Apresentação
Esse
trabalho delimita teoricamente, e contribui com um extrato de caso, o
Complexo da Mãe Morta inventariado por André Green, eminente
psicanalista francês, para explicar a existência de verdadeiros
“buracos psíquicos” produzidos por ódio e reparação,
consoantes a uma profunda depressão materna. É um tipo de mãe que
passou por uma experiência de alegria que, aparentemente, foi
contagiante em seus primeiros meses de contato com seu bebê, para
depois deprimir de modo irreparável, seja pela morte de um filho,
pela perda do esposo ou de parentes muito próximos. Penso que, em
qualquer dessas situações, podendo ainda incluir um ambiente
traumaticamente desnorteante, o fato é que o acontecimento é
singular demais para que ela dê conta de fazer o luto da perda. Isso
se deve as suas potencialidades psíquicas, o que inclui dizer que
trata-se de uma mãe com uma elaboração psíquica insuficiente para
dar conta do acontecido. Luto aqui fica entendido como a
possibilidade aberta a quase todas as pessoas, de transformar a
presença física daquele que faltou, em memória que preenche o
vazio da sua falta.
A
criança cuidada durante esse período de escuridão afetiva,
vivencia a morte da mãe, que sofreu essa perda da qual não pôde
enlutar-se, experimentando-a como catastrófica, sem que pudesse
reunir forças para poder dar nutrição e sustentação psíquica ao
bebê. A criança vive então, sob espessa nuvem fria e úmida que
cria um clima onde não se chega à tristeza, passando-se diretamente
à depressão, uma tristeza crônica, eu diria. Essa atitude acaba
por instalar um amor vazio que morbidamente contamina os vãos
psíquicos daqueles que ficam sob seus cuidados sem zelo. A criança
cuidada por essa mãe terá como legado uma maldição afetiva que se
constitui em tomar o lugar da mãe. O filho experiencia a sensação
de cadáver, na forma de esfriamento do próprio corpo, ou de
"cadáveres" de emoções – geladas, vazias, e uma moral
monolítica, narcísica, envergonhada, decepcionada, aparecendo como
um discurso petrificado e sem vida, mas cheio de ódio, evitado a
todo custo pelo congelamento da linguagem. Esse drama deve ser
tratado por uma postura analítica que Green chamou de Clínica
do Vazio.
Narcisismo
moral, aqui representa a dificuldade desse filho de mãe morta de
usufruir de alguma satisfação, renunciando-a; busca-se paralisar
qualquer satisfação acionando um mecanismo de não-satisfação.
Seria vergonhoso, desonroso, sentir algum prazer com o desprazer,
além do que a maior desonra foi justamente sentir ódio de uma mãe
que não pode receber o calor do ódio, a não ser que esse ódio
seja queimante como gelo. Já o discurso morto do filho vitimado pelo
complexo da mãe morta é circular, átono, amortecido, distante; a
voz é um fio de vida, quase sem energia, tímida. Quando apresenta
força mais parece o esgar de um último suspiro.
Além
disso, quero sublinhar as consequências nas representações
corporais, se assim posso dizer, conforme o complexo amadurece no
decorrer da vida adulta cronológica, uma vez que identifico uma
fixação emocional à infância, a qual tratarei mais à frente,
tentando colaborar com o projeto de Green. Muitos sintomas lembram a
fria constituição de seus desejos; desejos-zumbis; desejo sem calor
do desejar; e mais dramático ainda: o desejo gelado de desejar
quente. Para isso apresento o caso de MJ, 52 anos, viúva, mãe de 3
filhas e 2 filhos em dois casamentos; nasceu no Nordeste, vindo para
São Paulo, aos vinte anos, já com os dois primeiros filhos; se
veste com roupas bem cuidadas, rosto jovem, semblante rígido, algo
triste e clara expressão ansiosa.
MJ
foi recomendada por um psiquiatra, que a medicava há vários anos
com benzodiazepínicos, fluoxetina e anti-histamínicos em dosagens
variadas, em períodos variados, inclusive com certa resistência da
paciente. Em sua guia de recomendação via-se escrito caráter
ansioso de difícil remissão.
Suas queixas: insônias, ataques de raiva, apagamento psíquico,
sensações de desmaios, lombalgias, ciatalgias, degeneração da
coluna, dores muito fortes nos joelhos, rigidez muscular e articular,
sensações de buraco, pedra ou gelo no peito e, eventualmente, no
corpo todo. Para delinear as consequências de uma clínica do
Complexo da Mãe Morta traçarei linhas de contato entre a teoria
greeniana e o caso MJ. Fique claro que minha apresentação do caso
não esgota o assunto, por, entre outros motivos, falta de um número
suficiente de pacientes identificados com o complexo, exiguidade do
espaço e experiência da psicanálise com os filhos de mãe morta.
Finalmente,
para que se evite confusão com outros complexos e traços de
enlutamentos mais ou menos complicados, é bom estabelecer que a mãe
do filho que apresenta o complexo de mãe morta não está
necessariamente morta; pelo contrário quase sempre está viva, mas
que se diga de antemão, trata-se de uma mãe que deprimiu
severamente e vive com um olhar branco; nada na paisagem lhe chama a
atenção, nada lhe interessa.
Entretanto, essa mãe sabe exatamente o que falta em suas relações
– o quente, veias pulsando, calor corporal, olhar, coração. O que
a mantém viva é uma ideia, um paradigma – a fria espada do certo
e do errado, do bem e do mal. O filho desta forma de mãe viverá
como zumbi, um morto-vivo cuja energia vital será uma tormenta fria
no coração; um tormento psíquico marcado pela dor gelada.
Inspirado
nas incursões pioneiras de André Green nas defesas e transferências
de pacientes com essa problemática, eu me guiei por suas sugestões:
não utilizar o silêncio terapêutico ou a interpretação do ódio,
por trás da depressão, algo muito sugerido em psicanálise.
Privilegiei uma participação revivescente, sem silêncio analítico,
evitando que MJ acirrasse sua troca de papéis tornando-se ainda mais
petrificadamente a mãe de sua mãe, vale dizer, o corpo frio de sua
mãe; a mãe morta de sua mãe morta.
Introdução
Esse
trabalho forma-se a partir de uma delimitação possível do complexo
de mãe morta e sua relação com
o sofrimento corporal,
ilustrado com extratos do caso MJ, material surgido de anotações de
sessões no correr de sete meses de análise.
As
considerações que se seguem são calcadas nas sessões com MJ
aproximando-as do artigo A
mãe morta
(1980) – capítulo do livro
Narcisismo
de vida, narcisismo de morte, onde
A. Green discorre sobre a série “branca” que desenvolveu no
correr de seu trabalho clínico: alucinação
negativa, psicose branca e luto branco,
todos referidos ao que chamou
a clínica
do vazio
ou a
clínica
do negativo,
um trabalho clínico sobre os resultados de marcas no inconsciente
sob a forma de “buracos psíquicos”. Tais vácuos são
preenchidos por reinvestimentos afetivos na forma de ódio
e reparação,
posteriores a um momento em que desinveste o objeto primário,
materno, esvaziando-o de afeto e reinvestindo-o de afeto frio.
Green
foi precedido e sucedido por psicanalistas que já tinham
identificado senão um quadro psíquico, tal como ele o elaborou,
pelo menos alguns traços claramente envolvidos no complexo da mãe
morta. Vamos repassar, sucintamente, alguns dos mais conhecidos
psicanalistas dos muitos que sentiram a presença do filho-cadáver
de mãe morta perdurando em suas investigações.
