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segunda-feira, 15 de janeiro de 2024

FREUD - GRUPO DE ESTUDOS

FREUD, PORQUÊ RAZÃO ESTUDÁ-LO?

GRUPOS ONLINE, GRATUITOS, TODO QUARTO SÁBADO DE CADA MÊS, das 09:00 h às 11:45 h

Motivos não faltam: Freud, como Platão, Descartes, Marx, Darwin, é um autor fundante de um campo novo de saber; de uma nova subjetividade, substituindo o sujeito cartesiano por um sujeito descentrado, cindido, estranho a si mesmo. Assim, estudar as ideias do pai da psicanálise, é habitar um novo mundo, infamiliar, escorregadio, cujas referências são os sonhos, os atos falhados, os esquecimentos, os chistes e outros eventos subjetivos que tomam a cena cotidiana.
Não é possível, contemporaneamente, produzir conhecimentos nas áreas das humanas, sem alguma referência à sua obra. É por essa razão que convido você para fazer parte do grupo de estudos freudianos, nessa fascinante saga a que ele se pôs a construir.

NOSSOS GRUPOS SÃO ÚNICOS NO GÊNERO, porque fazem um estudo frase a frase da obra freudiana, desde 1895 até 1939; um estudo extensivo, linha a linha, nota a nota, perscrutando o nascimento de cada conceito, proporcionando entender do que trata sua obra – a psicanálise. 

Ao entrar no grupo você recebe os links de cada encontro de leitura dos anos anteriores. Os encontros estão em: https://www.youtube.com/@levileonelsouza

Indicado para psicanalistas, psicólogos, psiquiatras, psicoterapeutas, educadores e leigos com interesse no autor. O único critério para participar é ter formação superior ou ser aluno de alguma disciplina das humanas em geral.

Para mais informações: mensagens para (11) 989899292 (Whatsapp).

Orientador: Levi Leonel de Souza – Neuropsicólogo CRP-SP 71348 – Psicanalista, mestre em ciências da linguagem, com a obra “O discurso encarnado: ou a passagem da carne ao corpodiscurso” em que entremeia Freud/Lacan/Winnicott, com Marx/Althusser e Saussure/Pêcheux; escreveu: “A clínica do vazio e o amor gelado” em que articula Freud, Winnicott e Lacan que aparece no texto “A mãe morta” de André Green; “Os sentidos tomando corpo”, articulando psicanálise e análise de discurso; e outros textos sobre o sujeito, subjetividade e corpo na/da cidade; estuda psicanálise desde 1978, quando se debruçou sobre a psicanálise de Wilhelm Reich/Gaiarsa trabalhando sobre os poderes do corpo no psiquismo; Carl Gustav Jung e sua tipologia psicológica (1985); Melanie Klein e as teses sobre os estados depressivos (1990); Winnicott e sua teoria do amadurecimento emocional; Lacan e sua tese sobre o inconsciente estruturado como uma linguagem; Pêcheux/Orlandi com a tese do sujeito assujeitado ao discurso; e outros textos sobre sujeito, poder, corpo. Atualmente usa essa trajetória para entender-se com a arte, especialmente seu uso como terapia, em seu projeto Pros&arte, nascido em São Paulo e levado a outras cidades na forma de palestras e oficinas de arteterapia.


quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

A psicanálise e seu dispositivo de análise!

O instrumento que o psicanalista usa para compreender o sintoma de seu analisando se chama "interpretação". É sua ferramenta para operar o dispositivo psicanalítico na busca de um caminho significativo entremeio a grande floresta enfeitiçada pelos desejos inconscientes de cada sujeito. É uma floresta encantada, com duendes, fadas, lobos maus, bruxas malvadas, princesas, feras e herois, funcionando a revelia da pessoa - que pensa estar no comando de suas ideias - sendo arrastada por essa trama de pensamentos, fantasias, desejos e pulsões, sob a sombra de sua consciência.
A interpretação é, então, o operador verbal, que deixa ver os ecos e luzes desta obscura floresta; ecos e luzes que surgem na forma de atos falhos, lapsos de língua, esquecimentos, sonhos, devaneios, chistes; e também no "como" a pessoa diz seus pensamentos e sentimentos; no ritmo, intensidade, conexão emocional com os outros e um sem número de associações livres. Na verdade, a livre associação de palavras pede a interpretação do analista.
Mas ai do analista que esquece que cada palavra tem um significado particular a cada pessoa. Acabará impingindo ao analisando sentidos estrangeiros a ele e fracassando ao entrar em contato com sua realidade singular. Isso porá a sucumbir todo o esforço da dupla - analista e analisando soçobram no mar de significados sem sentidos para ambos e a embarcação analítica não resistirá a borrasca da insatisfação.
Por isso o método psicanalítico implica que, além de ser respeitada a singularidade do analisando, o analista tenha, ainda, o cuidado de ter sempre em vista que o analisando seja dono de sua própria ressignificação, abstendo-se o analista de "ensinar", "orientar" ou "estudar" a história pessoal que se descortina (ou que se cerra obstinadamente) aos seus ouvidos.
Ao psicanalista resta expor o discurso do analisando. Um discurso que o analisando recusa, resiste, desloca; um discurso-sintoma de uma realidade psíquica que o analisando não cederá à luz a não ser com muito esforço. Finalmente, o analista não pode expor este sintoma, antes que o analisando tenha preparo para dele fazer uso significativo. Errando este timing, quase tudo terá sido em vão. Por isso, psicanalista e analisando devem ter a paciência de um artesão, deixando que o objeto a ver se mostre em seu tempo próprio.  

