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terça-feira, 7 de abril de 2015

A clínica do vazio - a análise do limbo de ser!

Os motivos pelos quais uma pessoa procura o psicanalista quase sempre encobrem os motivos reais. Winnicott, psicanalista inglês, cuja obra orienta minha atitude frente ao analisante, tentou várias vezes, e em diferentes momentos, lembrar o analista do "nada no centro" de algumas pessoas - o verdadeiro motivo que leva muita gente até a análise. Em uma nota de 1959, Winnicott expôs o caso de um homem - que ilustra essa experiência do "nada central". Na análise, o psicanalista teve que se haver com um "estado de chafurdamento" que era muito alarmante para o analisante. Depois de analisado o grosso das defesas contra essa mistura de atolamento, lama, lodo, onde nada impressionava, mas também nada podia ser criado, o paciente se deparou com o que chamo de "limbo" - um espaço em que os significados comuns da vida inexistem; apenas se reage ao que é imediato, necessário ou às urgências físicas. Um espaço que é uma borda, uma margem, onde os significados usuais da vida ficam nesta orla, litoralizados, sem poder habitar o centro do eu. "Em determinada camada, quando gradualmente eliminamos todas as colisões, de maneira que ele não tinha mais nada a que reagir, ele se tornou uma coisa no espaço, a ignorar o tempo e a posição", nos informa o psicanalista Winnicott.
Essa experiência de nada central é muito explorada por James Grotstein em seu livro "O buraco negro", relacionando-o com o sem-sentido, o caos e o aleatório no viver. Viver de modo aleatório, caótico e sem sentido é o que toma o centro da pessoa que vivencia este estado de nada ser - sem organização e integração pessoal suficiente para sentir que existe como um "eu". Sente-se uma coisa e frequentemente coisifica o que toca ou vê. Um dos meus pacientes que vive neste estado de viscosidade existencial diz: "olho para as pessoas e as vejo como são por dentro - somente ossos, e órgãos". Seu sofrimento indizível é traduzido cotidianamente em acontecimentos descarnados ou desalmados; suas vivências pessoais são simulacros de vivências, ele as vive como vindas de fora, sem relação pessoal com seus resultados em si mesmo ou no mundo. Suas vivências não lhe concernem; elas são acidentes. Elas não se tornam experiências pessoais; no máximo são vivências. Sua psicanálise remonta um ego que possa migrar a libido das fixações orais, para as anais e finalmente habitar um terreno genital-fálico - um trabalho de uma vida inteira para florescer algo em seu centro.
A psicanálise, em certos casos, apenas proporciona um centro de gravidade para que o conjunto de experiências do eu faça uma rotação e translação minimamente necessárias para que o analisante possa se tornar uma pessoa total, no dizer de Winnicott. Não se trata de uma cura e sim de uma construção que se dá da pele para os órgãos. O problema reside no fato de que o construtor é o próprio analisante, cujo olhar está comprometido pelo nada central e que, a despeito disto, deve erigir seu próprio centro onde nada ou muito pouco viceja. Um trabalho para um Hércules...

quarta-feira, 25 de março de 2015

Para quê serve a Psicanálise?

Por definição, quem procura o psicanalista, está tentando descobrir qual a sua responsabilidade no seu sofrimento; está tentando reescrever seu destino; reescrever sua história e seu futuro. Pois, se o destino não está escrito, o passado também não. 
De algum modo o paciente de análise intui que pode ressignificar suas reminiscências e construir um outro futuro para si. Como a psicanálise não faz milagres, é permitido ao sujeito ser sujeito de sua vida, sem grandes acidentes; é permitido que se enriqueça por si mesmo, que acenda uma vela na escuridão e possa ver algumas sombras. Pois onde há sombra há luz. Mas acredite, com esse pouco de luz dá para se ir longe na arte de existir. A psicanálise é uma vela e não uma bengala. Não ofusca e nem se entrega ao breu. Por isso uma psicanálise incomoda ao analisante e aos que privam de seu entorno.
O resultado, depois deste período de purgatório pessoal, é contentamento e serenidade; energia e atitude; responsabilidade e generosidade. Podemos dizer que o eixo procurado pelo analista e analisante é o eixo do amor. Deste modo, resumindo, é uma psicanálise do amor; seu final é a capacidade para amar, fazer sexo, criar e cuidar, projetar, realizar.
Afinal, foi Freud que disse: “Todo tratamento psicanalítico é uma tentativa para libertar o amor recalcado.” E Sartre disse: "O importante não é aquilo que fizeram de nós, mas o que nós mesmos fazemos com aquilo que fizeram de nós". Essas duas premissas unidas é o que move minha psicanálise...

