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| by Levi Leonel de Souza |
No entanto, podemos nos perguntar: se sonho é desejo, que desejo é este que não aparece de modo claro em toda sua gramática? Que desejo é este que só posso confessar à noite, no escuro, ainda assim de modo cifrado, ao ponto de que nem sonhante, nem analista, podem acessa-lo a não ser com muito custo? Segundo Freud, trata-se de desejos que não podem vir à consciência, por seu conteúdo sexual; conteúdo este inaceitável para o sujeito, embora o deseje de algum modo. Além disso, o sonho é um desejo sexual infantil, portanto causador de um estado de atordoamento do sujeito que o reprimiu ou recalcou e o enviou para um "lugar" escondido de si mesmo para evitar seu próprio julgamento. Julgamento este sempre bastante rígido, seguindo ordenamento moral social. Esses desejos sexuais infantis são inadequados, segundo esta moral, levando o próprio sujeito a esconder de si estes perigos representados por estes anseios.
Como os analistas sabem que não apenas no sonho aparecem os desejos
inconscientes, eles analisam a fala do analisante, pois está nas palavras o
lugar privilegiado do desejo inconsciente; é na massa de ditos, mas também de
não-ditos, que acaba se montando uma constelação de palavras que circunscrevem
o desejo escondido. Fino modo, podemos dizer que conversar é sonhar; e é
falando que expomos nosso desejo sexual infantil. Aquele mesmo que foi
recalcado ou reprimido por representar uma ameaça moral ao sujeito.
Mas como nada é tão simples, em se tratando do sujeito do desejo, toda
uma estrutura é montada para que o sujeito não se assujeite a este desejo muito
inicial, inadequado. Então, o sujeito, monta uma vida que possui estrutura
onírica, estrutura de sonho; quase tudo que o sujeito faz em seu erguimento de
criança em adulto, visa disfarçar seus desejos infantis sexuais. É toda uma
vida onírica, em estado de vigília, constituída de palavras, atos,
modos de dizer e de ouvir, paixões, trabalho, amores - tudo visando satisfazer
esta espécie de desejo original. Mas, de modo que o sujeito não se dá conta
disso. O desejo original se esconde nos sonhos, nas conversas, nas piadas, no
trabalho, nos estudos, nas conversas pelas mídias sociais e um sem número de
atos da vida.
E podemos fazer mais uma pergunta: de que ordem é o desejo que surge nos
sonhos, que só pode ser confiado ao mundo onírico e de forma criptografada? A
resposta não é fácil, mas podemos arrisca-la de modo abrupto. Se sonho é
satisfação de desejo, e de um desejo sexual infantil, então o desejo infantil
deverá ser um desejo sexual necessariamente incestuoso, pois a criança não tem
como desejar para além dos contornos oferecidos por um número bem reduzido de
pessoas que cuidam dela. Este desejo afastado da consciência deverá ser
incestuoso, por definição. Deste modo, o analista analisa o desejo incestuoso em
seu trabalho de análise do sujeito de desejo. Este sujeito é assujeitado ao
desejo incestuoso e passará uma vida tendo que se haver com este desejo que lhe
parece estrangeiro, porém, ao mesmo tempo tão familiar, por causa desta antiga
paixão.
Se trocarmos sonho por desejo e desejo por amor, temos que essa obra é
uma longa série de entradas nos domínios do amor; e desta vez fica mais sofisticado
dizer amor incestuoso. Não há saída para o bebê, depois criança e depois
menina ou menino, a não ser viver um amor que seja encantado pela presença
maternante, ou seja, pelo corpo, voz, olhar, cheiro, respiração e um sem número
de vivências com a corporeidade de um outro que lhe põe em contato com a
realidade. Aí, lembramos que Ferenczi, um psicanalista contemporâneo de Freud, disse
que não analisava adultos, apenas crianças, deixando entrever que analisava o
infantil no adulto. Este infantil, que mesmo no adulto mais longevo está se
havendo com seus primeiros amores. Daí que uma psicanálise trata de amores incestuosos,
necessariamente inconscientes. A interpretação dos sonhos freudiana é um trabalho
de decifração dos modos como se dão esses amores. Amores muito antigos, vindos
da pré-história do sujeito, que seguem vingando na forma de aturditos, uma tradução
da palavra l’aturdit que Lacan propõe para falar deste estado de paixão.
Ditos atordoantes que constituem o sujeito. Um sujeito aturdido pelo que lhe
sai pela boca, mas também pelo que lhe povoa a vida noturna.

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