Pode-se
perceber os estilhaços do frio afetivo em Joyce McDougall com seu
conceito de desafetação,
processo pelo qual passam sujeitos, que em determinadas
circunstâncias, "chegam a pulverizar qualquer vestígio de
sentimento profundo, o que implica que uma experiência que esteve na
origem de uma emoção intensa não é reconhecida como tal e, por
isso mesmo, não pode ser elaborada psiquicamente" (McDOUGALL,
1999 pág. 99). A pessoa produz um discurso a partir de palavras que
perdem "sua destinação primordial, isto é, sua função de
ligação pulsional; existem apenas como estruturas geladas,
esvaziadas de substância e de significação. Este discurso pode ser
inteligível e até altamente intelectualizado, mas é totalmente
desprovido de afetos [...] afastado de sua própria realidade
psíquica [...] onde a angústia e toda a gama de afetos não lhe
servem mais como sinais que lhe permitiriam comunicar-se consigo
mesmo" (McDOUGALL, 1999 pág. 99)
Tal
indivíduo dá claros sinais de que se sente protegido e pode
sobreviver a partir dessas defesas aprisionadoras, frias e sem vida,
olhando as pessoas do mundo como aquelas que se comportam de modo
irracional, de maneira incompreensível. As ameaças de morte
psíquica, vivenciadas em uma época onde a criança não tinha
palavras para dizer suas angústias, levaram-na a "erigir um
sistema sólido para evitar o retorno de suas experiências
traumáticas portadoras da ameaça de aniquilamento" (McDOUGALL,
1999 pág.105). Sólido e frio, eu diria, se levarmos em conta que o
objetivo é sobreviver, já que não pode viver, pois viver implica
trocas afetivas quentes. Sua sobrevivência será conseguida por meio
de congelamento do afeto na câmara fria do corpo, onde ficam os
órgãos psíquicos, especialmente um coração arrancado e guardado
em temperatura baixa, na esperança de um dia ser reabilitado pelo
amor. Mas, por enquanto, essa reabilitação provém dessa capacidade
para incorporar o frio materno, emprestando seu corpo para que aquela
sobreviva e sobreviva também o filho da mãe morta. MJ pode, melhor
que ninguém, dizer isso em uma frase capitular:
Desde
então, eu tenho esse gelo dentro de mim. Não tenho sentimento, sou
uma pedra. As pessoas dizem: “mas você não ama ninguém?” Eu
não amo, não tenho amor no coração. Sou fria.
Para
entender o caso MJ é possível lançar mão das observações de
McDougall, que percebeu que alguns indivíduos não sofrem "de
uma incapacidade de vivenciar ou de exprimir uma emoção, mas sim de
uma incapacidade de conter o excesso
da experiência afetiva (próxima da angústia psicótica) e
portanto, nessas condições, de uma incapacidade de refletir sobre
essa experiência" (pag. 105). Além do quê, o indivíduo pode,
por causa dessa incapacidade para prover-se de diques contra o
transbordamento dos afetos e da impossibilidade de simbolizar, perder
sua capacidade de sonhar por meio das palavras o sonho noturno, indo
às últimas consequências de uma eclosão somática, uma
somatose.
Tal desafetação surge, então, a partir de um funcionamento mental
marcado por um abismo psíquico, justamente entre as emoções e suas
representações mentais, gerando um modo de vida que não se atém
aos sentimentos ou aos acontecimentos carregados de afetos ou à
realidade psíquica do outro, gerando um comportamento moral
granítico, duro e frio. MJ expressa isso de modo cabal: "
Elas
(as filhas) querem que eu tenha amor. (silêncio) Eu morro em cima
deles (os filhos) e eles não agradecem. Eu morro todos os dias. Eu
dou a vida para elas, eu cuido, estou presente, me preocupo, quero
que tudo dê certo para elas. Mas eu não posso dar meu coração, eu
tenho um buraco no lugar de coração. É um vazio só. Beijo meu
neto, tão lindo, mas não sinto nada; minha boca é fria. Eles são
lindos, e eu quero ter algum sentimento por eles, mas eu não sei
qual!"
Marie-Claude
Lambotte lança mão da imagem do buraco psíquico, anteriormente
estudados por K. Jaspers, Binswanger, Heidegger e outros além,
claro, de Freud que estabeleceu as bases para entender a profunda
ferida escondida e hemorrágica dos melancólicos. Buraco esse
causado por extremado formalismo da linguagem sem consequências para
melhor representação de seu viver, ou seja, nada a dizer dizendo
muito. É possível ver os vincos de melancolia subjacente ao gelo
emocional de MJ. A falta de consecução do luto por meio de lágrimas
quentes e memórias bem delineadas, temos imagens da morta com meios
tons e tons de tons que não delineiam a mãe, aliados a lágrimas
secas de vida num eterno luto a se constituir. Há, é verdade, uma
hemorragia de líquidos informes, mas não de sangue vibrante,
ameaçando a vida; essa já há muito deixou o corpo, desligando-o do
mundo.
James
Grotstein (1999), apesar de sua investigação se afastar das
premissas greenianas na tentativa de representar o buraco hemorrágico
psíquico, também se atem a essa metáfora para designar aquele
estado em que o excesso de impulsos instintivos sob ataque de
amortização pelo indivíduo acaba por gerar um buraco negro
aniquilador, entrópico, lugar psíquico onde nada sobrevive a não
ser na forma de emoções, palavras e comportamentos destituídos de
sentido, mergulhados em nada. Seria o dom gelado desse vácuo, onde
há somente aleatoriedade (caos), uma sopa borbulhante de instintos
em que foi realizada a retirada de seu fator afetivo, levando o ser
ao freezer
psíquico. Com Grotstein pode-se sentir o pavor psicótico de MJ à
beira da boca de lobo psíquica por onde há hemorragia de vida.
Dir-se-ia que há um corte na circulação afetiva por onde se esvai
o sentido da vida, embora mantenha suficiente energia para continuar
desejando desejar.
C.
Bollas (2000) chama a atenção para um aspecto histérico possível,
no caso MJ: "A singularidade congelada do histérico asceta –
tal como a mulher de Lot – é o sinal do self
paralisado pela visão da relação sexual. [...] Vê-se no
anoréxico, sobretudo, a efetividade dramática do self
ascético.
Como este self
se
dissipa, o corpo é cruelmente reduzido a significar apenas a
morte-que-bate-à-porta." Não há terror, apenas horror
nauseante e paralisante em MJ, aquele mesmo que um dia, em plena
infância, sentiu ao pressentir que um homem morrera e isso tinha a
ver com sexo, o sexo da mãe.
O
subtítulo – a
clínica do vazio
– tomei-o emprestado de A. Green, incentivado pela clínica deste
caso MJ, onde há alguma transparência daqueles fenômenos descritos
em seu artigo. Creio que MJ aponta uma parte importante das
implicações de se fazer uma clínica deste vazio, que se apodera do
paciente, cuja mãe morreu em vida, deixando um buraco psíquico,
sentido diretamente no soma, no centro do peito, como um frio
indescritível.
Ainda,
no subtítulo, lê-se “o amor gelado” em alusão aos cuidados
maternos técnicos,
adequados,
necessários,
que MJ tem para com os filhos e netos, mas, como ela mesma o diz, de
modo exemplar: “sem nada no peito, sem sentimento, sem amor; [...]
morro por eles, mas com um gelo no peito”. É a expressão clara do
zelo sem intimidade corporal com a criança, em geral aparecendo a
partir de um luto branco, o luto pela “morte” de uma mãe que
deprimiu, em contraposição ao luto “quente”, “vermelho”,
feito com lágrimas quentes, cheias de afeto por uma “mãe de
amor”.
MJ
– A mãe morta, filha de mãe morta MJ
procurou a psicanálise recomendada por um médico psiquiatra, que a
atendia e medicava há 4 anos. Quando li os vários papéis que me
trouxe, pude observar que havia uma folha de bloco de recomendações
médicas, com receita de Rivotril, Diazepan e Prozac. Suas queixas
somáticas listavam insônias, ataques de raiva, apagamento psíquico,
sensações de desmaios, lombalgias, ciatalgias, degeneração da
coluna, dores muito fortes dos joelhos, rigidez muscular e articular,
sensações de buraco, pedra ou gelo no peito e, eventualmente, no
corpo todo.
Havia
ainda uma segunda recomendação para psicoterapia, onde estava
escrito: caráter ansioso de difícil remissão. Quando iniciamos as
sessões de psicossomática, MJ tinha 52 anos, roupas bem cuidadas,
rosto jovem e semblante rígido, algo triste, e clara expressão
ansiosa, com traços de irritabilidade. Mãe de cinco filhos, dos
quais um homem e duas mulheres, todos casados; um rapaz de 16 anos e
uma moça de 22 moram com ela. Os três filhos mais velhos são de
seu primeiro casamento e os dois mais novos de um segundo casamento.
