A maioria das pessoas se sente muito bem na maior parte do tempo. Elas conseguem dormir à noite; a fome, o apetite sexual e a vontade de saber mais funcionam normalmente; concentram-se naquilo que estiverem fazendo, planejam, enfrentam as dificuldades e têm expectativa de que tudo dará certo. Aproveitam a presença da família e de amigos e se sentem razoavelmente satisfeitas consigo mesmas, aceitando as próprias fraquezas, conscientes dos seus pontos positivos, capazes de se perdoar pelas falhas graves e de comemorar suas aptidões e realizações - se é que chegam a pensar nessas coisas.
No entanto, quase de um dia para o outro, tudo isso pode dar errado. Para o deprimido, nenhuma dessas certezas banais é infalível. O sono torna-se incerto, o futuro parece sombrio ou impossível, não há prazer na vida, e fazer coisas simples, como ler um jornal ou ver um programa na TV, transforma-se num problema. A agitação ou a letargia passa a dominar. Quando a depressão aparece, a visão que se tem de si mesmo transforma-se de aceitação e satisfação em aversão, em culpa por falhas imaginárias de omissão ou de responsabilidade e, ao final, em vontade de morrer.
[...] A depressão, na forma como a concebemos hoje, é produto tanto da influência sutil da indústria farmacêutica no modo como encaramos a nossa vida emocional quanto da medicina psicológica, os fabricantes de antidepressivos fazem questão de que a aflição seja entendida como depressão para criar a necessidade dos seus produtos.
Freud, seus contemporâneos e seus predecessores escreveram não sobre a depressão e sim sobre a "melancolia" (literalmente, "humor negro"). Eles procuravam entender aquilo que hoje chamamos de depresão psicótica. Tal estado, segundo o entendimento moderno, seria classificado de distúrbio depressivo maior e psicose maníaco-depressiva. Esses, sim, podem ser chamados de doenças mentais, ao contrário da "depressão clínica", mais comum, familiar para a grande maioria, seja de pacientes (uma entre quatro pessoas sofre de depressão durante a vida), seja de profissionais consultados para "tratar" esse estado corriqueiro.
Como ex-neurologista, Freud fez sua primeira incursão na psiquiatria com a "histeria" - ou seja, sintomas físicos dramáticos de origem supostamente não "orgânica" - enfermidade que muitos estudiosos da psiquiatria consideram praticamente extinta no mundo ocidental. O que existe hoje no Ocidente, em vez de histeria, é a depressão e a angústia. Vale notar, porém, que em muitas culturas a linguagem predominante pela qual a aflição emocional se manifesta é a corporal. Os iorubás da Nigéria, por exemplo, não têm uma palavra que designe a depressão, e os pacientes que um médico formado no Ocidente consideraria deprimidos apresentam-se em muitos lugares do mundo em desenvolvimento com sintomas como "coração pesado", dores abdominais e náusea ou fraqueza geral no corpo.
[...] Apesar disso, a depressão será em todo o mundo o maior problema de saúde física ou mental por volta de 2020, segundo o Organização Mundial de Saúde. Isso representa um desafio enorme para os órgãos de saúde pública.
A fenomenologia da depressão
[O estadista] Winston Churchill [...] apelidou sua depressão de “cão preto”, [...] o escritor William Styron [chamou-a por] Escuridão Visível. Por que associamos a depressão – e também a sua prima próxima, a morte – com escuridão? [...] Estar no escuro é estar dissociado, perdido; a luz simboliza apego e segurança, abertura e não clausura.
Styron fala do abismo (ou “parede de vidro”, como muitos pacientes dizem) que o depressivo sente entre si mesmo e tudo que é bom e desejável. A luz está lá (“num dia luminoso”), mas por algum motivo se encontra fora do alcance, inacessível.
[...] A depressão, desse ponto de vista, não é nada mais nada menos que uma ferida narcísica que nos faz lembrar da nossa fragilidade, impotência, incapacidade de controlar aqueles de quem dependemos e da nossa vulnerabilidade à perda.
Assim a depressão é sombria, solitária, desligada. O deprimido é cheio de ódio, no duplo sentido de que se consome de ódio e provoca rejeição. No fundo, o apego do deprimido aos seus entes queridos e à própria vida se desfaz. A raiva e o ódio da depressão podem ser vistos como uma tentativa de punir o mundo e a si mesmo, por terem permitido que essa ligação terminasse, e também como uma investida por inveja contra os que não se sentem tão aflitos. É também uma tentativa desesperada de restabelecer o convívio. Uma infelicidade óbvia ou um surto de raiva força os outros a prestar atenção; é uma súplica e uma advertência: “por favor, não me rejeitem de novo”.
[...] Estar deprimido é estar faminto, privado de alimento, é perder o objeto de amor. A depressão é o risco que todos correm quando se apaixonam. Para o bebê, a mãe que alimenta e conforta é também aquela que pode abandoná-lo. Vista assim, a depressão é inerente a condição humana. Isso está expresso na psicanálise na situação edipiana, em que a criança, à medida que cresce, precisa conciliar seu desejo de posse exclusiva da mãe com a realidade de que ela é fruto da sexualidade dos pais e tem de aceitar a divisão da atenção com o pai e os irmãos, nascidos ou por nascer.
Perfis clínicos da depressão
[Há a] “depressão psicótica”, em que a culpa depressiva assume proporções de delírio. A obsessão e uma tendência para a depressão andam sempre juntas. As defesas obsessivas representam uma tentativa de impor ordem a um mundo inerentemente caótico – de controlar o incontrolável. [...] A culpa depressiva e a condenação de si mesmo, desproporcionais diante da responsabilidade que a sociedade exigiria do indivíduo, frequentemente de uma maneira quase delirante, mantém a ficção de que tudo poderia ser controlado caso se conhecesse uma conduta correta.
[...] A origem da boa auto-estima está numa relação íntima e afetuosa com os pais. Sem essa auto-estima, a pessoa se torna suscetível às dificuldades e aos traumas que a vida apresenta.
[...] Da perspectiva psicanalítica, o ódio depressivo por si mesmo é um deslocamento. [...] A autodestrutividade da depressão, aparentemente incompreensível, começa a fazer sentido quando se vê que ela é dirigida não para o eu, mas para outra pessoa com quem o deprimido se sinta decepcionado.
[...] Uma pessoa com apego seguro [na infância, a uma pessoa] tem, quando adulta, uma representação interna daqueles que são próximos. A perda é suportável e superável por causa dessa representação interna segura. Quando há apego ambivalente, a representação interna é problemática e faz necessária a presença física de uma figura de apego para que o indivíduo se sinta seguro. Perdida essa pessoa, a depressão reaparece. (Jeremy Holmes - 2005 - Depressão - Coleção Conceitos da Psicanálise)
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