sexta-feira, 13 de agosto de 2010

TEATROS DO EU






Teatro Psíquico, Palco Psicanalítico
O mundo todo é um teatro
E todos, homens, mulheres, não passam de atores
Tem suas entradas, tem suas saídas,
E cada homem, nele ganha muitos papéis:
Os atos duram sete eras..
.
(Shakespeare - As you like it, Ato II, Cena 7)


  
   '"All the world's a stage'" declara Shakespeare, constatando que os homens e mulheres nada mais são, nesse enorme palco, que atores, merely players, ensaiando e interpretando os papéis de uma peça desconhecida, num teatro de limites imprecisos. A idéia de Shakespeare era, sem dúvida, de que cada um de seus heróis era uma marionete, [uma] 'quintessência do pó.' Mas, então, quem manipula os fios?
   A tragédia de Hamlet, de Lear, de Ricardo III..., é a história do homem, confrontado com as forças violentas de sua natureza instintiva, forças que, qual profundas correntes subterrâneas, fazem derivar sua vontade e modificam o curso da vida. Atravessado por tempestades de amor e ódio, tentado por vezes a seduzir e agradar, outras a punir e destruir, cada homem, desde a infância, teve que limitar-se a navegar por entre as interdições e as impossibilidades de sua vida. Obrigado a inventar uma solução para cada um dos inevitáveis conflitos suscitados por seus desejos primitivos, foi-lhe necessário encontrar conciliações que o satisfizessem tanto quanto a outrem. Com todas as suas lutas, como com o auxílio de uma palheta de cores, ele desenhou o retrato dessa pessoa que acredita ser quando diz 'Eu'. De fato esse Eu é um personagem, um 'ator' no palco do mundo que, sozinho, em sua realidade interna, assiste a um teatro mais íntimo, cujo repertório é secreto. À sua revelia, os cenários se organizam, para cenas bufas e trágicas, que buscam um local para a representação e a ação. O diretor [desta peça] é, naturalmente, o próprio Eu, mas o rosto dos personagens, a intriga, bem como o desfecho lhe são escondidos; ele não sabe, com efeito, quem são as pessoas que o empurram para o drama. Nenhum aviso lhe é dado de que a ação vai começar e de que, em algum lugar, num local de seu psiquismo, um personagem se agita e deseja entrar em cena... E, no entanto, é lá, nesse universo interior, que se decidirá a maior parte daquilo que ele vai tornar-se em sua vida.
   À medida que esse teatro psíquico funciona com bilheteria fechada, para si mesmo, nós somos, na realidade, como dizia Shakespeare, mere players, reles personagens, levados a realizar desejos obscuros,a cumprir tarefas que tomamos por necessárias, a perseguir uma trajetória em que se reunirão vitórias louváveis e fracassos lamentáveis, sem que para isso sejamos capazes de encontrar as verdadeiras razões que motivaram esses objetivos e fins. O Eu de cada indivíduo ajusta continuamente suas contas com o passado e assim reproduz, infatigavelmente, os mesmos dramas. Justamente aqueles que o Eu de outrora, ainda criança, vivera em sua vontade de sobreviver psiquicamente em meio a um mundo de adultos. Quer manifestem-se sob a forma de neuroses, de problemas de caráter ou perturbações narcísicas, de adições ou perversões, de psicoses ou psicossomatoses, esses enredos psíquicos são sempre invenções artesanais que, no entanto, às vezes se aproximam de uma verdadeira obra de arte. Ignorando sua própria criatividade, o autor dessas peças íntimas as experimenta, na maior parte do tempo, como produções em que tem um papel a desempenhar, em que deve fazer gestos e enunciar réplicas e que, no entanto, são postas em cena em outro lugar, dirigidas por outros".
(Joyce McDougall - Teatros do Eu, 1992 - Francisco Alves)

Um comentário:

Olá visitante! Caso deseje mais informações sobre psicologia, psicanálise ou ciências afins, terei grande prazer em ajudar. Se não puder, indicarei quem acredito poderá fazê-lo...