Morava em São Paulo, mas nasceu no Nordeste, de uma mãe de dezoito
filhos e viera para cá mais ou menos aos vinte anos, já com os dois
primeiros filhos.
Na
primeira sessão, ao contar sua história, MJ não apresentava sinais
de depressão, ainda que eu devesse levar em consideração a forte
carga de medicamentos que usa desde a primeira hora de cada dia nos
últimos anos. Mas é forçoso dizer que se pode perceber os rastros
da depressão, dentro do discurso de um paciente. Green diz que em
geral esses pacientes revelam “uma depressão singular” apenas
“depois de longos anos de análise” (GREEN, 1980, p.247).
Portanto, num primeiro momento, apenas traços desta singularidade.
Na
verdade, logo no início, pude perceber a desafetação
levantada
por J. McDougall, na forma de um “relatório” semanal das
intrigas dos filhos, falando muito pouco de uma perspectiva pessoal.
Quando se referia aos pensamentos e ações dos filhos, usava os
termos “coisas feias”, “sujas”, “erradas” e outros, que
delimitavam as regras em que deviam se comportar. Seu discurso mais
frequente se referia ao fato de que foi “uma mulher muito errada”
e que sofreu por seus erros, por isso sabia o que é melhor para
todas as pessoas da casa. Achava inadmissível que uma de suas filhas
tivesse pensamento próprio, pois sentia-se ameaçada de que seus
fantasmas de infância fossem redivivos – especialmente a sombra da
mãe – na forma de erros morais incorrigíveis e merecedores de
punição eterna.
Em
MJ as palavras não transportavam desejo; eram desafetadas, embora
nomeassem o sentimento; parecendo um inventário do que se deveria
ser
ou sentir;
“estruturas congeladas, esvaziadas de substância e significação”
(McDOUGALL, 1999 p. 104) [...] “a angústia e toda a gama de afetos
não lhe servem mais como sinais que lhe permitiriam comunicar-se
consigo” (p. 105). Claramente delineava-se um modo de falar que se
formulava como falar
sobre sentimentos, mas não vivenciá-los,
ou seja, falar sobre o amor, seu tema preferido, mas não sentir o
amor.
J.
McDougall se refere a indivíduos desafetados como aqueles que
vivenciaram “precocemente emoções intensas que ameaçavam seu
sentimento de integridade e de identidade e que lhes foi necessário,
a fim de sobreviver psiquicamente, erigir um sistema muito sólido
para evitar o retorno de suas experiências traumáticas portadoras
de aniquilamento” (pag. 105) vivendo de um modo “que não leva em
consideração nem sentimentos, nem acontecimentos carregados de
afetos, nem a realidade psíquica de outros indivíduos”,
inclusive, no caso de MJ, deixando de levar em conta a realidade
psíquica do terapeuta, anulando-o. Vejamos em que termos:
[...]
MJ:
Depois que passei a tomar (remédios) deixei de ser violenta. Fico
muito violenta, sabe. O médico disse que eu tenho ansiedade com
depressão.
[...]
MJ:
Muito triste. Essa tristeza começou quando eu tinha oito para nove
anos. Naquela época minha mãe começou a fazer coisas erradas,
coisas sujas. A gente morava em umas terras do pai. Me
lembro de ter visto meu pai chegando a cavalo. Ele passou por mim e
foi direto para o quarto. Houve uma discussão com um homem que não
lembro quem era e como era. Eu fui até a porta do quarto e vi ele
com as coisas de dentro da barriga para fora e muito sangue. Não me
lembro, não consigo me lembrar... (silêncio) Não sei se ele
morreu, mas meu pai foi preso.
Sua
fisionomia é estática, dura, olhos fixos na parede e marejados, a
voz esganiçada e entrecortada; sua história é contada como uma
criança ansiosa, mas sem a velocidade típica do infantil; seu
discurso é ininterrupto, evitando que o terapeuta possa existir.
[…]
Aí
meu pai foi preso em uma cidade próxima. Eu acho que ele matou,
senão não iria preso. Alguns meses depois minha mãe, eu e meus
irmãos fomos levados, por um homem, para visitá-lo. Era mais uma
das coisas ruins que minha mãe fez. Esse homem frequentava ela. Eu
acho que frequentava. Sabe,
minha mãe casou-se, aos doze anos, com meu pai que tinha 20 anos a
mais. Ela foi usada como mulher, por isso não pôde fazer nada. Aí
o meu pai ameaçou de ir embora. Para não ficar falada e a família
também, então ela foi obrigada a ir. Acho que é por causa disso
que fazia coisas ruins, sujas mesmo.
[...]
Aqui
em São Paulo, ela começou a fazer coisas erradas, ruins. A gente
sabia, mas ficava quieto. Meu pai brigava e espancava todo mundo,
inclusive ela, por causa dela. Minha mãe sempre disse que meu pai
tinha uma vida, antes de casar, desregrada, errada. Eu nuca vi nada,
mas ela disse que ele era matador. Ninguém falava nisso, mas ela
insistia. Disse que casou por medo dele.
[...]
Foram
doze anos onde vivi de verdade; antes eu era morta e hoje sou morta.
Aí deixei meu filho com meu irmão, aquele que morreu. Esse filho me
cobra até hoje eu ter feito isso com ele. Ele diz: “Que mãe faz
isso com um filho? Fica com o homem ao invés do filho?” Desde
então, eu tenho esse gelo dentro de mim. Não tenho sentimento, sou
uma pedra. As pessoas dizem: “mas você não ama ninguém?” Eu
não amo, não tenho amor no coração. Sou fria. Se não tomo o
remédio, fico furiosa, quebro tudo, quero matar alguém, minha
filha, meu filho. Quando tomo, é só um gelo no centro do peito.
Eles me cobram que eu cuide dos netos. Eu cuido, mas estou doente.
(silêncio).
Terapeuta:
Pedem que ame seus netos?
MJ Chora.
Tira um lenço e enxuga lágrimas.
MJ:
Eles não sabem que eu estou doente? (silêncio)
Terapeuta:
Que a senhora tem gelo no coração, está fria por dentro. Que sua
longa história de dores, perdas, de ódio, não lhe permitem, pelo
menos no momento, dar conforto, calor, algo quente para os netos.
MJ:
Eu não tenho coração, sou fria como gelo (silêncio; choro)
. Eles
querem que eu cuide dos netos...
Terapeuta:
E a senhora ainda não pode aquecer o próprio coração...
MJ:
(Chorando
silenciosa)
Eu preciso tanto dizer isso para alguém...
Terapeuta:
Pode dizer isso que te ouço...
(Choro
silencioso, olhos fixos no terapeuta durante alguns segundos).
Só
a posteriori
percebi que a primeira sessão foi uma espécie de relatório, que se
em algum momento traiu algum sentimento doloroso, nas próximas
sessões MJ abandonou completamente tal contato e passou a descrever
sua semana, quase sempre iniciando assim: “Essa semana foi igual,
com os mesmos problemas, minhas filhas me dando trabalho, fazendo
coisas erradas, sujas, ruins...”; ou ainda: “E agora vamos falar
do R., meu filho mais novo...”; e listou ciosamente, em
praticamente todas as sessões, das que ilustram este trabalho, cada
uma das atitudes das filhas e filhos, que, invariavelmente, reprova.
Insiste em dizer que isso tudo, as coisas ruins feitas pelos filhos,
a decepcionam. Por isso é uma mulher triste, toma remédios e quase
não consegue se relacionar com ninguém.
Green
diz: “O
traço essencial desta depressão é que ela se dá na presença de
um objeto, ele mesmo absorto num luto.
