domingo, 3 de janeiro de 2016

Qual é o sofrimento psíquico do corrupto?

Como desenvolver um pensamento psicanalítico e ressignificar a palavra corrupção, se esta não advém da teoria psicanalítica? Há muito a psicanálise se esbate com palavras florescidas em outras disciplinas ou que vieram do senso comum. Mas, neste caso, como superar a dificuldade metodológica de criar um pensamento psicanalítico da corrupção, palavra que não surgiu no consultório de terapia? Ou pior, como analisar psicanaliticamente uma palavra tão carregada de juízo de valor, sem cair em psicanálise aplicada, de um já sabido pela clínica, tornando o objeto “corrupção” apenas ilustração de uma teoria? É o que Luís Claudio Figueiredo tenta responder em seu artigo “Pensamento clínico e corrupção. A corrupção entre ligações e desligamentos”, apresentado recentemente no XIX Encontro do curso de Especialização em Psicoterapia Psicanalítica (outubro 2015). Faço um comentário, antecipando que LCF pode não concordar com meus termos...

    Antes de alinhar alguns apontamentos sobre como se dá a corrupção é necessário afastar-se da tentação de ideologizar o termo tal como dizer que um partido é corrupto ou a direita ou esquerda são corruptas, ou patologizar, dizendo que a corrupção é uma doença ou que o corrupto é um doente, retirando a luz sobre o entendimento do que significa corromper.
    Primeiro, é necessário, para que haja a corrupção, um pacto instituído como uma sociedade clandestina, sob a pele do pacto social maior e geral – a sociedade com todos seus dispositivos de funcionamento. Viceja, o pacto ilícito, ao mesmo tempo e no mesmo espaço do pacto lícito, porém à sua revelia e o contradizendo. Essa sociedade clandestina parasita a sociedade legal, sub-repticiamente.
    Depois é preciso entender que a corrupção é necessariamente trabalhada em parcerias, num conluio cooperativo e distribuidor de ganhos, tornando-se uma quadrilha, cujo trato é registrado em planilhas. Quase sempre se trata de dinheiro, mas nem sempre. Pode se tratar de valores e bens de ordem imaterial “distribuídos segundo regras consensuais (por exemplo, as notas de aproveitamento acadêmico e avaliação docente em conluios que envolvem professor e alunos)”, ou lobbies feitos por pessoas que detém algum poder e podem influenciar em negociações legais (e quase sempre imorais) ou ilegais (sempre criminosas).
    Outro aspecto importante na corrupção é que necessita-se de um pacto fundante entre vários cidadãos da sociedade comum, criando uma outra sociedade escondida, mimetizada no tecido dos poderes – suas ações estão à vista, porém não se pode identificá-las facilmente, pois elas estão amalgamadas nas mesmas instituições que visam evitar o surgimento da corrupção. Sua fenomenologia é a da barganha, traindo o pacto social maior. [Assim] “o caráter sagrado de um pacto fundante é profanado quando se torna cobertura e condição de possibilidade de uma prática ilícita”.
Para que a traição ao pacto social, pelo pacto parasitário dos corruptos tenha sucesso, é necessário que haja uma sobreposição da traição pela lealdade, onde os parceiros do pacto ilícito são extremamente leais entre si, mais leais do que o próprio pacto cidadão consegue ser. A lealdade é um valor que permite que, sub-repticiamente, se traia o pacto publicamente aceito pelos agentes de corrupção. Para que sejam corruptos, precisam de estar inseridos profundamente no tecido da sociedade, mais exatamente dentro das instituições públicas e privadas. Declaram lealdade à sociedade exatamente para poderem ter as condições de possibilidade de trair a sociedade. Assim, “o 'bom corrupto', o que é leal, é, ao mesmo tempo, o que trai; ele trai não apenas os que foram mantidos fora do pacto de corrupção, como trai a própria noção de lealdade, pois esta passa a se identificar com o 'direito a trair', exercido pela coletividade corrupta contra a grande coletividade que lhe serve de cobertura”.
    Para que funcione, a pequena coletividade de corruptos, depende de manter fora, de excluir, a grande coletividade. Esta sociedade secreta se exclui do social, excluindo o social de si mesma e evita de todo modo, que a sociedade maior olhe para dentro de sua pequena sociedade exclusiva (que exclui para não ser percebida). É por isso que as 'delações premiadas' da Operação Lava-Jato, são tão mal vistas pela nossa presidente. Está havendo uma traição a lealdade do pacto ilícito. Enquanto o grande pacto social é inclusivo, o pacto corrupto é exclusivo.
    Como podem ser pensadas subjetividades capazes de frequentar estes dois espaços tão paradoxalmente articulados – o pacto social e o conluio? Sabe-se que um sujeito só pode fazer um conluio contra o pacto social se estiver em uma posição privilegiada dentro do pacto maior. Por exemplo, traindo uma instituição que deveria zelar. Somente pela “dupla militância”, uma traindo a outra, usando os próprios valores da outra, para traí-la. Só assim podem ser eficazes e invisíveis. Qual o sofrimento psíquico do corrupto, pergunta LCF?
