sábado, 27 de agosto de 2011

Os sentidos tomando corpo!

Junto com Lauro Baldini (doutor em Linguística) publiquei um artigo para o livro chamado "Sujeito, Corpo, Sentido", uma obra que integrará a Coleção Linguística & Filologia. A partir de um dos capítulos de minha dissertação de mestrado "O discurso encarnado: ou a passagem da carne ao corpodiscurso", onde tratei da tatuagem como uma pele textual, escrevemos "Os sentidos tomando corpo". Aprofundamos consideravelmente aquilo que pude indicar na época, sob a égide dos sentidos de corpo tatuado. Excerto aqui algumas das considerações que pudemos levantar:
       "A escrita na pele atinge o processo de constituição dos sentidos? Esta é a questão proposta por Eni Orlandi em seu artigo “À flor da pele: indivíduo e sociedade”. Ali, a autora faz uma pergunta que usaremos como fio condutor deste trabalho: “Se [a tatuagem] atinge [o processo de constituição dos sentidos]”, continua a autora, “estamos diante de uma falha no ritual ideológico e temos assim a possibilidade de um furo no modo de individualização do sujeito moderno. Se não, estamos apenas diante de mais uma variável da tecnologia da escrita
Retomando a distinção proposta por Orlandi em seus últimos trabalhos entre o processo de assujeitamento e o processo de individuação, isto é, entre a entrada do sujeito no simbólico via interpelação pela ideologia e o modo como o Estado irá individuar o sujeito através de seus aparelhos, acreditamos poder confirmar que a tatuagem constitui sentidos pela produção de furo no modo de individuação; ela é a prova de falhas no ritual de evocação do sujeito em indivíduo. Neste “duplo movimento da subjetividade”, a tatuagem é por si mesma um passo no processo; de fato algo veio antes – a discursivização da carne ao ponto de que esta não seja apenas uma superfície na qual se escreve, mas, sim, na qual se inscreve, se marca por ranhuras no sentido. Como ser falante, o homem não vive seu corpo como um organismo natural, mas como parte de sua subjetividade.
[...] Pensar a tatuagem como um texto é pensá-la como lugar de um processo discursivo, como instância em que se pode observar a materialização da ideologia. Além disso, o corpo é texto inacabado, como todo enunciado, e a pele do corpo, que por si mesma já é um texto, na tatuagem acaba por receber inscrições na forma de uma segunda pele textual; um corpo que já é conformado, organizado como uma linguagem, parafraseando Lacan, recebe uma cobertura cortical de texto.
[...]E este corpo é atravessado pela linguagem, pois estamos desde sempre imersos no mundo do discurso. Há de se tentar sentidos a tais acontecimentos da carne, uma vez que se trata de significantes que não significam nada, pois, ao que propomos, se há significado para um significante, este já está no mundo da ideologia, do discurso, algo posterior às possíveis datas das inscrições da letra.
[...] Nesse jogo entre sentido e non-sens, a tatuagem também se organiza contraditoriamente, marcando na pele tanto o sentido quanto a falta de sentido. Contudo, parece que há um contingente expressivo de indivíduos marcando sua pele num formato “da moda”. Mesmo a tatuagem, que interpretamos como protetora (talismã) e sinaliza pertencimento, acaba por sofrer corrosão pela força das implicações do sujeito de mercado, individuado pelo Estado. O que ao invés de invalidar as asserções acima, apenas confirma a linguagem da tatuagem e seu discurso. Sua linguagem pictórica é um folículo recobrindo o discurso estofado pelo datado (inconsciente) e uma tentativa de reunir os estilhaços do sujeito. Podemos colocar o que dissemos em uma dicotomia: Escrita no corpo versus inscrição no corpo – fazendo da própria carne um talismã.
Escrever na pele, pensando-se como proprietário do argumento e evidência do sentido de uma tatuagem; enquanto que evocamos a inscrição como um acontecimento imbricado na escrita que fura a pele e constitui o subjetivo. A inscrição da letra no corpo, afetando a distância entre corpo e letra, traçando na pele “o traço sagrado da letra[1], fechando o corpo com sentidos ocultos aos outros, fazendo do corpo um amuleto da sorte; do destino, por conseguinte. São manifestações significantes nesta maneira peculiar de circulação de sentidos; o corpo inscrito está no espaço entre o sujeito e o mundo, o mundo entre o corpo inscrito e o sujeito, tornando-o tocável por uma “tribo” e intocável pelos demais; e o corpo inscrito entre o mundo e o sujeito, meio onde “se textualiza e circula afetado pela existência de significantes”. Usando as tatuagens como pontuações que visam o olhar do outro, empreendem um trabalho de construção de fronteiras, de cercas, que tanto protegem quanto aprisionam, nesse deslize constante do significante. Rabiscam suas letras dentro da carne na tentativa de conter o significante, de dar conta de um “transbordamento de um excesso de linguagem o tempo todo visível sobre o sujeito, que passou à necessidade de um excesso de marcas visíveis em si mesmo
O corpo textualizado na forma de “corpo-que-interpreta” busca conjurar o descontorno, o equívoco, o deslize de sentidos, o ambíguo; um corpo talismânico contra o retorno da letra (do real) e seus demônios. Inscrever textos no corpo afeta sua linguagem; agora o corpo totemizado, (diga-se também, objetalizado) como uma figa, pode reivindicar sua independência, tentando desesperadamente a substancialização. O sujeito tem a ilusão de poder dispor do sujeito-corpo como um objeto que desata males feitos e desrazões. A textualização do corpo funciona como um mapa dos descaminhos do sujeito frente a tudo poder ser dito e ter de dizer apenas algumas palavras. Ou ainda, de seu corpo poder significar tudo, porém acabar não significando mais do que pode significar. A tatuagem pode ser uma dessas buscas de jogar com o sentido e o non-sens, o assujeitamento e a revolta, a individuação e a resistência.
Se a tatuagem é uma escritura de si na forma de inscrição, o indivíduo ao se tatuar, busca a diferença, ser sujeito de si mesmo, uma autoria de si, contra todas as tecnologias que o ameaçam de pasteurização, essa assinatura de si na própria pele é uma marca visível de processos de subjetivação, que atinge o processo de constituição dos sentidos.
Finalizando esse percurso por algumas trilhas de sentidos praticados pelo corpo tatuado já podemos responder com segurança à pergunta que abriu nosso texto. O texto do corpo impõe básculas, deslizes e conformações não só ao processo de constituição, mas também aos de formulação e circulação dos sentidos. A tatuagem, como uma escrita de si na pele, faz furo nos modos de individuação do sujeito pelo poder e, também, nos processos de identificação ideológica.
Como emblema de si, como totem grupal ou como amuleto, o corpo tatuado ultrapassa em complexidade as outras tecnologias escritas, aparecendo como o lugar cuja superfície e profundidade tanto o sujeito quanto a ideologia buscam colonizar.   Textualizar a pele acaba por se tornar uma prática de si, uma cura, ou uma conjuração dos males do assujeitamento, uma vez que é terreno de disputa pelo Estado, pelo mercado e pelo capital, restando ao sujeito resistir. A tatuagem bem pode ser esta peça de resistência, ainda que sempre a ponto de ser sitiada, habitando ou criando falhas nos rituais de assujeitamento. Estrangeiro que vaga entre o privado e o político, uma vez tatuado, o corpo se torna uma cidadela do sujeito.     

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