A mãe, por uma razão ou outra, se deprimiu. A variedade dos fatores
desencadeantes é muito grande. [...] Em todos os casos, a tristeza
da mãe e a diminuição do interesse pela criança estão em
primeiro plano.” (GREEN, 1980, p.247) [...] O que aconteceu naquele
momento foi uma mudança brutal, verdadeiramente mutativa da imago
materna. Até então, como testemunha a presença no sujeito de uma
autêntica vitalidade que sofreu uma brusca interrupção, um
emperramento onde permanece ainda bloqueada, uma relação rica e
feliz se dava com a mãe.” (p.248)
Até
o momento em que deixa de vir à análise, não foi possível mais
que intuir uma infância, digamos razoável, anterior à “morte”
da mãe. O relato não deixava entrever fatos concretos, até porque
a paciente não tinha memória dos primeiros anos da infância. Pela
hostilidade subjacente em seu discurso, pela violência aplacada
pelos remédios, pela desafetação, pode-se pensar com Green que:
“Tudo teria terminado como nas civilizações desaparecidas, das
quais os historiadores procuram em vão a causa da morte levantando a
hipótese de um abalo sísmico que teria destruído o palácio, o
templo, os edifícios e as habitações, das quais só restam ruínas.
Aqui, o desastre limita-se a um núcleo
frio
que posteriormente será superado, mas que deixa uma marca indelével
nos investimentos eróticos dos sujeitos em questão". (p. 248)
Esse
núcleo negativo é o resultado de uma implosão, uma explosão ao
contrário, por não ter a quem atacar, agredir. Não há contra quem
defender-se da interdição e com quem dividir suas angústias. Seu
ódio advém de um vazio de ser, um vazio de substância, assim só
pode se manifestar como paralisia, anestesia, de modo comatoso.
“Depois
da criança ter tentado uma vã reparação da mãe absorta por seu
luto, que lhe fez sentir a medida de sua impotência, depois de ter
vivido a perda do amor da mãe e a ameaça da perda da própria mãe
e que lutou contra a angústia através de diversas maneiras ativas,
entre elas a agitação, a insônia ou os terrores noturnos, o Eu vai
pôr em ação uma série de defesas de outra natureza” (p. 249).
MJ relata, em várias sessões, sua imensa dificuldade para dormir,
sua ansiedade, raiva, excitação, tudo sendo sedado diariamente. É
a única maneira de poder manter, minimamente, os laços afetivos,
ainda que sem afeto – o negativo
do afeto.
Pensei
no termo negativo
do afeto,
na tentativa de seguir o raciocínio greeniano; penso que tal luto
pode ser simbolizado por uma metáfora – a do filme negativo de uma
foto que possui todos as referências da futura foto, mas sem as
cores que esta exibirá após passar pelo processo de revelação ou
as cores perdidas na catástrofe psíquica que sofreu.
Definitivamente o negativo
do afeto
possui todas as palavras do amor, mas não vem com o calor e as cores
do amor. Interessantemente seus afetos podem ter a imagem periférica
de um afeto, mas seu núcleo é gelado. Por causa disso Green dirá
que trata-se de “um assassinato psíquico do objeto, realizado sem
ódio.”
Um
ódio frio. MJ diz, frequentemente, que gostaria de sentir amor, mas
não sabe o que é isso. Beija os netos e os filhos, mas não sente
nada. Segundo Green, ela “se sente incapaz de amar, mas que
continua a amar”. [...] “Todavia, como se diz, ‘o coração não
está presente’” (p. 249). O coração não pode estar presente
porque sua substância, seus músculos, suas veias, são
desvitalizadas pela não-presença da mãe; uma presença negativa,
uma vez que não-presença é um modo de estar presente, mas sem
calor materno. Diga-se de passagem que não se trata de ausência;
falo aqui de uma presença insubstancial. Como diz MJ em nosso
primeiro encontro: Desde
então, eu tenho esse gelo dentro de mim. Não tenho sentimento, sou
uma pedra. As pessoas dizem: “mas você não ama ninguém?” Eu
não amo, não tenho amor no coração. Sou fria. Se não tomo o
remédio, fico furiosa, quebro tudo, quero matar alguém, minha
filha, meu filho. Quando tomo, é só um gelo no centro do peito.
Eles me cobram que eu cuide dos netos. Eu cuido, mas estou doente.
Ou
noutra sessão: É.
Eu não sei sentir ainda. Eu não tenho nada no coração. Eu sou uma
pedra de sentimentos. [...]
(lacrimejando) É.
Quando venho aqui, eu posso falar; posso tirar uma sujeira negra de
dentro do meu peito; o senhor sabe que eu casei embaixo de mentira.
Minha vida é só mentira. É negra. (silêncio).
[...]O
que o senhor vai fazer para me ajudar? Eu gostaria de chorar um dia
inteiro para tirar essa nuvem negra de dentro de mim... gelada; tenho
até medo de não aguentar. Minha filha vai fazer algo ruim... eu
tomo remédio, não posso cuidar dos netos... perdi tanta gente,
tenho medo de não cuidar, perdi meu pai, meu irmão, um filho, meu
marido, minha sogra... eu quero chorar e tirar essa coisa fria e
negra que tenho no peito.
“A
outra face do desinvestimento é a identificação segundo um modo
primitivo com o objeto”. [...] “De fato, não há reparação
verdadeira, mas mimetismo, cuja finalidade, não podendo mais ter o
objeto, é continuar a possuí-lo tornando-se não como ele, mas ele
mesmo”. [Esta] “identificação produz-se à revelia do Eu do
sujeito e contra sua vontade. Daí seu caráter alienante”. (GREEN,
1980, p.249)
Isso
nos remete a noção de “um corpo para dois” ou mais extensamente
“uma psique para dois, um sexo para dois, uma vida para dois”,
trazida à luz por J. McDougall (Corpo e história, 1985, p. 10). MJ
não pode deixar de sentir que as filhas, especialmente a mais nova,
estão vivendo por meio de sua vida, quando diz: “Eu morro em cima
delas”. Ou: “Elas estão erradas, não podem viver desse jeito”.
McDougall chegou a “formular a problemática paradoxal desses
pacientes nestes termos: se o fantasma fundamental prescreve que o
amor conduz à morte e que somente a indiferença a toda
libidinização garante a sobrevivência psíquica, aumenta de modo
notável sua vulnerabilidade psicossomática”, criando uma espécie
de pensamento único que a protege de seus medos mais primitivos de
separação materna. Entre as várias “técnicas” de
sobrevivência psíquica, MJ procura impor uma única forma de viver,
inclusive dizendo que V. (sua filha mais nova) é sua única chance
de se salvar. Sempre que MJ se decepciona com um dos filhos
salvadores, delega para o próximo filho a missão do último. Então
diz: Ela
era a menina dos meus olhos, mas agora mentiu. [...]A V. era minha
última esperança de alguém dar certo naquela casa. […]
Mas
eu não posso fazer isto com minha filha... eu nunca vou poder tirar
esse lado negro de mim... se eu soubesse pelo menos ser uma mãe de
amor.
Terapeuta:
Uma
mãe quentinha, aconchegante?
MJ:
Eu
dou beijo no R. e ele diz: “Cadê o sentimento”?
Uma
mãe sem coração (respiração
convulsiva; silêncio).
Uma mãe sem coração (silêncio).
Sou muito violenta. Nunca bati na V., mas bati na Ve...(segunda
filha)(silêncio).
Principalmente se uma delas mentir para mim.
Elas
querem que eu tenha amor (silêncio).
Eu morro em cima deles e eles não agradecem. Eu morro todos os dias.
Eu dou a vida para elas, eu cuido, estou presente, me preocupo, quero
que tudo dê certo para elas. Mas eu não posso dar meu coração, eu
tenho um buraco no lugar de coração. É um vazio só. Beijo meu
neto, tão lindo, mas não sinto nada; minha boca é fria. Eles são
lindos, e eu quero ter algum sentimento por eles, mas eu não sei
qual!
Green:
“O segundo fato é, como sublinhei, a perda
do sentido.
A 'construção' do seio cujo prazer é a causa, a finalidade e a
garantia, desmoronou de uma só vez, sem razão. Mesmo imaginando a
inversão da situação pelo sujeito que se atribui, numa megalomania
negativa, a responsabilidade da mutação, há uma distância
impreenchível entre a falta que o sujeito se recriminaria de ter
cometido e a intensidade da reação materna. No máximo, ele poderia
pensar que essa falta está ligada à sua maneira de ser mais do que
a algum desejo interdito; de fato, lhe é interdito ser” (GREEN,
1980, p. 250), a não ser por meio de seus filhos, que nestas alturas
a impedem de ser, tomando o lugar da mãe.
