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sexta-feira, 1 de abril de 2011

Acabei de publicar um artigo em livro!

Entre 2006 e 2010 participei de um projeto de pesquisa na UNIVÁS com apoio da FAPEMIG, gerado pelo Mestrado em Ciências da Linguagem, que acabou se transformando em livro lançado em fevereiro último. Trata-se da obra "Discurso, Espaço, Memória - Caminhos da identidade no sul de Minas" organizado pela professora Eni P. Orlandi (UNIVÁS, UNICAMP), onde escrevi o artigo O teatro de Pouso Alegre - a arquitetura da memória pousoalegrense: um drama nas terras do Mandu. Nas considerações finais coloco: 
      "A relação da população de Pouso Alegre com seu Teatro Municipal foi, pelo menos por mais de um terço de sua existência, heterogênea[1]. Por um lado, foi objeto de constantes preocupações de uma elite social, que se sentia representante, herdeira e continuadora dos sonhos dos seus construtores. Por outro, a indiferença de parte considerável da população, que não parecia se representar nele e não se mobilizava perante as ameaças de seu desaparecimento. No geral, a população aceitou, sem grandes manifestações políticas, os vários desvios de suas funções originais. Contudo, ao ver seu prédio ameaçado de perder a função-teatro para tornar-se habitado por outra discursividade, parte da população reage como povo, no sentido de que se torna indócil, e exige que o teatro retorne às suas funções originais. Levando-se em conta as várias décadas em que naquela formação arquitetônica se deram outras discursividades, é espantoso que uma parcela da população se erguesse como povo e saísse às ruas, acampando embaixo de suas marquises, protestando por sua sobrevivência. Como explicar esse repentino levante contra a venda do teatro? 

     Seria necessário mais tempo e espaço para tentar uma explicação mais pontual. Mas, de certo modo, alguns apontamentos podem ser alinhados. Discursivamente, o teatro jamais foi desterrado; entre suas paredes sempre existiu o teatro que foi usado para abrigar outras funções. Parte da população sempre considerou que o teatro foi usado, provisoriamente, por outras formações discursivas; jamais consideraram seu desaparecimento. O prédio do teatro já foi até loja de móveis e delegacia, o que, por uma lógica outra, seria permitido acreditar que o discurso teatro tivesse sido desenraizado daquelas paredes. Não foi o que se deu. Tudo ocorreu como se se dissesse que lá no teatro já funcionou uma delegacia, uma loja de móveis, uma emissora de rádio, um museu de cera, figuras circenses (como, por exemplo, a mulher-gorila), autorama, fliperama etc[2]. A materialidade discursiva teatro já era a própria memória-teatro e resistiu às formações discursivas que a habitaram, não sem antes ser afetada pelas apropriações de sua edificação. Mesmo o espaço em que se erigiu sua arquitetura sofreu modificações, como é o caso da construção de uma galeria de arte e a secretaria da cultura contígua a ele, na lateral direita. O terreno em que se localiza o teatro vai da avenida Doutor Lisboa até a rua Adalberto Ferraz, sendo que a parte de trás do teatro, acabou sendo usada para funções municipais[3]. O sentido de theatrón (lugar de onde se vê) possibilita entrever processos discursivos e identitários do pousoalegrense, sujeito atado de modo irreversível ao casario da cidade, acaba por ser irremediavelmente enlaçado pela arquitetura do teatro. Considerado o guardião da cultura de Pouso Alegre, é tido como o grande posto de memória viva da cidade, com suas retorções, apagamentos e silenciamentos. Hoje, o teatro parece usufruir paz em seu corpo arquitetural, pelo tombamento como patrimônio histórico/cultural. A cidade parece não mais reivindicá-lo, o que confirma sua estabilidade discursiva. Quase um século e meio depois de sua construção tornou-se um monumento. Se, por um lado alcançou continuidade, por outro, enfraqueceu os efeitos políticos daquela sua presença frágil, que demoveu a população, tanto na destruição quanto na sua preservação. Tornar-se documento levou-o a uma certa invisibilidade, efeitos da sua perenidade instituída para além da memória do theatrón – onde a cidade se via". 


[1]   Acredito que é adequado usar aqui o sentido de heterogeneidade em Foucault, para determinar a relação do sujeito de Pouso Alegre com seu teatro. Para aquele autor, heterogêneo “não quer dizer contradição, mas tensões, atritos, incompatibilidades mútuas, ajustes bem sucedidos ou fracassados, misturas instáveis etc. Quer dizer também tarefa, incessantemente retomada porque nunca acabada, de estabelecer seja uma coincidência, seja pelo menos um regime comum” (Foucault, 2008a p. 29).
[2]   Testemunho verbal de um dos moradores da cidade, o Sr. Eugênio Toledo, que já se apresentou no teatro como o palhaço Goiabinha.
[3]   Interessantemente podemos ver como a memória discursiva vai sofrendo corrosão comparando dois laudos técnicos de estado de conservação do teatro; no laudo datado de 2009 podemos ler: “A edificação tem uso institucional voltado para a cultura e arte. Possui uma tipologia arquitetônica eclética sendo construída em 1873 e inaugurada em 1875 pela Associação Dramática de Pouso Alegre. Entre 1930 e 1938 funcionou como cinema e depois retornou às atividades teatrais. Desde então, permanece como Teatro Municipal de Pouso Alegre. Seu partido retangular não ocupa todo o terreno, criando afastamentos laterais que são ocupados por uma galeria e por um acesso secundário ao teatro. A edificação possui dois andares estando o palco, os camarins, acessos, foyer e salas de ensaio no primeiro e o mezanino com a sala de som no segundo” (Laudo Técnico de Estado de Conservação). Já no laudo de 2010 se lê: “O teatro é usado para entretenimento da cidade e promove cultura e arte para o município. Foi construído em 1873 e inaugurado em 1875 pela Associação Dramática de Pouso Alegre. Possui tipologia arquitetônica eclética e planta retangular. Funcionou como cinema de 1930 a 1938 e retomou as atividades teatrais logo em seguida, sendo desde então, conhecido como Teatro Municipal de Pouso Alegre. Ao seu lado possui uma galeria, onde se encontra a Prefeitura Municipal de Pouso Alegre e um acesso secundário ao teatro. Tem dois andares onde se encontram o palco, os camarins, foyer, salas e ensaio no primeiro e o mezanino com a sala da técnica de som no segundo” (Laudo Técnico de Estado de Conservação). Pela deriva dos sentidos, da memória e da materialidade discursiva, vemos no primeiro laudo, que uma das laterais do terreno do teatro é ocupada por uma galeria (omitindo-se o uso municipal do edifício); já no segundo laudo, na galeria funciona a prefeitura. A informação se não inexata é, pelo menos, confusa. Também há uma omissão das outras funções a que o edifício foi submetido, privilegiando-se seu uso como cinema. O político aparece marcado nessa omissão, apagando, com isso, sua rica memória e o atamento do sujeito pousoalegrense ao seu teatro, ao seu esquecimento, e, muito vivamente, à batalha por sua perenização como corpo inalienável deste sujeito. Sabemos da porosidade da memória, porque discursiva; também sabemos como isso se dá na porosidade do político e do simbólico. Talvez por ser porosa é que pode deslizar e derivar para outros sentidos, nem que seja pelo silenciamento e apagamento, que não significa destruição ou nadificação, a propósito.

Do Livro: 
"Discurso, Espaço, Memória - Caminhos da identidade no sul de Minas", Eni Puccinelli Orlandi (Org.), Campinas, RG Editora, 2011