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segunda-feira, 7 de setembro de 2015

A psicanálise de crianças no adulto

Sandor Ferenczi (1873-1933), psiquiatra e psicanalista húngaro – considerado o “enfant terrible” do movimento criado por Freud – em sua efervescência intelectual e uma série de críticas à técnica ortodoxa de análise, acabou por descobrir a contratransferência – uma reação do analista aos ditos de seu paciente.
A contratransferência se traduz pela tendência do terapeuta a considerar suas as questões do paciente. Após um período de alinhamento ao pensamento de Freud, que aconselhava o terapeuta a não se deixar enlaçar nas questões do paciente, Ferenczi, acabou por preconizar o uso da contratransferência e realizando uma análise em que ambos, terapeuta e paciente, fazem a análise mútua, de modo que os pensamentos, sentimentos e sensações corporais do terapeuta são comunicados ao paciente para que este saiba como o outro o sente e vê, num jogo especular. A análise dos sentimentos e sensações surgidas no terapeuta deveriam ser tratadas na sessão, usando as referências pessoais do paciente. Com isso o paciente se dá conta dos modos pelos quais produz sentidos para sua vida e também os sentidos que lhe são impostos.
Apesar do combate que os psicanalistas dedicaram aos escritos técnicos de Ferenczi, sua obra sobreviveu entre muitos sucessores, que as adaptaram para seus próprios proveitos. Dá para ouvir o eco de suas contribuições no trabalho dos freudianos americanos – principalmente a “técnica ativa”, uma intervenção na terapia, com demonstrações de afetos, sejam eles ternos ou agressivos, bem como a “análise mútua”, momento em que o paciente é incentivado a participar ativamente da terapia, como se fosse o terapeuta. É neste momento que a contratransferência é mais explorada.
Há poucos ferenczianos declarados, porém os winicottianos, como eu, falam de acolhimento, manejo, suporte e regressão à dependência, com traços ferenczianos o suficiente para traduzir um certo tanto da mutualidade em terapia. É por isso que às vezes um paciente ouve de nós: “Deve ter sido muito difícil viver na sua pele”. É tanto uma declaração de sensibilidade humana, quanto um distanciamento salutar, uma vez que nenhum terapeuta pode habitar a pele do seu paciente. Mas também é verdade que a terapia é da transferência e transferência é desejo, é amor. Ora, por conseguinte, a contratransferência também está no reino do amor. Daí que uma terapia é sempre terapia sobre a emergência transferencial.
Bem, os traços da obra ferencziana aparecem mais em outros psicanalistas, como os da Ego Psychology americana, que depois, sob a rubrica de Hartmann, se torna Self Psychology. No entanto, nestas alturas Winnicott já não concorda com o caminho que os Self ou Ego Psychologists impuseram ao pensamento de Ferenczi. De modo geral Winnicott continuará, apesar de sua renovação do pensamento freudiano, entendendo que o inconsciente é o objeto de análise. Enquanto que o freudismo americano coloca o ego (self, indivíduo) como o centro de sua atenção.
De minha parte gosto de saber que foi Ferenczi quem disse que fazia análise de crianças e não de adultos. A mim me parece que jamais analisamos adultos e sim crianças nos adultos. O amor infantil, reprimido ou recalcado; a criança no adulto que pede socorro, exige ser amada, implora carinho, sonha terrores, numa cadeia de desacertos existenciais. Penso que cada paciente me traz pela mãozinha uma criança para analisarmos juntos – falando de seus brinquedos (trabalho, hobbies etc), de seus medos (do amor, sexo, aniquilação, agonias etc). Depois de algum tempo, a criança analisada se torna o centro de uma vida viva e livre. O que vemos é um adulto amando amar e amando ser amado.
(Foto de Freud e Ferenczi - provavelmente 1917 quando Ferenczi servia como médico ao exército húngaro)

terça-feira, 7 de abril de 2015

A clínica do vazio - a análise do limbo de ser!