Segundo
Green, estes fatos iniciais provocam: a)“O
desencadeamento
de um ódio secundário (Grifo
do autor),
que não é nem primeiro nem fundamental, colocando em jogo desejos
de incorporação regressiva, mas também posições anais tingidas
de um sadismo maníaco onde se trata de dominar o objeto, de
maculá-lo, de vingar-se dele etc.” Em MJ a mãe morta é a todo o
tempo manchada, submetida ao desprezo para rescindir um contrato
amoroso inicial que se estende ad
infinitum. Na
melhor das hipóteses sua mãe morta “reencarna” diariamente na
pele seus filhos, permitindo que MJ possa exercer suas posições
anais, especialmente posicionando-se como mãe sem amor, que se sente
obrigada a amar. b)“Excitação
auto-erótica
(Grifo do autor) instala-se pela procura de um prazer sensual puro,
prazer de órgão no limite, sem ternura, sem piedade, que não
necessariamente é acompanhado de fantasias sádicas, mas permanece
marcado por uma reticência a amar o objeto”.
Desafetada
de seu amor, MJ não pode dar atenção a alguns sinais amorosos que
o ambiente lhe dá, pois o ambiente significa sua mãe desafetada.
Ambiente este muito bem representado pela cena terapêutica, onde MJ
permite que aconteça um amor sem calor. Ela deseja a terapia, desde
que esta não a leve ao amor quente. Mesmo sem desconstruir a
terapia, MJ consegue realizar um distanciamento que tem por objetivo
manter o terapeuta um negativo de mãe; pede ajuda terapêutica,
desde que esta não signifique sentir e, especialmente, levá-la ao
confronto com o sentido
de suas vivências. A mãe-ambiente trazida à cena por McDougall, a
partir de Winnicott, pode ajudar a entender a imensa dificuldade para
MJ aceitar que o mundo tenha um olhar diferente do seu. Afinal MJ não
apenas tem uma mãe morta, mas também ela é uma mãe morta,
portanto o ambiente terapêutico é natimorto. Não pode satisfazer
seus desejos nem suas necessidades. c) “Por fim, e sobretudo, a
busca
de um sentido perdido estrutura o desenvolvimento precoce das
capacidades fantasmáticas e intelectuais do Eu (Grifo
do autor).
[...]
Desempenho e auto-reparação unem-se para concorrer à mesma
finalidade: a preservação de uma capacidade de superar o desespero
da perda do seio pela criação de um seio remendado,
pedaço de tecido cognitivo destinado a mascarar o buraco do
desinvestimento, enquanto o ódio secundário e a excitação erótica
formigam na borda do abismo vazio”. (GREEN, 1980, p.250)
MJ
se expressa assim, logo depois de uma discussão com sua filha e
filho mais novos; quarta sessão:
...
e eu comecei a querer chorar, aí gritei muito alto, muitas vezes e
depois entrevei os dentes e corpo todo ficou rígido, sentindo a pele
muito fria, os músculos gelados. Não sei quem, me trouxe água com
açúcar e um Rivotril que engoli com muito esforço. Com dois
Rivotril apaguei e acordei no Domingo. Durante a semana não se falou
mais no assunto, como se nada tivesse acontecido.
Qualquer
possibilidade de entrar em contato com maternidade, dependência,
nascimento ou fragilidade levam-na a um desespero que somente pode
ser aplacado por medidas extremas, onde MJ “desaparece”.
...
no aniversário de 50 anos minha filha mais velha queria fazer uma
surpresa, mas bem no dia tive de ser internada e fiquei vários dias
sob calmante; e o aniversário deu em nada. No de 51 anos meus
genros, minhas filhas e o R. iam me levar a uma churrascaria na
divisa entre Minas e São Paulo [...] Ainda de manhã começou a me
dar uma agrura, um frio danado, comecei a passar mal e aí fui para
casa [...]eu só descanso em casa; queria tomar o remédio e dormir.
Quando cheguei em casa estava todo mundo lá; ficaram decepcionados,
daí eu fiquei sabendo que era meu aniversário. Fiquei dopada até o
dia seguinte. Agora nesse aniversário de 52 anos eu queria que tudo
desse certo, mas aconteceu uma coisa desagradável, que me deixou
fora de mim. Estava todo mundo em casa, almoçamos, cortamos o bolo;
até aí deu tudo certo. Eu acho que falar com o senhor e depois
contar para minha nora me ajudou a superar a depressão e eu não
precisei tomar remédio durante o almoço. O senhor sabe que tomo
dois comprimidos para depressão durante o dia, não é?
“A
mãe morta havia carregado consigo, no desinvestimento de que fora
objeto, o essencial do amor de que tinha estado investida antes de
seu luto: seu olhar, o tom de sua voz, seu cheiro, a lembrança de
seu carinho. A perda do contato psíquico provocara o recalcamento do
traço mnêmico de seu toque. Tinha sido enterrada viva, mas seu
próprio caixão havia desaparecido. O buraco que jazia no seu lugar
fazia temer a solidão, como se o sujeito corresse o risco de nele
soçobrar com seu corpo e pertences” (GREEN, 1980, p. 253).
MJ
mencionou várias vezes um buraco no peito. No entanto, apenas
esporadicamente se referiu a doenças, embora se pudesse intuí-las a
partir de seus relatos paralelos de sofrimentos corporais. Ademais,
podemos considerar o uso de remédios psiquiátricos como uma solução
aditiva, o que se pode considerar uma somatização (McDougall, op.
cit.).
O
sentimento de queda vertiginosa experimentado por MJ parece estar
relacionado com uma experiência de desfalecimento psíquico, que
seria para a psique o que o desmaio é para o corpo físico, numa
espécie de alucinação afetiva da mãe morta, enchendo o vazio com
este objeto cadavérico, periodicamente; objeto escolhido para ocupar
o corpo e a psique; uma ocupação sem consistência.
Tudo
o que se observa em torno deste núcleo – o medo de soçobrar com
seu corpo e pertences psíquicos – organiza-se com uma finalidade
que podemos notar em três itens: possibilitar a sustentação da
vida do Eu, pelo ódio ao objeto, pelo garimpo de uma emoção
excitante, pela busca do sentido; reabilitar a mãe morta,
interessá-la, distraí-la, devolver-lhe o gosto pela vida, fazê-la
rir e sorrir; rivalizar com o objeto do luto na triangulação
precoce; a filha de mãe morta vai antecipar as escolhas parentais
para defender-se do vazio, de modo especialmente violento.
É
fundamental compreender que a incapacidade de amar, em MJ, só
decorre da ambivalência, e, portanto, da sobrecarga de ódio, à
medida que o que vem primeiro "é o amor
gelado
pelo desinvestimento” (GREEN, 1980, p. 254). Essa violência,
explica Dejours, não foi mediada pelas representações
pré-conscientes, gerando assim, por falta de representação,
somatizações variadas (C. DEJOURS, 1991), que foram declaradas por
MJ somente em nosso décimo encontro, quando se põe a falar das suas
desventuras corporais, confirmando a hostilidade surda por uma mãe
fria. “O objeto está, de certa forma, hibernando, conservado no
frio”. [...] “De fato, vai encontrar a incapacidade de amar, não
apenas por causa da ambivalência, mas porque seu amor continua tão
hipotecado à mãe morta. O sujeito é rico, mas não pode dar nada
apesar de sua generosidade, pois não dispõe de sua riqueza. Ninguém
tomou sua propriedade afetiva, mas ele não pode gozar dela". MJ
ilustra isso de modo exemplar essa incapacidade de gozar do que é
seu – na verdade não possui o que tem:
...
aí então, fiquei muito triste por ela (uma irmã). O senhor sabe,
eu fui a mãe destas minhas irmãs, cuidei muito delas, pois minha
mãe vivia com homem, para cima e para baixo, sem dar atenção a
elas. Eu sei o que é bom para elas. [...] ...ela é minha irmã e eu
cuidei dela como mãe. Veja o que aconteceu com minha filha V. Essa
também não parece ter entendido o que é certo e o que é errado.