domingo, 3 de janeiro de 2016

Qual é o sofrimento psíquico do corrupto?

Como desenvolver um pensamento psicanalítico e ressignificar a palavra corrupção, se esta não advém da teoria psicanalítica? Há muito a psicanálise se esbate com palavras florescidas em outras disciplinas ou que vieram do senso comum. Mas, neste caso, como superar a dificuldade metodológica de criar um pensamento psicanalítico da corrupção, palavra que não surgiu no consultório de terapia? Ou pior, como analisar psicanaliticamente uma palavra tão carregada de juízo de valor, sem cair em psicanálise aplicada, de um já sabido pela clínica, tornando o objeto “corrupção” apenas ilustração de uma teoria? É o que Luís Claudio Figueiredo tenta responder em seu artigo “Pensamento clínico e corrupção. A corrupção entre ligações e desligamentos”, apresentado recentemente no XIX Encontro do curso de Especialização em Psicoterapia Psicanalítica (outubro 2015). Faço um comentário, antecipando que LCF pode não concordar com meus termos...

    Antes de alinhar alguns apontamentos sobre como se dá a corrupção é necessário afastar-se da tentação de ideologizar o termo tal como dizer que um partido é corrupto ou a direita ou esquerda são corruptas, ou patologizar, dizendo que a corrupção é uma doença ou que o corrupto é um doente, retirando a luz sobre o entendimento do que significa corromper.
    Primeiro, é necessário, para que haja a corrupção, um pacto instituído como uma sociedade clandestina, sob a pele do pacto social maior e geral – a sociedade com todos seus dispositivos de funcionamento. Viceja, o pacto ilícito, ao mesmo tempo e no mesmo espaço do pacto lícito, porém à sua revelia e o contradizendo. Essa sociedade clandestina parasita a sociedade legal, sub-repticiamente.
    Depois é preciso entender que a corrupção é necessariamente trabalhada em parcerias, num conluio cooperativo e distribuidor de ganhos, tornando-se uma quadrilha, cujo trato é registrado em planilhas. Quase sempre se trata de dinheiro, mas nem sempre. Pode se tratar de valores e bens de ordem imaterial “distribuídos segundo regras consensuais (por exemplo, as notas de aproveitamento acadêmico e avaliação docente em conluios que envolvem professor e alunos)”, ou lobbies feitos por pessoas que detém algum poder e podem influenciar em negociações legais (e quase sempre imorais) ou ilegais (sempre criminosas).
    Outro aspecto importante na corrupção é que necessita-se de um pacto fundante entre vários cidadãos da sociedade comum, criando uma outra sociedade escondida, mimetizada no tecido dos poderes – suas ações estão à vista, porém não se pode identificá-las facilmente, pois elas estão amalgamadas nas mesmas instituições que visam evitar o surgimento da corrupção. Sua fenomenologia é a da barganha, traindo o pacto social maior. [Assim] “o caráter sagrado de um pacto fundante é profanado quando se torna cobertura e condição de possibilidade de uma prática ilícita”.
Para que a traição ao pacto social, pelo pacto parasitário dos corruptos tenha sucesso, é necessário que haja uma sobreposição da traição pela lealdade, onde os parceiros do pacto ilícito são extremamente leais entre si, mais leais do que o próprio pacto cidadão consegue ser. A lealdade é um valor que permite que, sub-repticiamente, se traia o pacto publicamente aceito pelos agentes de corrupção. Para que sejam corruptos, precisam de estar inseridos profundamente no tecido da sociedade, mais exatamente dentro das instituições públicas e privadas. Declaram lealdade à sociedade exatamente para poderem ter as condições de possibilidade de trair a sociedade. Assim, “o 'bom corrupto', o que é leal, é, ao mesmo tempo, o que trai; ele trai não apenas os que foram mantidos fora do pacto de corrupção, como trai a própria noção de lealdade, pois esta passa a se identificar com o 'direito a trair', exercido pela coletividade corrupta contra a grande coletividade que lhe serve de cobertura”.
    Para que funcione, a pequena coletividade de corruptos, depende de manter fora, de excluir, a grande coletividade. Esta sociedade secreta se exclui do social, excluindo o social de si mesma e evita de todo modo, que a sociedade maior olhe para dentro de sua pequena sociedade exclusiva (que exclui para não ser percebida). É por isso que as 'delações premiadas' da Operação Lava-Jato, são tão mal vistas pela nossa presidente. Está havendo uma traição a lealdade do pacto ilícito. Enquanto o grande pacto social é inclusivo, o pacto corrupto é exclusivo.
    Como podem ser pensadas subjetividades capazes de frequentar estes dois espaços tão paradoxalmente articulados – o pacto social e o conluio? Sabe-se que um sujeito só pode fazer um conluio contra o pacto social se estiver em uma posição privilegiada dentro do pacto maior. Por exemplo, traindo uma instituição que deveria zelar. Somente pela “dupla militância”, uma traindo a outra, usando os próprios valores da outra, para traí-la. Só assim podem ser eficazes e invisíveis. Qual o sofrimento psíquico do corrupto, pergunta LCF?