    Qual o sofrimento psíquico do duplo militante? Não parece ser um conflito porque o ego é anódino e o superego mais anódino ainda, portanto, com ínfimos conflitos entre os desejos do ego e as interdições do superego. Quando isto acontece os desejos e impulsos do ego não são interditados, deixando o sujeito exposto a impulsividade; e sabemos que isso não permite a criação de pactos de corrupção, que são, por excelência, complexos, além de obscuros, exigindo planejamento, planilhas e um sistema de corrupção.
    Propõe pensar, então, em uma cisão permitindo que o corrupto possa exibir uma “boa consciência”, e depois, que o corrupto possa usufruir das vantagens da imagem de honesto. Deste modo o sujeito corrupto não se submete aos impulsos e desejos, nem tem que lutar contra o superego. Disto surge um sujeito capaz de grande “autocontrole, cálculo, [de] formação de alianças funcionais”.
Este sujeito frui de grande autocontrole porque não está cindido no ego, como nos casos onde se dá a recusa, um mecanismo em que o ego, simultaneamente, aceita os limites do superego (diferenças, regras, prescrições, leis) e recusa-os. Neste caso, resumindo, a cisão no ego não permitiria a criação de sistemas corruptos, por faltar ao sujeito uma unidade que evitaria o caos.
    O autor pensa, então, numa cisão complexa, onde “[o] personagem corrupto [possui] mais unidade egoica [fruindo] um eu extremamente hábil em permanecer nos dois pactos, ainda que um parasite e traia o outro”. Ele propõe que a cisão se dá no superego, mas não no sentido de criar dois valores e normas contraditórios. Os valores “lealdade” e “solidariedade” que são valores da cidadania, são os mesmos do pacto corrupto. É […] “também a mesma lógica e a mesma racionalidade que vigora nos dois campos”, e são os mesmos objetivos do pacto social aqueles do pacto corrupto parasitário – dinheiro, principalmente. Portanto, os objetivos da transação corrupta, são iguais para os dois campos, permitindo que “seja usado pelo mesmo cidadão em compras absolutamente legais”, após sua lavagem.
    A cisão superegoica do corrupto é tão comum e funcional porque esta dupla militância faz parte de uma certa normalidade social, aparecendo em muitas instâncias da vida citadina. Todos estamos, de algum modo e em algum momento da vida cidadã, vivendo no modelo de dupla militância, quando somos cidadãos da sociedade maior e somos, simultaneamente, leais a uma sociedade secreta, ou sociedades reservadas, clubes, instituições bairristas, sendo que, não raramente, a lealdade aos grupos pode ser contraditória ao pacto social maior, e até mesmo desleal a ele, sem que com isso o tecido social se deteriore ao ponto da ruptura. A dupla militância do corrupto se dá quando “uma militância se alimenta de outra”, parasitando-a e escondendo seu parasitismo, pois “se descoberto, isso seria a morte do parasita; de outro lado, o parasita também vai morrer se sua ação predatória levar a morte o hospedeiro”. Essas tendências à morte colocam os conluios fragilizados por sua própria fantasia de onipotência, fantasia esta que os protegem da vergonha no caso de serem descobertos, fazendo uma grita em nome da decência e ética do bando. Conhecemos o passado de alguns corruptos comprovados da nação, que gritaram pela decência e ética, para depois usar essa voz em seu favor no momento de criar os bandos. No caso de políticos, é comum irem ao palanque defender a honra e ética, falando contra os corruptos antigos, só para em seguida implantarem, escudados pelo discurso da ética, os saqueadores das instituições nas quais se instalam. Talvez, imagino eu, a nossa dupla-militância social explique uma certa complacência com a corrupção, levando o cidadão a eleger os mesmos corruptos cujas práticas parasitárias já foram denunciadas e, eventualmente, punidas. Penso ainda, que há uma certa inveja do cidadão comum, por ser mantido fora destas agremiações...Não é incomum ouvir: Ah se eu tivesse essa oportunidade!
    O corrupto, portanto, vive um estado de contradição generalizada, “um estado crônico de incompatibilidade” entre sua lealdade ao sistema corrupto e a lealdade ao sistema social. E esta contradição se estabiliza, segundo LCF, na dupla militância, é preciso ser um “cidadão acima de qualquer suspeita” para que o cidadão corrupto possa usufruir de máxima eficiência (de poder). O sentimento de culpa “é um sentimento que quase nunca aparece, provavelmente porque a lealdade em relação a uma outra comunidade suprime (grifo do autor) o sentimento de culpa por estar traindo a outra”.
    Ao final das contas LCF não consegue decidir-se por uma “cisão” ou “recalque” e se pergunta o que dirige o corrupto. E encerra:
    “Enfim, diante do corrupto não há motivo de inveja ou de ódio”. Sobre ele pesam contínuas ameaças e sua vida não está nada fácil. Todo o carinho e compreensão que lhe pudermos dedicar ainda há de ser pouco”.