Também me deu desgosto no aniversário, igualzinho minha irmã.
Quanto
a sua vida sexual MJ vai percebendo-a diminuir, dissipar até ser
praticamente nula, especialmente depois do falecimento do marido; não
se trata nem de inibição nem de perda de apetite sexual ( GREEN,
1980,
p. 255); simplesmente ninguém mais é desejável e, se por acaso
alguém o for, ela própria trata de fugir da relação, como é o
caso citado em nosso 12º encontro:
…
É
que são tantos problemas, que não sei nem por onde começar... Por
exemplo, o V. (o
inquilino) começou
a dar um tipo de problema que jamais imaginei que poderia acontecer
comigo. Eu já disse para o senhor que ele tem mania de ficar fazendo
elogio; diz que sou a mãe que nunca teve, manda flores, fala para
meus filhos que eles não sabem a mãe que têm.
Eu
já disse para ele ficar quieto no canto dele, por que não quero que
meus filhos pensem que tenho alguma coisa com ele. Quando aluguei o
quarto dos fundos foi um favor para um sujeito que não era bem vindo
na casa dos pais, estava bebendo muito, usando maconha todo dia. Dava
dó! Era uma coisa triste de se ver. O problema é que começou a
botar as manguinhas de fora; começou a passar a mão no meu cabelo,
a me fazer elogio de homem, a ficar muito tempo em casa, já que eu
faço comida para todo mundo. Aí ele fica sempre um pouco mais e se
aproxima com uma conversa de gratidão e etc. Aí fico pensando: se
os outros souberem disso o que irão falar? Onde já se viu uma
mulher na minha idade envolvida com um rapaz da idade do V.? Além
disso, ele está dentro de minha casa; vão pensar que fiz isso de
caso pensado, levando homem para dentro de casa. Mas tudo que eu
queria era ajudá-lo a sair das drogas, da bebida; não custava nada
fazer isso por ele. Tenho medo da opinião dos meus filhos. Vão
achar que eu tinha intenção de levar homem para dentro de casa. É
uma vergonha.
…
Outro
dia ele trouxe flores para mim. Não achei nada de estranho, porque
ele tem o hábito de trazer flores para todo mundo. Mas quando olhei
no papel de embrulho transparente vi que estava escrito “eu te
amo”. Fiquei muito brava. O senhor já pensou se um dos meus filhos
vê uma coisa destas! O que eu iria dizer para os outros. Isso é
errado, é feio.
…
Aí
chamei-o para uma conversa em particular e disse que não fizesse
isso nunca mais. Que eu sou uma mulher que está mais para a mãe
dele; que ele é muito novo e deveria respeitar-me. Que eu não vou
conviver com estes pensamentos que estão dentro de minha cabeça.
(silêncio)
.
Terapeuta:
Seu
desejo por ele...
MJ:
Tenho vergonha deles (constrangida,
mas com um sorriso indecifrável).
Afinal de contas não quero ele para meu homem....É
um absurdo. Eu só poderia ter algo com ele, que não sujasse a
memória do meu marido morto. Não poderia namorar, por que isso
sujaria sua memória. Meu marido ainda está vivo. Está muito mais
que vivo, está presente. Por isso eu só poderia pensar em sexo,
para não sujar sua memória. Mas quando tenho estes pensamentos fico
descontrolada; tenho de usar mais remédio ainda. Atualmente tenho
usado direto, por isso não posso vir à terapia.
Terapeuta:
A
senhora não tem vindo à terapia por que tem tido pensamentos
sexuais...
MJ:
É. (silêncio,
seguido de um sorriso maroto)
Mas não com o senhor. O V. está me pressionando, mas eu não vou
cometer nenhuma bobagem…
O problema é que ele está nessa insistência comigo. E eu quero
respeitar a memória do meu marido, mesmo eu não tendo amado, não
tendo sentido nenhum prazer, fui respeitada, fui cuidada. Vivi um
casamento de verdade; um casamento onde ele, por causa de ser muito
mais velho que eu, me tratou com respeito de pai.
[...]
…
Pensei também em fugir de casa; viajar um pouco; ir para a casa de
uma parente, até o V. esquecer esta história; eu não quero mais
pensar besteira. Toda vez que penso qualquer coisa com homem tenho de
tomar remédio e ficar dopada; atualmente fico dopada praticamente o
tempo todo.
Terapeuta:
A
senhora está me contando uma história de amor...
MJ:
Amor
errado. Vou acabar fugindo. Não quero acabar como minha mãe. Vou
viajar.
Terapeuta:
Como
sua mãe acabou?
MJ:
(silêncio,
rigidez facial, depois um sorriso indecifrável, mexeu pela primeira
vez na cadeira)
Terminou como eu... (silêncio
demorado)
“Este
núcleo frio queima e anestesia como o gelo, mas enquanto for sentido
como frio, o amor permanece não-disponível. Não são somente
metáforas. Estes analisandos queixam-se de sentir frio em pleno
calor. Têm frio sob a pele, nos ossos, sentem-se enregelados por um
calafrio fúnebre, envoltos na sua mortalha” (GREEN,
1980, p.
255).
Nessas
condições MJ não pode conviver com qualquer tipo de sensação um
pouco acentuada: muito amor, muito prazer, muito gozo, muita
tristeza; por outro lado, a função parental está sobreinvestida e
infiltrada por narcisismo, tentando preencher os objetivos
narcisistas dos pais. André Green fala então daquilo que seria o
calcanhar de Aquiles do Complexo da Mãe Morta; a fantasia da cena
primária. Na verdade o que importa na cena primária não é sua
realidade
e
sim, pelo contrário a imaginação
da cena primária. Melhor dizendo: a cena primária que se desenrola
longe da criança, e por ela fantasiada, chega a ser mais importante
para a consecução dos futuros desinvestimentos libidinais do filho
da mãe morta. O fato da cena primária ter se desenrolado na
ausência do sujeito, provocando uma série de consequências que
podem aparecer isoladamente ou agrupadas:
1.
A perseguição por esta fantasia e o ódio aos dois objetos que se
forma em detrimento do sujeito. No caso MJ a figura paterna fica
isenta do ódio (quinta sessão):
…
Eu mandei fazer uma foto pintada do meu pai e outra minha aos 15
anos. Eu guardei dentro da mala. De vez em quando eu olho a foto
dele. Essa semana quando mexi no álbum encontrei uma foto com minha
mãe e o meu pai batizando o meu irmão, e observei o quanto a minha
mãe não parece com nenhum de nós. Desde que a conheço ela está
com a mesma aparência de sempre. Sempre de coque. Parece que não é
nada nossa.[...]
O
meu pai, que saudade do meu pai!. Talvez porque assisti o sofrimento
dele. Quando chegamos em SP ele saia pelas ruas vendendo borracha
para trazer fubá para a gente comer. Por mais que ele tenha feito...
mas a minha mãe saia e deixava a gente, dentro de casa com fome. Eu
saia para pedir o que comer na rua.
2.
Podemos, no caso da Mãe Morta interpretar classicamente a cena
primária, como cena sádica, onde a mãe sofre uma agressão e
humilhação, no momento em que a criança intui prazer da mãe. Mas,
o que importa mesmo é que a mãe ou não goza, sofrendo, ou então
goza apesar de si mesma, do sentir-se constrangida pela violência
paterna.
…
Aqui em São Paulo, ela começou a fazer coisas erradas, ruins. A
gente sabia, mas ficava quieto. Meu pai brigava e espancava todo
mundo, por causa dela. Inclusive ela. Minha mãe sempre disse que meu
pai tinha uma vida, antes de casar, desregrada, errada. Eu nuca vi
nada, mas ela disse que ele era matador. Ninguém falava nisso, mas
ela insistia. Disse que casou por medo dele. [...]
Quando
eu tinha doze anos fui usada como mulher, por um tio, que veio junto
com ela numa das viagens. Ele me ameaçou, dizendo que contaria para
o meu pai. Eu sabia que ele me mataria se soubesse. Me usou três ou
quatro vezes. Aí eu comecei a fugir de casa quando ele aparecia e
minha mão me batia muito porque eu não ficava em casa. Eu não
contei para ela, não contei nada.