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

DEPRESSÃO - 1

A maioria das pessoas se sente muito bem na maior parte do tempo. Elas conseguem dormir à noite; a fome, o apetite sexual e a vontade de saber mais funcionam normalmente; concentram-se naquilo que estiverem fazendo, planejam, enfrentam as dificuldades e têm expectativa de que tudo dará certo. Aproveitam a presença da família e de amigos e se sentem razoavelmente satisfeitas consigo mesmas, aceitando as próprias fraquezas, conscientes dos seus pontos positivos, capazes de se perdoar pelas falhas graves e de comemorar suas aptidões e realizações - se é que chegam a pensar nessas coisas.
    No entanto, quase de um dia para o outro, tudo isso pode dar errado. Para o deprimido, nenhuma dessas certezas banais é infalível. O sono torna-se incerto, o futuro parece sombrio ou impossível, não há prazer na vida, e fazer coisas simples, como ler um jornal ou ver um programa na TV, transforma-se num problema. A agitação ou a letargia passa a dominar. Quando a depressão aparece, a visão que se tem de si mesmo transforma-se de aceitação e satisfação em aversão, em culpa por falhas imaginárias de omissão ou de responsabilidade e, ao final, em vontade de morrer.
    [...] A depressão, na forma como a concebemos hoje, é produto tanto da influência sutil da indústria farmacêutica no modo como encaramos a nossa vida emocional quanto da medicina psicológica, os fabricantes de antidepressivos fazem questão de que a aflição seja entendida como depressão para criar a necessidade dos seus produtos.
    Freud, seus contemporâneos e seus predecessores escreveram não sobre a depressão e sim sobre a "melancolia" (literalmente, "humor negro"). Eles procuravam entender aquilo que hoje chamamos de depresão psicótica. Tal estado, segundo o entendimento moderno, seria classificado de distúrbio depressivo maior e psicose maníaco-depressiva. Esses, sim, podem ser chamados de doenças mentais, ao contrário da "depressão clínica", mais comum, familiar para a grande maioria, seja de pacientes (uma entre quatro pessoas sofre de depressão durante a vida), seja de profissionais consultados para "tratar" esse estado corriqueiro.
    Como ex-neurologista, Freud fez sua primeira incursão na psiquiatria com a "histeria" - ou seja, sintomas físicos dramáticos de origem supostamente não "orgânica" - enfermidade que muitos estudiosos da psiquiatria consideram praticamente extinta no mundo ocidental. O que existe hoje no Ocidente, em vez de histeria, é a depressão e a angústia. Vale notar, porém, que em muitas culturas a linguagem predominante pela qual a aflição emocional se manifesta é a corporal. Os iorubás da Nigéria, por exemplo, não têm uma palavra que designe a depressão, e os pacientes que um médico formado no Ocidente consideraria deprimidos apresentam-se em muitos lugares do mundo em desenvolvimento com sintomas como "coração pesado", dores abdominais e náusea ou fraqueza geral no corpo.
    [...] Apesar disso,  a depressão será em todo o mundo o maior problema de saúde física ou mental por volta de 2020, segundo o Organização Mundial de Saúde. Isso representa um desafio enorme para os órgãos de saúde pública.

A fenomenologia da depressão 
    [O estadista] Winston Churchill [...] apelidou sua depressão de “cão preto”, [...] o escritor William Styron [chamou-a por] Escuridão Visível.  Por que associamos a depressão – e também a sua prima próxima, a morte – com escuridão? [...] Estar no escuro é estar dissociado, perdido; a luz simboliza apego e segurança, abertura e não clausura.
Styron fala do abismo (ou “parede de vidro”, como muitos pacientes dizem) que o depressivo sente entre si mesmo e tudo que é bom e desejável. A luz está lá (“num dia luminoso”), mas por algum motivo se encontra fora do alcance, inacessível.
[...] A depressão, desse ponto de vista, não é nada mais nada menos que uma ferida narcísica que nos faz lembrar da nossa fragilidade, impotência, incapacidade de controlar aqueles de quem dependemos e da nossa vulnerabilidade à perda.
Assim a depressão é sombria, solitária, desligada. O deprimido é cheio de ódio, no duplo sentido de que se consome de ódio e provoca rejeição. No fundo, o apego do deprimido aos seus entes queridos e à própria vida se desfaz. A raiva e o ódio da depressão podem ser vistos como uma tentativa de punir o mundo e a si mesmo, por terem permitido que essa ligação terminasse, e também como uma investida por inveja contra os que não se sentem tão aflitos. É também uma tentativa desesperada de restabelecer o convívio. Uma infelicidade óbvia ou um surto de raiva força os outros a prestar atenção; é uma súplica e uma advertência: “por favor, não me rejeitem de novo”.
[...] Estar deprimido é estar faminto, privado de alimento, é perder o objeto de amor. A depressão é o risco que todos correm quando se apaixonam. Para o bebê, a mãe que alimenta e conforta é também aquela que pode abandoná-lo. Vista assim, a depressão é inerente a condição humana. Isso está expresso na psicanálise na situação edipiana, em que a criança, à medida que cresce, precisa conciliar seu desejo de posse exclusiva da mãe com a realidade de que ela é fruto da sexualidade dos pais e tem de aceitar a divisão da atenção com o pai e os irmãos, nascidos ou por nascer.
Perfis clínicos da depressão
[Há a] “depressão psicótica”, em que a culpa depressiva assume proporções de delírio. A obsessão e uma tendência para a depressão andam sempre juntas. As defesas obsessivas representam uma tentativa de impor ordem a um mundo inerentemente caótico – de controlar o incontrolável. [...] A culpa depressiva e a condenação de si mesmo, desproporcionais diante da responsabilidade que a sociedade exigiria do indivíduo, frequentemente de uma maneira quase delirante, mantém a ficção de que tudo poderia ser controlado caso se conhecesse uma conduta correta.
[...] A origem da boa auto-estima está numa relação íntima e afetuosa com os pais. Sem essa auto-estima, a pessoa se torna suscetível às dificuldades e aos traumas que a vida apresenta.
[...] Da perspectiva psicanalítica, o ódio depressivo por si mesmo é um deslocamento. [...] A autodestrutividade da depressão, aparentemente incompreensível, começa a fazer sentido quando se vê que ela é dirigida não para o eu, mas para outra pessoa com quem o deprimido se sinta decepcionado.
[...] Uma pessoa com apego seguro [na infância, a uma pessoa] tem, quando adulta, uma representação interna daqueles que são próximos. A perda é suportável e superável por causa dessa representação interna segura. Quando há apego ambivalente, a representação interna é problemática e faz necessária a presença física de uma figura de apego para que o indivíduo se sinta seguro. Perdida essa pessoa, a depressão reaparece. (Jeremy Holmes - 2005 - Depressão - Coleção Conceitos da Psicanálise)