segunda-feira, 7 de setembro de 2015

A psicanálise de crianças no adulto

Sandor Ferenczi (1873-1933), psiquiatra e psicanalista húngaro – considerado o “enfant terrible” do movimento criado por Freud – em sua efervescência intelectual e uma série de críticas à técnica ortodoxa de análise, acabou por descobrir a contratransferência – uma reação do analista aos ditos de seu paciente.
A contratransferência se traduz pela tendência do terapeuta a considerar suas as questões do paciente. Após um período de alinhamento ao pensamento de Freud, que aconselhava o terapeuta a não se deixar enlaçar nas questões do paciente, Ferenczi, acabou por preconizar o uso da contratransferência e realizando uma análise em que ambos, terapeuta e paciente, fazem a análise mútua, de modo que os pensamentos, sentimentos e sensações corporais do terapeuta são comunicados ao paciente para que este saiba como o outro o sente e vê, num jogo especular. A análise dos sentimentos e sensações surgidas no terapeuta deveriam ser tratadas na sessão, usando as referências pessoais do paciente. Com isso o paciente se dá conta dos modos pelos quais produz sentidos para sua vida e também os sentidos que lhe são impostos.
Apesar do combate que os psicanalistas dedicaram aos escritos técnicos de Ferenczi, sua obra sobreviveu entre muitos sucessores, que as adaptaram para seus próprios proveitos. Dá para ouvir o eco de suas contribuições no trabalho dos freudianos americanos – principalmente a “técnica ativa”, uma intervenção na terapia, com demonstrações de afetos, sejam eles ternos ou agressivos, bem como a “análise mútua”, momento em que o paciente é incentivado a participar ativamente da terapia, como se fosse o terapeuta. É neste momento que a contratransferência é mais explorada.
Há poucos ferenczianos declarados, porém os winicottianos, como eu, falam de acolhimento, manejo, suporte e regressão à dependência, com traços ferenczianos o suficiente para traduzir um certo tanto da mutualidade em terapia. É por isso que às vezes um paciente ouve de nós: “Deve ter sido muito difícil viver na sua pele”. É tanto uma declaração de sensibilidade humana, quanto um distanciamento salutar, uma vez que nenhum terapeuta pode habitar a pele do seu paciente. Mas também é verdade que a terapia é da transferência e transferência é desejo, é amor. Ora, por conseguinte, a contratransferência também está no reino do amor. Daí que uma terapia é sempre terapia sobre a emergência transferencial.
Bem, os traços da obra ferencziana aparecem mais em outros psicanalistas, como os da Ego Psychology americana, que depois, sob a rubrica de Hartmann, se torna Self Psychology. No entanto, nestas alturas Winnicott já não concorda com o caminho que os Self ou Ego Psychologists impuseram ao pensamento de Ferenczi. De modo geral Winnicott continuará, apesar de sua renovação do pensamento freudiano, entendendo que o inconsciente é o objeto de análise. Enquanto que o freudismo americano coloca o ego (self, indivíduo) como o centro de sua atenção.
De minha parte gosto de saber que foi Ferenczi quem disse que fazia análise de crianças e não de adultos. A mim me parece que jamais analisamos adultos e sim crianças nos adultos. O amor infantil, reprimido ou recalcado; a criança no adulto que pede socorro, exige ser amada, implora carinho, sonha terrores, numa cadeia de desacertos existenciais. Penso que cada paciente me traz pela mãozinha uma criança para analisarmos juntos – falando de seus brinquedos (trabalho, hobbies etc), de seus medos (do amor, sexo, aniquilação, agonias etc). Depois de algum tempo, a criança analisada se torna o centro de uma vida viva e livre. O que vemos é um adulto amando amar e amando ser amado.
(Foto de Freud e Ferenczi - provavelmente 1917 quando Ferenczi servia como médico ao exército húngaro)

terça-feira, 7 de abril de 2015

A clínica do vazio - a análise do limbo de ser!

Os motivos pelos quais uma pessoa procura o psicanalista quase sempre encobrem os motivos reais. Winnicott, psicanalista inglês, cuja obra orienta minha atitude frente ao analisante, tentou várias vezes, e em diferentes momentos, lembrar o analista do "nada no centro" de algumas pessoas - o verdadeiro motivo que leva muita gente até a análise. Em uma nota de 1959, Winnicott expôs o caso de um homem - que ilustra essa experiência do "nada central". Na análise, o psicanalista teve que se haver com um "estado de chafurdamento" que era muito alarmante para o analisante. Depois de analisado o grosso das defesas contra essa mistura de atolamento, lama, lodo, onde nada impressionava, mas também nada podia ser criado, o paciente se deparou com o que chamo de "limbo" - um espaço em que os significados comuns da vida inexistem; apenas se reage ao que é imediato, necessário ou às urgências físicas. Um espaço que é uma borda, uma margem, onde os significados usuais da vida ficam nesta orla, litoralizados, sem poder habitar o centro do eu. "Em determinada camada, quando gradualmente eliminamos todas as colisões, de maneira que ele não tinha mais nada a que reagir, ele se tornou uma coisa no espaço, a ignorar o tempo e a posição", nos informa o psicanalista Winnicott.
Essa experiência de nada central é muito explorada por James Grotstein em seu livro "O buraco negro", relacionando-o com o sem-sentido, o caos e o aleatório no viver. Viver de modo aleatório, caótico e sem sentido é o que toma o centro da pessoa que vivencia este estado de nada ser - sem organização e integração pessoal suficiente para sentir que existe como um "eu". Sente-se uma coisa e frequentemente coisifica o que toca ou vê. Um dos meus pacientes que vive neste estado de viscosidade existencial diz: "olho para as pessoas e as vejo como são por dentro - somente ossos, e órgãos". Seu sofrimento indizível é traduzido cotidianamente em acontecimentos descarnados ou desalmados; suas vivências pessoais são simulacros de vivências, ele as vive como vindas de fora, sem relação pessoal com seus resultados em si mesmo ou no mundo. Suas vivências não lhe concernem; elas são acidentes. Elas não se tornam experiências pessoais; no máximo são vivências. Sua psicanálise remonta um ego que possa migrar a libido das fixações orais, para as anais e finalmente habitar um terreno genital-fálico - um trabalho de uma vida inteira para florescer algo em seu centro.
A psicanálise, em certos casos, apenas proporciona um centro de gravidade para que o conjunto de experiências do eu faça uma rotação e translação minimamente necessárias para que o analisante possa se tornar uma pessoa total, no dizer de Winnicott. Não se trata de uma cura e sim de uma construção que se dá da pele para os órgãos. O problema reside no fato de que o construtor é o próprio analisante, cujo olhar está comprometido pelo nada central e que, a despeito disto, deve erigir seu próprio centro onde nada ou muito pouco viceja. Um trabalho para um Hércules...