3.
Esta situação pode sofrer uma variante desta última, onde a mãe
gozando, sentindo prazer, nesta cena sádica, é percebida como
cruel, hipócrita, comediante, "espécie de monstro lúbrico que
faz dela a Esfinge do mito edipiano muito mais do que a mãe de
Édipo" (GREEN,
1980, p.255).
...Eu
é que fiz o papel de mãe, cuidei dos 11 irmãos. Nestas alturas
havia morrido 2 irmãs e 2 irmãos. Depois é que meu irmão mais
velho, o B. atirou no meu irmão, por causa da confusão da minha
mãe... coisa de homem de ..... (breve
silêncio).
Minha vida é tão confusa que estou deixando-o confuso. É muita
coisa. [...]
Eu tenho muito ódio, mas não sei do quê... Só quero dizer que
minha mãe, se estiver viva ainda, merece meu respeito de filha,
afinal ela é mãe... mas eu não sei notícias, acho que está
viva... A
mais velha, a M.C., que foi criada pela minha avó materna, chamava a
minha mãe de Dona
Moça
e a avó de mãe,
mas ela sabia que a avó não era a mãe.
Terapeuta:
Ela nunca chamou a sua mãe de mãe?
MJ:
Não, sempre de Dona
Moça.
Terapeuta:
Por quê Dona
Moça?
MJ:
Por causa do pai chamá-la de moça.
Terapeuta:
A senhora entende que a sua irmã a chamava de D. Moça com que
sentimento?
MJ:
Porque acho que ela não era mãe dela; porque se fosse não tinha
deixado a minha avó levar ela embora. Igual eu escuto, que a mãe
vai para o baile e deixa crianças em casa que morrem queimadas. É o
que eu digo para a minha filha: "Você tem dois filhos, o Vítor
e o Guilherme, e você está fazendo como a minha mãe.
4.
MJ ora passa por uma identificação com a mãe morta, seja na sua
posição afetiva inalterável, entregue a uma excitação erótica
de tipo sadomasoquista, onde sua inalteração é um cetro de
possessão da libido gelada da mãe morta; ora identifica-se com o
pai, agressor da mãe morta (fantasia necrófila), ou reparador pela
relação sexual.
5.
MJ, segundo minha avaliação, concordando com Green, passa por uma
deslibidinização erótica e agressiva da cena sádica, em proveito
de uma intensa atividade mental, que não chega a ser intelectual,
mas que faz uma restauração narcísica frente a esta situação que
a confunde. A procura de um sentido novamente perdido, desemboca na
formação de uma teoria sexual, e estimulação de uma atividade
"intelectual" extensa, que restabelece a onipotência
narcisista ferida, sacrificando as satisfações libidinais.
A paciente apresenta uma forte cisão maniqueísta, com um discurso
racional, apelando sempre para que o interlocutor aceite que existem
coisa certas e coisas erradas. Apelo aqui, de novo, para o negativo
da foto, para dizer que o discurso tem todas as características do
racional, mas não tem as cores da afetividade.
6.
A intensa e inteira negação de toda a fantasia, com um grande
investimento na ignorância de tudo o que diz respeito às relações
sexuais, que faz coincidir, no sujeito, com o vazio da mãe morta e o
consequente apagamento da cena. A fantasia da cena primária torna-se
o pivô central da vida do sujeito, que cobre com a sua sombra o
complexo da mãe morta.
Além
disso, a imaginação da cena originária vem eivada de valores
anti-eróticos, isto é, o ódio, a homossexualidade e o narcisismo,
que vão conjugar seus eleitos para que o Édipo se estruture mal.
Isto tem como consequência o reinvestimento da relação feliz com o
seio, que se deu em um momento anterior ao surgimento do complexo da
mãe morta, mas de modo afetado pelo signo do efêmero, da ameaça
catastrófica de tudo perder-se na sujeira, no erro, na ignomínia; a
saída para o ego de MJ foi expressar-se a partir de uma falso self,
advindo de um falso bebê que se nutriu de um falso seio, conceitos
que extraio, de passagem, de Winnicott.
MJ:
Eu
entrei na menopausa com 42 anos. Menopausa precoce. Fiz tratamentos
tomando hormônios. Faz quatro anos que não desce, mas neste final
de semana, comecei a sentir muitas dores nos seios. Eu achei estranho
porque tomo todos os remédios direitinho. Sábado veio a
menstruação. O ginecologista disse que, dependendo, eu precisaria
ficar internada para saber o que está acontecendo. Ai fiquei muito
nervosa. Não perguntei porque veio para mim, quatro anos depois. Eu
nunca tive problemas de cólicas. Agora eu estou preocupada porque eu
nunca tive dor no seio e agora eu estou tendo. A gente vê tanta
coisa por aí, câncer. Vou fazer uns exames porque estou com
osteoporose, desgaste na bacia, não posso subir escadas ...O
menino mais novo da Verônica tem fimose, para ele fazer um pingo de
xixi eu tenho que ligar o chuveiro para estimulá-lo. Não entra nem
uma agulha no buraquinho ...Talvez
eu seja tão amarga, não sinta emoção, nunca senti prazer na minha
vida, por todos os problemas que tive. Talvez tenha acontecido muita
coisa. Eu acho que ela está se vendendo. Depois do último namorado
toda pessoa que encostar nela eu acho que ela vai ter relações, e
eu não aceito isso.
Noutro
momento:
Terapeuta:
Seus
netos não são seus filhos, são filhos de sua filha.
MJ:
Eu
acho que são meus filhos. Eu acho que os meus dois netos são meus
filhos.
Eu
estou fazendo para os meus filhos: o Vítor e o Guilherme (seus
netos).
Terapeuta:
A
senhora parece muito tensa falando sobre isso...
MJ:
Domingo ela foi com o marido levar o menino ao médico por causa dos
sintomas da fimose, vômitos, enjoos. Como demoraram muito eu fiquei
preocupada e liguei para a casa dos pais do meu genro e acabou
acontecendo uma discussão, porque o pai dele disse que eu estou me
comportando como se fosse mãe das crianças e não avó. Ele disse
também que a Verônica é uma péssima mãe.
************
Como
pode-se depreender da análise de tão poucas sessões,
posto que mal se deu a transferência para balizar o trabalho que ora
me proponho, devo dizer que isso resulta em uma compreensão
superficial da maior parte dos fenômenos levantados por Green. De
qualquer modo, posso seguir suas pistas e concluir, ainda que
parcialmente, que MJ possui um falso self, com um falso seio, que por
sua vez alimenta um falso bebê. MJ comporta-se, em um modo de ser,
patenteado pela marca "como se fosse"; ama como se fosse
amor, odeia como se fosse ódio, e assim por diante. Supõe-se que
isso tenha surgido a partir de um primeiro momento de contato com a
mãe onde esta estava viva, pulsante, por isso, quando evocada, é
feita na forma de necessidade e não desejo, aparecendo com os
contornos do amor, mas sem a substância do amor. Logo MJ percebe que
aquela antiga alegria era uma ilusão e a frase "nunca fui
amada" (parafraseando Green) se torna a marca registrada da
paciente "à qual o sujeito vai se agarrar e que vai fazer
esforços para verificar na sua vida amorosa posterior" (GREEN,
1980, p. 255).
É
o caso de MJ. Laboriosamente tentará demonstrar que jamais foi amada
pela mãe, apelando para seu gelo no coração, a falta de amor das
filhas e a negação de um dos netos em relação ao outro,
chamando-o de amiguinho, priminho, coleguinha, jamais de irmãozinho.
Consequências
clínicas
MJ
confia plenamente na terapia, vindo em todas sessões, aproveitando
todos os minutos possíveis, mas dificilmente aceitando qualquer
presença
do terapeuta. Sempre que o terapeuta aparenta estar entendendo ou
interessado na paciente, esta muda o assunto bruscamente. Tal como a
mãe morta o terapeuta nasce com luz vital, mas rapidamente é
cadaverizado, e no seu lugar existem ouvidos que devem escutar, mas
não ouvir; boca para falar, mas não dizer; em suma, qualquer sinal
de vida do lado do ouvinte, aciona mecanismos de defesa por
repressão, do lado da analisanda, que pode se apresentar
violentamente.
