Quanto menos enojado, mais liberal. A correlação é tão forte, que a reação neural de uma pessoa a uma única imagem repulsiva prevê sua pontuação no teste de ideologia política com uma precisão de 95%” (idem).
O estudo aponta para a ideia de que sua orientação política, sua ideologia, aparece num ponto qualquer a meio caminho entre as reações fisiológicas ao ambiente e as reações cerebrais, ou no entremeio corpo/mente, unindo aquilo que é corporeidade com aquilo que é do pensamento. Se há essa correlação entre ideologia conservadora e reação de repulsa por imagens e situações que enojam, resta saber como isso foi aprendido durante a evolução de criança em adulto. Mas esta é outra história. A leitura do livro “Cérebro: uma biografia” pode ajudar a entender esse mistério.