quarta-feira, 25 de março de 2015

Para quê serve a Psicanálise?

Por definição, quem procura o psicanalista, está tentando descobrir qual a sua responsabilidade no seu sofrimento; está tentando reescrever seu destino; reescrever sua história e seu futuro. Pois, se o destino não está escrito, o passado também não. 
De algum modo o paciente de análise intui que pode ressignificar suas reminiscências e construir um outro futuro para si. Como a psicanálise não faz milagres, é permitido ao sujeito ser sujeito de sua vida, sem grandes acidentes; é permitido que se enriqueça por si mesmo, que acenda uma vela na escuridão e possa ver algumas sombras. Pois onde há sombra há luz. Mas acredite, com esse pouco de luz dá para se ir longe na arte de existir. A psicanálise é uma vela e não uma bengala. Não ofusca e nem se entrega ao breu. Por isso uma psicanálise incomoda ao analisante e aos que privam de seu entorno.
O resultado, depois deste período de purgatório pessoal, é contentamento e serenidade; energia e atitude; responsabilidade e generosidade. Podemos dizer que o eixo procurado pelo analista e analisante é o eixo do amor. Deste modo, resumindo, é uma psicanálise do amor; seu final é a capacidade para amar, fazer sexo, criar e cuidar, projetar, realizar.
Afinal, foi Freud que disse: “Todo tratamento psicanalítico é uma tentativa para libertar o amor recalcado.” E Sartre disse: "O importante não é aquilo que fizeram de nós, mas o que nós mesmos fazemos com aquilo que fizeram de nós". Essas duas premissas unidas é o que move minha psicanálise...

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

OFICINAS DA PSICOBIOGRAFIA!

                                                                              
Você sabia que as artes podem ser ferramentas para você renovar sua história de vida? Que são grandes auxiliares, no enfrentamento de sofrimentos psíquicos graves, como depressão, pânico, estresses pós-traumáticos, mas também, em sofrimentos mais difusos como mal estar indefinido, tristeza de luto, fim de relacionamentos e outros de natureza afetiva?

Agende uma 
ENTREVISTA SEM COMPROMISSO para saber mais sobre Psicobiografia e em que grupo você poderia se encaixar melhor. Se preferir, venha a uma palestra de esclarecimentos no dia 12/03/15, quinta feira, as 20 horas.


O que é uma Oficina da Psicobiografia?
Por meio da Psicobiografia você pode usufruir de seus potenciais pessoais, fazendo uma releitura de suas memórias, sensações e sentimentos, elaborando uma nova biografia de si. As oficinas são espaços de amadurecimento pessoal, por meio da narratividade e artes expressivas. Jean-Paul Sartre, um filósofo francês, disse que narrar é melhor que viver. Argumentava que quando vivemos estamos tão profundamente ocupados com a vida, que só em um segundo momento, quando contamos para nós mesmos ou para os outros o que vivemos, é que nos damos conta do que de fato vivenciamos. D. W. Winnicott, psicanalista inglês, relacionava a narrativa com a capacidade para criar cultura, amar, trabalhar. Sabemos que a narratividade não é necessariamente falada, e pode ser expressada pela arte em geral. Aliás, a arte é o observatório privilegiado da narração de si. E a narração de si é, sempre, um aprofundamento das percepções e amadurecimento pessoal.

Convite!
Venha entrar em contato com os conteúdos inconscientes que travam sua criatividade; ao fluírem por meio da expressividade artística, seus potenciais se tornarão potência e você experimentará maior liberdade mental e física, mais fluência da memória, maior concentração, maior contato com seus estados emocionais. A técnica que usamos é Psicobiografia, a narratividade de si por meios expressivos (diversas formas de arte) e a teoria de que sua natural agressividade pode ser desviada para fins de criatividade, deixando de serem expressadas como destrutividade, violência e negatividade. 

Quem pode fazer as oficinas?
Qualquer pessoa com mais de 18 anos, em qualquer condição física e que tenha dificuldades nos relacionamentos interpessoais – familiares, amorosos, trabalho e sociais – e que estas dificuldades estão sendo experiências de sofrimento psíquico importante. Partimos do princípio que viver é um espaço de muitas vivências de ansiedade, mas que pode ser uma experiência de criatividade, alegria e realização pessoal, exatamente porque estes problemas pedem solução e dá prazer solucioná-los. Partindo disso, usamos sua natural agressividade canalizando-a, para se tornarem ferramentas de bem viver, ampliando sua experiência cultural, tanto do ponto de vista interior quanto exterior.

Local: Casa Academus – Rua Afonso Celso, 514 – Vila Mariana.