Os motivos pelos quais uma pessoa procura o psicanalista quase sempre encobrem os motivos reais. Winnicott, psicanalista inglês, cuja obra orienta minha atitude frente ao analisante, tentou várias vezes, e em diferentes momentos, lembrar o analista do "nada no centro" de algumas pessoas - o verdadeiro motivo que leva muita gente até a análise. Em uma nota de 1959, Winnicott expôs o caso de um homem - que ilustra essa experiência do "nada central". Na análise, o psicanalista teve que se haver com um "estado de chafurdamento" que era muito alarmante para o analisante. Depois de analisado o grosso das defesas contra essa mistura de atolamento, lama, lodo, onde nada impressionava, mas também nada podia ser criado, o paciente se deparou com o que chamo de "limbo" - um espaço em que os significados comuns da vida inexistem; apenas se reage ao que é imediato, necessário ou às urgências físicas. Um espaço que é uma borda, uma margem, onde os significados usuais da vida ficam nesta orla, litoralizados, sem poder habitar o centro do eu. "Em determinada camada, quando gradualmente eliminamos todas as colisões, de maneira que ele não tinha mais nada a que reagir, ele se tornou uma coisa no espaço, a ignorar o tempo e a posição", nos informa o psicanalista Winnicott.
Essa experiência de nada central é muito explorada por James Grotstein em seu livro "O buraco negro", relacionando-o com o sem-sentido, o caos e o aleatório no viver. Viver de modo aleatório, caótico e sem sentido é o que toma o centro da pessoa que vivencia este estado de nada ser - sem organização e integração pessoal suficiente para sentir que existe como um "eu". Sente-se uma coisa e frequentemente coisifica o que toca ou vê. Um dos meus pacientes que vive neste estado de viscosidade existencial diz: "olho para as pessoas e as vejo como são por dentro - somente ossos, e órgãos". Seu sofrimento indizível é traduzido cotidianamente em acontecimentos descarnados ou desalmados; suas vivências pessoais são simulacros de vivências, ele as vive como vindas de fora, sem relação pessoal com seus resultados em si mesmo ou no mundo. Suas vivências não lhe concernem; elas são acidentes. Elas não se tornam experiências pessoais; no máximo são vivências. Sua psicanálise remonta um ego que possa migrar a libido das fixações orais, para as anais e finalmente habitar um terreno genital-fálico - um trabalho de uma vida inteira para florescer algo em seu centro.
A psicanálise, em certos casos, apenas proporciona um centro de gravidade para que o conjunto de experiências do eu faça uma rotação e translação minimamente necessárias para que o analisante possa se tornar uma pessoa total, no dizer de Winnicott. Não se trata de uma cura e sim de uma construção que se dá da pele para os órgãos. O problema reside no fato de que o construtor é o próprio analisante, cujo olhar está comprometido pelo nada central e que, a despeito disto, deve erigir seu próprio centro onde nada ou muito pouco viceja. Um trabalho para um Hércules...

quarta-feira, 25 de março de 2015

Para quê serve a Psicanálise?

Por definição, quem procura o psicanalista, está tentando descobrir qual a sua responsabilidade no seu sofrimento; está tentando reescrever seu destino; reescrever sua história e seu futuro. Pois, se o destino não está escrito, o passado também não. 
De algum modo o paciente de análise intui que pode ressignificar suas reminiscências e construir um outro futuro para si. Como a psicanálise não faz milagres, é permitido ao sujeito ser sujeito de sua vida, sem grandes acidentes; é permitido que se enriqueça por si mesmo, que acenda uma vela na escuridão e possa ver algumas sombras. Pois onde há sombra há luz. Mas acredite, com esse pouco de luz dá para se ir longe na arte de existir. A psicanálise é uma vela e não uma bengala. Não ofusca e nem se entrega ao breu. Por isso uma psicanálise incomoda ao analisante e aos que privam de seu entorno.
O resultado, depois deste período de purgatório pessoal, é contentamento e serenidade; energia e atitude; responsabilidade e generosidade. Podemos dizer que o eixo procurado pelo analista e analisante é o eixo do amor. Deste modo, resumindo, é uma psicanálise do amor; seu final é a capacidade para amar, fazer sexo, criar e cuidar, projetar, realizar.
Afinal, foi Freud que disse: “Todo tratamento psicanalítico é uma tentativa para libertar o amor recalcado.” E Sartre disse: "O importante não é aquilo que fizeram de nós, mas o que nós mesmos fazemos com aquilo que fizeram de nós". Essas duas premissas unidas é o que move minha psicanálise...