Essa
violência, pensada por Dejours, não foi mediada pelas
representações pré-conscientes, gerando (com isso) somatizações
(1991), que foram declaradas por MJ somente em nosso décimo
encontro, quando se põe a falar das suas desventuras corporais,
confirmando a hostilidade surda por uma mãe fria.
MJ
brinda certezas a respeito de sua problemática, em muitos momentos,
sendo que cada um destes presentes tem como objetivo, segundo Green,
manter o analista paralisado, gelado, confirmando suas expectativas
de não ser amada. A
linguagem de MJ é, repetidamente, uma retórica de estilo narração.
Sinto, frequentemente, que seu papel é me comover, implicar-me,
tornar-me testemunha no relato dos conflitos localizados no exterior.
Como uma criança que conta à sua mãe seu dia na escola as centenas
de pequenos dramas que viveu, para interessá-la e fazê-la
participar do que descobriu na sua ausência.
MJ
claramente se desconecta, se desliga para não ser invadida pelo
afeto da revivescência mais do que pela reminiscência. Quando cede
ao sentir, ao vivenciar, é o desespero que se mostra em toda sua
transparência, terminando num arroubo de agressividade; quase sempre
encerrando suas frases em um "isto é errado". Quando
o terapeuta consegue se aproximar do discurso não feito, MJ, para
proteger a mãe morta, que é ela mesma, se sente
sem coração, sem amor para dar, deixando claro que ela poderia
falar sobre este vazio por horas a fio, mas este vazio não pode ser
percebido de fora, pelo outro e por um lapso de tempo se sente
esvaziada, branca. É possível que com o andar da terapia possa
transparecer o louco amor que MJ nutre pela mãe. Amor este que torna
irrealizável a experiência do luto vermelho (cheio de afeto). Ao
que tudo indica, toda a estrutura psíquica de MJ visa uma fantasia
fundamental: nutrir a mãe morta, para mantê-la num perpétuo estado
de mumificação. A mãe está embalsamada e guardada, juntamente com
seus pertences, suas experiências amorosas, para ser usufruída mais
à frente, num futuro lançado em local e tempos remotos. MJ está,
segundo Green, nutrindo o terapeuta com a própria sessão sem o
objetivo de melhorar sua vida. Utiliza a sessão para que esta se
prolongue indefinidamente, petrificando o terapeuta, "pois o
sujeito quer ser a estrela polar da mãe (terapeuta), a criança
ideal que toma o lugar de um morto idealizado, rival necessariamente
invencível por que não vivo, isto é, imperfeito, limitado,
finito". (GREEN, 1980, p. 255)
O
que MJ perdeu, é, essencialmente, o contato com a mãe, que é
secretamente mantida nas profundezas de um sarcófago psíquico, onde
todas as tentações de troca por objetos substitutos, tais como o
trabalho, a família, o homem, deverão fracassar. Ironicamente, o
único homem que lhe deu algum prazer, foi justamente aquele que
trouxe a mãe doente para que MJ cuidasse em seu leito mortuário,
repetindo a cena da mãe morta; homem este que é mantido intacto,
tal como uma múmia de sentimentos e vivências.
Green,
repito, escolhe utilizar o quadro terapêutico como espaço
transicional,
evocando Winnicott, apresentando-se, o terapeuta, de modo
interessado, embora neutro; vivo,
embora não intrusivo. O autor não recomenda o silêncio do
analista, pois isto poderá acionar um mecanismo de repetição
enfadonha, em um velório infindável, em silêncio mortuário,
mantendo a relação com a mãe morta. A análise corre o risco de
soçobrar no aborrecimento fúnebre, ou na ilusão de uma vida
libidinal, enfim reencontrada, mas que em futuro muito próximo trará
a desilusão, como mortalha. Melhor dizendo, as palavras, podem
representar apenas mortalha; as vestes finais de uma mãe morta.
MJ,
se nos ativermos à sugestão de Green, deve sentir que o terapeuta
está atento às suas proposições. "E, se o paciente expõe
este sentimento, é perfeitamente possível mostrar, sem traumas
excessivos, o papel defensivo deste sentimento contra um prazer
vivido como angustiante". (GREEN,
1980,
p.262)
Com
o progredir da análise será restituído algo de vida à criança
identificada com a mãe morta e esta poderá usar esse sinal de vida,
invertendo a dependência infantil pela mãe. De agora em diante a
mãe doente é quem passa a depender da criança rediviva, não como
uma reparação da mãe, por remorso; a mãe passa a ser um altar de
sacrifícios, onde a criança, renuncia aos potenciais pessoais para
atingir prazer.
Em termos de transferência, o paciente traz à
análise material para ser interpretado para o terapeuta, como se
este dependesse da paciente, mais que ela do terapeuta. Neste momento
deve-se então interpretar para o analisando é que tudo se dá como
se fosse o analista que tivesse necessidade do analisando, ao
contrário do que acontecia antes. Em alguns momentos das sessões MJ
passa a sensação de que ela era a depositária do morto, sendo de
sua responsabilidade passar sua vida nutrindo sua mãe morta, guardiã
do túmulo, única possuidora da chave da sepultura, única
possuidora do segredo da Esfinge, desempenhando uma função de
genitora nutriz da mãe, como seu bem particular. MJ se tornou a mãe
da mãe, cabendo a sua mãe reparar a ferida narcisista de MJ.
Surge
aqui um paradoxo: se MJ está de luto, morta, está perdida para a
mãe, mas pelo menos, por mais atormentada que esteja, está lá.
Presente e morta, porém presente. MJ pode cuidar dela, tentar
acordá-la, animá-la, curá-la. Outrossim, se a mãe é curada, ela
acorda, se anima e vive, e MJ perde-a também, pois ela a abandonará
para cuidar de suas ocupações e para investir outros objetos. MJ
está presa entre duas perdas: a falta de vida na
presença
ou a
falta de presença na
vida. Disto decorre a extrema ambivalência quanto ao desejo de
devolver a vida à mãe.
A
mãe está "morta" (no sentido de não-viva, mesmo se não
tiver ocorrido nenhuma morte real); carrega, por isto, MJ para um
universo deserto, mortífero. O luto branco da mãe induz o luto
branco de MJ, enterrando uma parte de seu Eu na necrópole materna.
Nutrir a mãe morta significa, então, manter em segredo o mais
antigo amor pelo objeto primordial, sepultado pelo recalcamento
primário da separação mal-sucedida entre os dois parceiros da
fusão primitiva.
Resultados
clínicos
Os
resultados iniciais apontam para uma certa independência da paciente
quanto aos sentimentos e comportamentos dos filhos; abandono
espontâneo (quero dizer, sem acompanhamento do psiquiatra) do Diazepan, já completando sete semanas; inclusão
espontânea de passeios semanais; redução perceptível, porém
ainda incipientes, dos ataques de ódio. Porém, na décima segunda
sessão, MJ se apresentou em franca recaída, o que parece confirmar
as últimas observações de Green.
***
Para
encerrar passo a palavra para Green: "A situação, no complexo
da mãe morta, não pode ser vinculada à posição depressiva comum,
nem assimilada aos traumatismos graves da separação real. Não
houve, nos casos que descrevo, ruptura efetiva da continuidade das
relações mãe-criança. Em contraposição, houve,
independentemente da evolução espontânea em direção à posição
depressiva, uma contribuição materna importante que vem perturbar a
liquidação da fase depressiva, complicando o conflito pela
realidade de um desinvestimento materno, suficientemente perceptível
pela criança, para ferir seu narcisismo. Esta configuração
parece-me conforme aos pontos de vista de Freud sobre a etiologia das
neuroses – em sentido amplo – onde a constituição psíquica da
criança se forma pela combinação de suas disposições pessoais
herdadas e acontecimentos da primeira infância". (foto: Modigliani - retrato feminino)
Levi Leonel de Souza
Psicanalista, Mestre em Ciências da Linguagem, pesquisador convidado pela Universidade do Vale do Sapucaí.
Referências:
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