Palestra de esclarecimento dia 03 de março

Agendamento para entrevistas de esclarecimentos entre 12 e 19 de março 

Dia de início das Oficinas da Psicobiografia: 12 de março.

Valores: R$640. Para as formas de pagamento entre em contato. Pagamentos em até 10 vezes.

Tel: 11-981288749 - Luiza
Email: luizascacca@gmail.com
Skype: levileonel

Facilitadores: Psicólogos Luiza Scaccabarozzi (CRPSP) e Levi Leonel de Souza (CRPSP)

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

A CLÍNICA DO VAZIO E O AMOR GELADO!



A CLÍNICA DO VAZIO E O AMOR GELADO: 
O Complexo de Mãe Morta

Desde então, eu tenho esse gelo dentro de mim. Não tenho sentimento, sou uma pedra. As pessoas dizem: “mas você não ama ninguém?” Eu não amo, não tenho amor no coração. Sou fria. […] Eu sou uma pedra de sentimentos.[...] Eu morro todos os dias. Eu dou a vida para elas, eu cuido, estou presente, me preocupo, quero que tudo dê certo para elas. Mas eu não posso dar meu coração, eu tenho um buraco no lugar de coração. MJ. Ano de 2000

Apresentação
     Esse trabalho delimita teoricamente, e contribui com um extrato de caso, o Complexo da Mãe Morta inventariado por André Green, eminente psicanalista francês, para explicar a existência de verdadeiros “buracos psíquicos” produzidos por ódio e reparação, consoantes a uma profunda depressão materna. É um tipo de mãe que passou por uma experiência de alegria que, aparentemente, foi contagiante em seus primeiros meses de contato com seu bebê, para depois deprimir de modo irreparável, seja pela morte de um filho, pela perda do esposo ou de parentes muito próximos. Penso que, em qualquer dessas situações, podendo ainda incluir um ambiente traumaticamente desnorteante, o fato é que o acontecimento é singular demais para que ela dê conta de fazer o luto da perda. Isso se deve as suas potencialidades psíquicas, o que inclui dizer que trata-se de uma mãe com uma elaboração psíquica insuficiente para dar conta do acontecido. Luto aqui fica entendido como a possibilidade aberta a quase todas as pessoas, de transformar a presença física daquele que faltou, em memória que preenche o vazio da sua falta.
       A criança cuidada durante esse período de escuridão afetiva, vivencia a morte da mãe, que sofreu essa perda da qual não pôde enlutar-se, experimentando-a como catastrófica, sem que pudesse reunir forças para poder dar nutrição e sustentação psíquica ao bebê. A criança vive então, sob espessa nuvem fria e úmida que cria um clima onde não se chega à tristeza, passando-se diretamente à depressão, uma tristeza crônica, eu diria. Essa atitude acaba por instalar um amor vazio que morbidamente contamina os vãos psíquicos daqueles que ficam sob seus cuidados sem zelo. A criança cuidada por essa mãe terá como legado uma maldição afetiva que se constitui em tomar o lugar da mãe. O filho experiencia a sensação de cadáver, na forma de esfriamento do próprio corpo, ou de "cadáveres" de emoções – geladas, vazias, e uma moral monolítica, narcísica, envergonhada, decepcionada, aparecendo como um discurso petrificado e sem vida, mas cheio de ódio, evitado a todo custo pelo congelamento da linguagem. Esse drama deve ser tratado por uma postura analítica que Green chamou de Clínica do Vazio. 
       Narcisismo moral, aqui representa a dificuldade desse filho de mãe morta de usufruir de alguma satisfação, renunciando-a; busca-se paralisar qualquer satisfação acionando um mecanismo de não-satisfação. Seria vergonhoso, desonroso, sentir algum prazer com o desprazer, além do que a maior desonra foi justamente sentir ódio de uma mãe que não pode receber o calor do ódio, a não ser que esse ódio seja queimante como gelo. Já o discurso morto do filho vitimado pelo complexo da mãe morta é circular, átono, amortecido, distante; a voz é um fio de vida, quase sem energia, tímida. Quando apresenta força mais parece o esgar de um último suspiro. 
       Além disso, quero sublinhar as consequências nas representações corporais, se assim posso dizer, conforme o complexo amadurece no decorrer da vida adulta cronológica, uma vez que identifico uma fixação emocional à infância, a qual tratarei mais à frente, tentando colaborar com o projeto de Green. Muitos sintomas lembram a fria constituição de seus desejos; desejos-zumbis; desejo sem calor do desejar; e mais dramático ainda: o desejo gelado de desejar quente. Para isso apresento o caso de MJ, 52 anos, viúva, mãe de 3 filhas e 2 filhos em dois casamentos; nasceu no Nordeste, vindo para São Paulo, aos vinte anos, já com os dois primeiros filhos; se veste com roupas bem cuidadas, rosto jovem, semblante rígido, algo triste e clara expressão ansiosa. 
       MJ foi recomendada por um psiquiatra, que a medicava há vários anos com benzodiazepínicos, fluoxetina e anti-histamínicos em dosagens variadas, em períodos variados, inclusive com certa resistência da paciente. Em sua guia de recomendação via-se escrito caráter ansioso de difícil remissão. Suas queixas: insônias, ataques de raiva, apagamento psíquico, sensações de desmaios, lombalgias, ciatalgias, degeneração da coluna, dores muito fortes nos joelhos, rigidez muscular e articular, sensações de buraco, pedra ou gelo no peito e, eventualmente, no corpo todo. Para delinear as consequências de uma clínica do Complexo da Mãe Morta traçarei linhas de contato entre a teoria greeniana e o caso MJ. Fique claro que minha apresentação do caso não esgota o assunto, por, entre outros motivos, falta de um número suficiente de pacientes identificados com o complexo, exiguidade do espaço e experiência da psicanálise com os filhos de mãe morta.
       Finalmente, para que se evite confusão com outros complexos e traços de enlutamentos mais ou menos complicados, é bom estabelecer que a mãe do filho que apresenta o complexo de mãe morta não está necessariamente morta; pelo contrário quase sempre está viva, mas que se diga de antemão, trata-se de uma mãe que deprimiu severamente e vive com um olhar branco; nada na paisagem lhe chama a atenção, nada lhe interessa. Entretanto, essa mãe sabe exatamente o que falta em suas relações – o quente, veias pulsando, calor corporal, olhar, coração. O que a mantém viva é uma ideia, um paradigma – a fria espada do certo e do errado, do bem e do mal. O filho desta forma de mãe viverá como zumbi, um morto-vivo cuja energia vital será uma tormenta fria no coração; um tormento psíquico marcado pela dor gelada.
       Inspirado nas incursões pioneiras de André Green nas defesas e transferências de pacientes com essa problemática, eu me guiei por suas sugestões: não utilizar o silêncio terapêutico ou a interpretação do ódio, por trás da depressão, algo muito sugerido em psicanálise. Privilegiei uma participação revivescente, sem silêncio analítico, evitando que MJ acirrasse sua troca de papéis tornando-se ainda mais petrificadamente a mãe de sua mãe, vale dizer, o corpo frio de sua mãe; a mãe morta de sua mãe morta. 

