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| Palavras por dizer by Levi Leonel |
Os estados do corpo o ajudam a decidir o que fazer frente
aos fatos da vida. Como diz David Eagleman, em seu livro “Cérebro, uma
biografia”: “as emoções fazem mais do que dar riqueza a nossa vida – também são
o segredo por trás de como dirigimos o que fazemos em cada momento”.
Neurocientistas já relacionam a região do córtex orbitofrontal, um pouco acima
dos olhos, como aquela que recebe os sinais que advém do corpo, tais como,
fome, excitabilidade nervosa, sede, alegria. Eles nos ajudam a escolher o que
fazer, depois que resumos de sensações corporais nos indicam o que decidir a
partir de um balanço dos ganhos e perdas ligados a cada evento. Isto indica que
o cérebro não é exatamente aquele que comanda “o corpo do alto” (idem), mas sim
aquele órgão que recebe sinais físicos do corpo para levar o eu a tomar
decisões. Uma imensidão de informações externas está ajudando o cérebro a
dirigir o eu para sua melhor performance possível, apesar de todos os problemas
que significa agir. Sem garantias, toda ação depende da interpretação que o
cérebro está habituado a fazer dos mesmos sinais que vem do corpo, que por sua
vez, por meio de um sistema absurdo de conexões com o ambiente, fornece
material para a reação. “Na maioria das situações, os sinais fisiológicos são mais
sutis e ficamos inclinados a não ter consciência deles. Porém [são] essenciais
para conduzir as decisões que precisamos tomar” (idem).
Como decidir frente a uma
guloseima; se vai devora-la ou declinar deste prazer? Sua experiência corporal
ajudará na decisão – desconforto corporal em cascata, do tipo transpiração na
palma das mãos por saber que vai interromper a dieta, desconforto estomacal,
intestinal; mas, também a delícia de sentir na boca aqueles sabores. Aí você
pode, em um momento que reluta, ler as informações nutricionais e sentir
desconforto físico tão sutil, que não o percebe. Mas o cérebro sim. E aí “os
estados fisiológicos do corpo [são a chave ajuda] a desequilibrar esta
batalha”, permitindo que uma rede de sensações vençaa outra, surgido o ato de
decidir.
Às vezes essas escolhas são tão sutis e
intrincadas que não se percebe sua ação a não ser como um comportamento geral
que chamamos de ideologia. O neurocientista Read Montague (citado por
Eagleman), conseguiu demonstrar que há ligação “entre a opinião política de uma
pessoa e o caráter das suas reações emocionais” [corporais] (idem). Ele colocou
pessoas frente a imagens com fezes, cadáveres, comida com moscas etc. e
registrou suas reações de repulsa. Depois fez um levantamento sobre a ideologia
política de cada um perguntando sobre controle de armas, aborto, sexo antes do
casamento e outras escolhas cotidianas. Montague “descobriu que, quanto mais
enojado o participante fica com as imagens, mais politicamente conservador ele
deve ser. Quanto menos enojado, mais liberal. A correlação é tão forte, que a
reação neural de uma pessoa a uma única imagem repulsiva prevê sua pontuação no
teste de ideologia política com uma precisão de 95%” (idem).
O estudo aponta para a ideia de
que sua orientação política, sua ideologia, aparece num ponto qualquer a meio
caminho entre as reações fisiológicas ao ambiente e as reações cerebrais, ou no
entremeio corpo/mente, unindo aquilo que é corporeidade com aquilo que é do
pensamento. Se há essa correlação entre ideologia conservadora e reação de
repulsa por imagens e situações que enojam, resta saber como isso foi aprendido
durante a evolução de criança em adulto. Mas esta é outra história. A leitura
do livro “Cérebro: uma biografia” pode ajudar a entender esse mistério.

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