    Qual o sofrimento psíquico do duplo militante? Não parece ser um conflito porque o ego é anódino e o superego mais anódino ainda, portanto, com ínfimos conflitos entre os desejos do ego e as interdições do superego. Quando isto acontece os desejos e impulsos do ego não são interditados, deixando o sujeito exposto a impulsividade; e sabemos que isso não permite a criação de pactos de corrupção, que são, por excelência, complexos, além de obscuros, exigindo planejamento, planilhas e um sistema de corrupção.
    Propõe pensar, então, em uma cisão permitindo que o corrupto possa exibir uma “boa consciência”, e depois, que o corrupto possa usufruir das vantagens da imagem de honesto. Deste modo o sujeito corrupto não se submete aos impulsos e desejos, nem tem que lutar contra o superego. Disto surge um sujeito capaz de grande “autocontrole, cálculo, [de] formação de alianças funcionais”.
Este sujeito frui de grande autocontrole porque não está cindido no ego, como nos casos onde se dá a recusa, um mecanismo em que o ego, simultaneamente, aceita os limites do superego (diferenças, regras, prescrições, leis) e recusa-os. Neste caso, resumindo, a cisão no ego não permitiria a criação de sistemas corruptos, por faltar ao sujeito uma unidade que evitaria o caos.
    O autor pensa, então, numa cisão complexa, onde “[o] personagem corrupto [possui] mais unidade egoica [fruindo] um eu extremamente hábil em permanecer nos dois pactos, ainda que um parasite e traia o outro”. Ele propõe que a cisão se dá no superego, mas não no sentido de criar dois valores e normas contraditórios. Os valores “lealdade” e “solidariedade” que são valores da cidadania, são os mesmos do pacto corrupto. É […] “também a mesma lógica e a mesma racionalidade que vigora nos dois campos”, e são os mesmos objetivos do pacto social aqueles do pacto corrupto parasitário – dinheiro, principalmente. Portanto, os objetivos da transação corrupta, são iguais para os dois campos, permitindo que “seja usado pelo mesmo cidadão em compras absolutamente legais”, após sua lavagem.
    A cisão superegoica do corrupto é tão comum e funcional porque esta dupla militância faz parte de uma certa normalidade social, aparecendo em muitas instâncias da vida citadina. Todos estamos, de algum modo e em algum momento da vida cidadã, vivendo no modelo de dupla militância, quando somos cidadãos da sociedade maior e somos, simultaneamente, leais a uma sociedade secreta, ou sociedades reservadas, clubes, instituições bairristas, sendo que, não raramente, a lealdade aos grupos pode ser contraditória ao pacto social maior, e até mesmo desleal a ele, sem que com isso o tecido social se deteriore ao ponto da ruptura. A dupla militância do corrupto se dá quando “uma militância se alimenta de outra”, parasitando-a e escondendo seu parasitismo, pois “se descoberto, isso seria a morte do parasita; de outro lado, o parasita também vai morrer se sua ação predatória levar a morte o hospedeiro”. Essas tendências à morte colocam os conluios fragilizados por sua própria fantasia de onipotência, fantasia esta que os protegem da vergonha no caso de serem descobertos, fazendo uma grita em nome da decência e ética do bando. Conhecemos o passado de alguns corruptos comprovados da nação, que gritaram pela decência e ética, para depois usar essa voz em seu favor no momento de criar os bandos. No caso de políticos, é comum irem ao palanque defender a honra e ética, falando contra os corruptos antigos, só para em seguida implantarem, escudados pelo discurso da ética, os saqueadores das instituições nas quais se instalam. Talvez, imagino eu, a nossa dupla-militância social explique uma certa complacência com a corrupção, levando o cidadão a eleger os mesmos corruptos cujas práticas parasitárias já foram denunciadas e, eventualmente, punidas. Penso ainda, que há uma certa inveja do cidadão comum, por ser mantido fora destas agremiações...Não é incomum ouvir: Ah se eu tivesse essa oportunidade!
    O corrupto, portanto, vive um estado de contradição generalizada, “um estado crônico de incompatibilidade” entre sua lealdade ao sistema corrupto e a lealdade ao sistema social. E esta contradição se estabiliza, segundo LCF, na dupla militância, é preciso ser um “cidadão acima de qualquer suspeita” para que o cidadão corrupto possa usufruir de máxima eficiência (de poder). O sentimento de culpa “é um sentimento que quase nunca aparece, provavelmente porque a lealdade em relação a uma outra comunidade suprime (grifo do autor) o sentimento de culpa por estar traindo a outra”.
    Ao final das contas LCF não consegue decidir-se por uma “cisão” ou “recalque” e se pergunta o que dirige o corrupto. E encerra:
    “Enfim, diante do corrupto não há motivo de inveja ou de ódio”. Sobre ele pesam contínuas ameaças e sua vida não está nada fácil. Todo o carinho e compreensão que lhe pudermos dedicar ainda há de ser pouco”.