Introdução
       Esse trabalho forma-se a partir de uma delimitação possível do complexo de mãe morta e sua relação com o sofrimento corporal, ilustrado com extratos do caso MJ, material surgido de anotações de sessões no correr de sete meses de análise.
       As considerações que se seguem são calcadas nas sessões com MJ aproximando-as do artigo A mãe morta (1980) – capítulo do livro Narcisismo de vida, narcisismo de morte, onde A. Green discorre sobre a série “branca” que desenvolveu no correr de seu trabalho clínico: alucinação negativa, psicose branca e luto branco, todos referidos ao que chamou a clínica do vazio ou a clínica do negativo, um trabalho clínico sobre os resultados de marcas no inconsciente sob a forma de “buracos psíquicos”. Tais vácuos são preenchidos por reinvestimentos afetivos na forma de ódio e reparação, posteriores a um momento em que desinveste o objeto primário, materno, esvaziando-o de afeto e reinvestindo-o de afeto frio.
       Green foi precedido e sucedido por psicanalistas que já tinham identificado senão um quadro psíquico, tal como ele o elaborou, pelo menos alguns traços claramente envolvidos no complexo da mãe morta. Vamos repassar, sucintamente, alguns dos mais conhecidos psicanalistas dos muitos que sentiram a presença do filho-cadáver de mãe morta perdurando em suas investigações.
       Pode-se perceber os estilhaços do frio afetivo em Joyce McDougall com seu conceito de desafetação, processo pelo qual passam sujeitos, que em determinadas circunstâncias, "chegam a pulverizar qualquer vestígio de sentimento profundo, o que implica que uma experiência que esteve na origem de uma emoção intensa não é reconhecida como tal e, por isso mesmo, não pode ser elaborada psiquicamente" (McDOUGALL, 1999 pág. 99). A pessoa produz um discurso a partir de palavras que perdem "sua destinação primordial, isto é, sua função de ligação pulsional; existem apenas como estruturas geladas, esvaziadas de substância e de significação. Este discurso pode ser inteligível e até altamente intelectualizado, mas é totalmente desprovido de afetos [...] afastado de sua própria realidade psíquica [...] onde a angústia e toda a gama de afetos não lhe servem mais como sinais que lhe permitiriam comunicar-se consigo mesmo" (McDOUGALL, 1999 pág. 99)
       Tal indivíduo dá claros sinais de que se sente protegido e pode sobreviver a partir dessas defesas aprisionadoras, frias e sem vida, olhando as pessoas do mundo como aquelas que se comportam de modo irracional, de maneira incompreensível. As ameaças de morte psíquica, vivenciadas em uma época onde a criança não tinha palavras para dizer suas angústias, levaram-na a "erigir um sistema sólido para evitar o retorno de suas experiências traumáticas portadoras da ameaça de aniquilamento" (McDOUGALL, 1999 pág.105). Sólido e frio, eu diria, se levarmos em conta que o objetivo é sobreviver, já que não pode viver, pois viver implica trocas afetivas quentes. Sua sobrevivência será conseguida por meio de congelamento do afeto na câmara fria do corpo, onde ficam os órgãos psíquicos, especialmente um coração arrancado e guardado em temperatura baixa, na esperança de um dia ser reabilitado pelo amor. Mas, por enquanto, essa reabilitação provém dessa capacidade para incorporar o frio materno, emprestando seu corpo para que aquela sobreviva e sobreviva também o filho da mãe morta. MJ pode, melhor que ninguém, dizer isso em uma frase capitular: Desde então, eu tenho esse gelo dentro de mim. Não tenho sentimento, sou uma pedra. As pessoas dizem: “mas você não ama ninguém?” Eu não amo, não tenho amor no coração. Sou fria.
       Para entender o caso MJ é possível lançar mão das observações de McDougall, que percebeu que alguns indivíduos não sofrem "de uma incapacidade de vivenciar ou de exprimir uma emoção, mas sim de uma incapacidade de conter o excesso da experiência afetiva (próxima da angústia psicótica) e portanto, nessas condições, de uma incapacidade de refletir sobre essa experiência" (pag. 105). Além do quê, o indivíduo pode, por causa dessa incapacidade para prover-se de diques contra o transbordamento dos afetos e da impossibilidade de simbolizar, perder sua capacidade de sonhar por meio das palavras o sonho noturno, indo às últimas consequências de uma eclosão somática, uma somatose. Tal desafetação surge, então, a partir de um funcionamento mental marcado por um abismo psíquico, justamente entre as emoções e suas representações mentais, gerando um modo de vida que não se atém aos sentimentos ou aos acontecimentos carregados de afetos ou à realidade psíquica do outro, gerando um comportamento moral granítico, duro e frio. MJ expressa isso de modo cabal: "Elas (as filhas) querem que eu tenha amor. (silêncio) Eu morro em cima deles (os filhos) e eles não agradecem. Eu morro todos os dias. Eu dou a vida para elas, eu cuido, estou presente, me preocupo, quero que tudo dê certo para elas. Mas eu não posso dar meu coração, eu tenho um buraco no lugar de coração. É um vazio só. Beijo meu neto, tão lindo, mas não sinto nada; minha boca é fria. Eles são lindos, e eu quero ter algum sentimento por eles, mas eu não sei qual!"