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

TEATROS DO EU






Teatro Psíquico, Palco Psicanalítico
O mundo todo é um teatro
E todos, homens, mulheres, não passam de atores
Tem suas entradas, tem suas saídas,
E cada homem, nele ganha muitos papéis:
Os atos duram sete eras..
.
(Shakespeare - As you like it, Ato II, Cena 7)


  
   '"All the world's a stage'" declara Shakespeare, constatando que os homens e mulheres nada mais são, nesse enorme palco, que atores, merely players, ensaiando e interpretando os papéis de uma peça desconhecida, num teatro de limites imprecisos. A idéia de Shakespeare era, sem dúvida, de que cada um de seus heróis era uma marionete, [uma] 'quintessência do pó.' Mas, então, quem manipula os fios?
   A tragédia de Hamlet, de Lear, de Ricardo III..., é a história do homem, confrontado com as forças violentas de sua natureza instintiva, forças que, qual profundas correntes subterrâneas, fazem derivar sua vontade e modificam o curso da vida. Atravessado por tempestades de amor e ódio, tentado por vezes a seduzir e agradar, outras a punir e destruir, cada homem, desde a infância, teve que limitar-se a navegar por entre as interdições e as impossibilidades de sua vida. Obrigado a inventar uma solução para cada um dos inevitáveis conflitos suscitados por seus desejos primitivos, foi-lhe necessário encontrar conciliações que o satisfizessem tanto quanto a outrem. Com todas as suas lutas, como com o auxílio de uma palheta de cores, ele desenhou o retrato dessa pessoa que acredita ser quando diz 'Eu'. De fato esse Eu é um personagem, um 'ator' no palco do mundo que, sozinho, em sua realidade interna, assiste a um teatro mais íntimo, cujo repertório é secreto. À sua revelia, os cenários se organizam, para cenas bufas e trágicas, que buscam um local para a representação e a ação. O diretor [desta peça] é, naturalmente, o próprio Eu, mas o rosto dos personagens, a intriga, bem como o desfecho lhe são escondidos; ele não sabe, com efeito, quem são as pessoas que o empurram para o drama. Nenhum aviso lhe é dado de que a ação vai começar e de que, em algum lugar, num local de seu psiquismo, um personagem se agita e deseja entrar em cena... E, no entanto, é lá, nesse universo interior, que se decidirá a maior parte daquilo que ele vai tornar-se em sua vida.
   À medida que esse teatro psíquico funciona com bilheteria fechada, para si mesmo, nós somos, na realidade, como dizia Shakespeare, mere players, reles personagens, levados a realizar desejos obscuros,a cumprir tarefas que tomamos por necessárias, a perseguir uma trajetória em que se reunirão vitórias louváveis e fracassos lamentáveis, sem que para isso sejamos capazes de encontrar as verdadeiras razões que motivaram esses objetivos e fins. O Eu de cada indivíduo ajusta continuamente suas contas com o passado e assim reproduz, infatigavelmente, os mesmos dramas. Justamente aqueles que o Eu de outrora, ainda criança, vivera em sua vontade de sobreviver psiquicamente em meio a um mundo de adultos. Quer manifestem-se sob a forma de neuroses, de problemas de caráter ou perturbações narcísicas, de adições ou perversões, de psicoses ou psicossomatoses, esses enredos psíquicos são sempre invenções artesanais que, no entanto, às vezes se aproximam de uma verdadeira obra de arte. Ignorando sua própria criatividade, o autor dessas peças íntimas as experimenta, na maior parte do tempo, como produções em que tem um papel a desempenhar, em que deve fazer gestos e enunciar réplicas e que, no entanto, são postas em cena em outro lugar, dirigidas por outros".
(Joyce McDougall - Teatros do Eu, 1992 - Francisco Alves)