segunda-feira, 7 de setembro de 2015

A psicanálise de crianças no adulto

Sandor Ferenczi (1873-1933), psiquiatra e psicanalista húngaro – considerado o “enfant terrible” do movimento criado por Freud – em sua efervescência intelectual e uma série de críticas à técnica ortodoxa de análise, acabou por descobrir a contratransferência – uma reação do analista aos ditos de seu paciente.
A contratransferência se traduz pela tendência do terapeuta a considerar suas as questões do paciente. Após um período de alinhamento ao pensamento de Freud, que aconselhava o terapeuta a não se deixar enlaçar nas questões do paciente, Ferenczi, acabou por preconizar o uso da contratransferência e realizando uma análise em que ambos, terapeuta e paciente, fazem a análise mútua, de modo que os pensamentos, sentimentos e sensações corporais do terapeuta são comunicados ao paciente para que este saiba como o outro o sente e vê, num jogo especular. A análise dos sentimentos e sensações surgidas no terapeuta deveriam ser tratadas na sessão, usando as referências pessoais do paciente. Com isso o paciente se dá conta dos modos pelos quais produz sentidos para sua vida e também os sentidos que lhe são impostos.
Apesar do combate que os psicanalistas dedicaram aos escritos técnicos de Ferenczi, sua obra sobreviveu entre muitos sucessores, que as adaptaram para seus próprios proveitos. Dá para ouvir o eco de suas contribuições no trabalho dos freudianos americanos – principalmente a “técnica ativa”, uma intervenção na terapia, com demonstrações de afetos, sejam eles ternos ou agressivos, bem como a “análise mútua”, momento em que o paciente é incentivado a participar ativamente da terapia, como se fosse o terapeuta. É neste momento que a contratransferência é mais explorada.
Há poucos ferenczianos declarados, porém os winicottianos, como eu, falam de acolhimento, manejo, suporte e regressão à dependência, com traços ferenczianos o suficiente para traduzir um certo tanto da mutualidade em terapia. É por isso que às vezes um paciente ouve de nós: “Deve ter sido muito difícil viver na sua pele”. É tanto uma declaração de sensibilidade humana, quanto um distanciamento salutar, uma vez que nenhum terapeuta pode habitar a pele do seu paciente. Mas também é verdade que a terapia é da transferência e transferência é desejo, é amor. Ora, por conseguinte, a contratransferência também está no reino do amor. Daí que uma terapia é sempre terapia sobre a emergência transferencial.
Bem, os traços da obra ferencziana aparecem mais em outros psicanalistas, como os da Ego Psychology americana, que depois, sob a rubrica de Hartmann, se torna Self Psychology. No entanto, nestas alturas Winnicott já não concorda com o caminho que os Self ou Ego Psychologists impuseram ao pensamento de Ferenczi. De modo geral Winnicott continuará, apesar de sua renovação do pensamento freudiano, entendendo que o inconsciente é o objeto de análise. Enquanto que o freudismo americano coloca o ego (self, indivíduo) como o centro de sua atenção.
De minha parte gosto de saber que foi Ferenczi quem disse que fazia análise de crianças e não de adultos. A mim me parece que jamais analisamos adultos e sim crianças nos adultos. O amor infantil, reprimido ou recalcado; a criança no adulto que pede socorro, exige ser amada, implora carinho, sonha terrores, numa cadeia de desacertos existenciais. Penso que cada paciente me traz pela mãozinha uma criança para analisarmos juntos – falando de seus brinquedos (trabalho, hobbies etc), de seus medos (do amor, sexo, aniquilação, agonias etc). Depois de algum tempo, a criança analisada se torna o centro de uma vida viva e livre. O que vemos é um adulto amando amar e amando ser amado.
(Foto de Freud e Ferenczi - provavelmente 1917 quando Ferenczi servia como médico ao exército húngaro)