       Marie-Claude Lambotte lança mão da imagem do buraco psíquico, anteriormente estudados por K. Jaspers, Binswanger, Heidegger e outros além, claro, de Freud que estabeleceu as bases para entender a profunda ferida escondida e hemorrágica dos melancólicos. Buraco esse causado por extremado formalismo da linguagem sem consequências para melhor representação de seu viver, ou seja, nada a dizer dizendo muito. É possível ver os vincos de melancolia subjacente ao gelo emocional de MJ. A falta de consecução do luto por meio de lágrimas quentes e memórias bem delineadas, temos imagens da morta com meios tons e tons de tons que não delineiam a mãe, aliados a lágrimas secas de vida num eterno luto a se constituir. Há, é verdade, uma hemorragia de líquidos informes, mas não de sangue vibrante, ameaçando a vida; essa já há muito deixou o corpo, desligando-o do mundo. 
       James Grotstein (1999), apesar de sua investigação se afastar das premissas greenianas na tentativa de representar o buraco hemorrágico psíquico, também se atem a essa metáfora para designar aquele estado em que o excesso de impulsos instintivos sob ataque de amortização pelo indivíduo acaba por gerar um buraco negro aniquilador, entrópico, lugar psíquico onde nada sobrevive a não ser na forma de emoções, palavras e comportamentos destituídos de sentido, mergulhados em nada. Seria o dom gelado desse vácuo, onde há somente aleatoriedade (caos), uma sopa borbulhante de instintos em que foi realizada a retirada de seu fator afetivo, levando o ser ao freezer psíquico. Com Grotstein pode-se sentir o pavor psicótico de MJ à beira da boca de lobo psíquica por onde há hemorragia de vida. Dir-se-ia que há um corte na circulação afetiva por onde se esvai o sentido da vida, embora mantenha suficiente energia para continuar desejando desejar.
       C. Bollas (2000) chama a atenção para um aspecto histérico possível, no caso MJ: "A singularidade congelada do histérico asceta – tal como a mulher de Lot – é o sinal do self paralisado pela visão da relação sexual. [...] Vê-se no anoréxico, sobretudo, a efetividade dramática do self ascético. Como este self se dissipa, o corpo é cruelmente reduzido a significar apenas a morte-que-bate-à-porta." Não há terror, apenas horror nauseante e paralisante em MJ, aquele mesmo que um dia, em plena infância, sentiu ao pressentir que um homem morrera e isso tinha a ver com sexo, o sexo da mãe.
       O subtítulo – a clínica do vazio – tomei-o emprestado de A. Green, incentivado pela clínica deste caso MJ, onde há alguma transparência daqueles fenômenos descritos em seu artigo. Creio que MJ aponta uma parte importante das implicações de se fazer uma clínica deste vazio, que se apodera do paciente, cuja mãe morreu em vida, deixando um buraco psíquico, sentido diretamente no soma, no centro do peito, como um frio indescritível.
       Ainda, no subtítulo, lê-se “o amor gelado” em alusão aos cuidados maternos técnicos, adequados, necessários, que MJ tem para com os filhos e netos, mas, como ela mesma o diz, de modo exemplar: “sem nada no peito, sem sentimento, sem amor; [...] morro por eles, mas com um gelo no peito”. É a expressão clara do zelo sem intimidade corporal com a criança, em geral aparecendo a partir de um luto branco, o luto pela “morte” de uma mãe que deprimiu, em contraposição ao luto “quente”, “vermelho”, feito com lágrimas quentes, cheias de afeto por uma “mãe de amor”.
A mãe morta       Para entender o complexo da mãe morta, de modo esquemático, o método foi costurar, passo a passo, sempre que possível, as ideias ventiladas por Green, com aportes ao trabalho de MacDougall e o Caso MJ, de tal modo que este ilustre, exemplarmente, aqueles. Corremos o risco, pelo menos inicial, de tentar fazer o caso se enquadrar na teoria. Ao nosso favor só o fato de que primeiro identificamos o caso com o texto de Green, bem antes de tentar usá-lo como ilustração. Sabemos dos perigos que isto implica, mas há que se posicionar. Escolhemos aproximar texto de caso clínico.