terça-feira, 7 de abril de 2015

A clínica do vazio - a análise do limbo de ser!

Os motivos pelos quais uma pessoa procura o psicanalista quase sempre encobrem os motivos reais. Winnicott, psicanalista inglês, cuja obra orienta minha atitude frente ao analisante, tentou várias vezes, e em diferentes momentos, lembrar o analista do "nada no centro" de algumas pessoas - o verdadeiro motivo que leva muita gente até a análise. Em uma nota de 1959, Winnicott expôs o caso de um homem - que ilustra essa experiência do "nada central". Na análise, o psicanalista teve que se haver com um "estado de chafurdamento" que era muito alarmante para o analisante. Depois de analisado o grosso das defesas contra essa mistura de atolamento, lama, lodo, onde nada impressionava, mas também nada podia ser criado, o paciente se deparou com o que chamo de "limbo" - um espaço em que os significados comuns da vida inexistem; apenas se reage ao que é imediato, necessário ou às urgências físicas. Um espaço que é uma borda, uma margem, onde os significados usuais da vida ficam nesta orla, litoralizados, sem poder habitar o centro do eu. "Em determinada camada, quando gradualmente eliminamos todas as colisões, de maneira que ele não tinha mais nada a que reagir, ele se tornou uma coisa no espaço, a ignorar o tempo e a posição", nos informa o psicanalista Winnicott.
Essa experiência de nada central é muito explorada por James Grotstein em seu livro "O buraco negro", relacionando-o com o sem-sentido, o caos e o aleatório no viver. Viver de modo aleatório, caótico e sem sentido é o que toma o centro da pessoa que vivencia este estado de nada ser - sem organização e integração pessoal suficiente para sentir que existe como um "eu". Sente-se uma coisa e frequentemente coisifica o que toca ou vê. Um dos meus pacientes que vive neste estado de viscosidade existencial diz: "olho para as pessoas e as vejo como são por dentro - somente ossos, e órgãos". Seu sofrimento indizível é traduzido cotidianamente em acontecimentos descarnados ou desalmados; suas vivências pessoais são simulacros de vivências, ele as vive como vindas de fora, sem relação pessoal com seus resultados em si mesmo ou no mundo. Suas vivências não lhe concernem; elas são acidentes. Elas não se tornam experiências pessoais; no máximo são vivências. Sua psicanálise remonta um ego que possa migrar a libido das fixações orais, para as anais e finalmente habitar um terreno genital-fálico - um trabalho de uma vida inteira para florescer algo em seu centro.
A psicanálise, em certos casos, apenas proporciona um centro de gravidade para que o conjunto de experiências do eu faça uma rotação e translação minimamente necessárias para que o analisante possa se tornar uma pessoa total, no dizer de Winnicott. Não se trata de uma cura e sim de uma construção que se dá da pele para os órgãos. O problema reside no fato de que o construtor é o próprio analisante, cujo olhar está comprometido pelo nada central e que, a despeito disto, deve erigir seu próprio centro onde nada ou muito pouco viceja. Um trabalho para um Hércules...