A primeira observação de Green, a respeito das consequências clínicas de trabalhar com pacientes que vivem o luto branco, de uma mãe que morreu em vida, é que tal complexo é uma revelação da transferência, bem como os sintomas clássicos estão presentes, porém de modo secundário, não permitindo prever, por meio de sua análise, uma resolução boa o bastante, de sua problemática.
A. Green transita pelos labirintos da depressão materna e suas consequências no psiquismo infantil: no futuro de seus investimentos libidinais, nos destinos de seus objetos e no narcisismo. “Para certos analisandos a mãe aparece desvitalizada, sem tônus, distante, apesar de viva; é o caso de se considerar que os resultados são parecidos com aqueles advindos da morte real da mãe, por suicídio, sobrevindo à criança recursos de sobrevivência psíquica a essa catástrofe por meio do desinvestimento das pulsões”.
       Sobre esses estados psíquicos inicia dizendo: “Podemos pensar que tais experiências psíquicas elaboram uma verdadeira mutação na relação objetal. Não se percebe nesses analisandos os traços característicos da depressão, no entanto, aparece claramente a natureza narcisista dos conflitos invocados, relacionados com a neurose de caráter e de suas consequências na vida amorosa e na atividade profissional. Há pacientes que persistem de modo intermitente nos traços depressivos por perturbações na relação mãe-criança, impedindo-a de realizar a perda do objeto e colocar-se na posição depressiva”. (GREEN, 1984)
MJ – A mãe morta, filha de mãe morta       MJ procurou a psicanálise recomendada por um médico psiquiatra, que a atendia e medicava há 4 anos. Quando li os vários papéis que me trouxe, pude observar que havia uma folha de bloco de recomendações médicas, com receita de Rivotril, Diazepan e Prozac. Suas queixas somáticas listavam insônias, ataques de raiva, apagamento psíquico, sensações de desmaios, lombalgias, ciatalgias, degeneração da coluna, dores muito fortes dos joelhos, rigidez muscular e articular, sensações de buraco, pedra ou gelo no peito e, eventualmente, no corpo todo.
Havia ainda uma segunda recomendação para psicoterapia, onde estava escrito: caráter ansioso de difícil remissão. Quando iniciamos as sessões de psicossomática, MJ tinha 52 anos, roupas bem cuidadas, rosto jovem e semblante rígido, algo triste, e clara expressão ansiosa, com traços de irritabilidade. Mãe de cinco filhos, dos quais um homem e duas mulheres, todos casados; um rapaz de 16 anos e uma moça de 22 moram com ela. Os três filhos mais velhos são de seu primeiro casamento e os dois mais novos de um segundo casamento. Morava em São Paulo, mas nasceu no Nordeste, de uma mãe de dezoito filhos e viera para cá mais ou menos aos vinte anos, já com os dois primeiros filhos.
       Na primeira sessão, ao contar sua história, MJ não apresentava sinais de depressão, ainda que eu devesse levar em consideração a forte carga de medicamentos que usa desde a primeira hora de cada dia nos últimos anos. Mas é forçoso dizer que se pode perceber os rastros da depressão, dentro do discurso de um paciente. Green diz que em geral esses pacientes revelam “uma depressão singular” apenas “depois de longos anos de análise” (GREEN, 1980, p.247). Portanto, num primeiro momento, apenas traços desta singularidade.
       Na verdade, logo no início, pude perceber a desafetação levantada por J. McDougall, na forma de um “relatório” semanal das intrigas dos filhos, falando muito pouco de uma perspectiva pessoal. Quando se referia aos pensamentos e ações dos filhos, usava os termos “coisas feias”, “sujas”, “erradas” e outros, que delimitavam as regras em que deviam se comportar. Seu discurso mais frequente se referia ao fato de que foi “uma mulher muito errada” e que sofreu por seus erros, por isso sabia o que é melhor para todas as pessoas da casa. Achava inadmissível que uma de suas filhas tivesse pensamento próprio, pois sentia-se ameaçada de que seus fantasmas de infância fossem redivivos – especialmente a sombra da mãe – na forma de erros morais incorrigíveis e merecedores de punição eterna.
       Em MJ as palavras não transportavam desejo; eram desafetadas, embora nomeassem o sentimento; parecendo um inventário do que se deveria ser ou sentir; “estruturas congeladas, esvaziadas de substância e significação” (McDOUGALL, 1999 p. 104) [...] “a angústia e toda a gama de afetos não lhe servem mais como sinais que lhe permitiriam comunicar-se consigo” (p. 105). Claramente delineava-se um modo de falar que se formulava como falar sobre sentimentos, mas não vivenciá-los, ou seja, falar sobre o amor, seu tema preferido, mas não sentir o amor.
J. McDougall se refere a indivíduos desafetados como aqueles que vivenciaram “precocemente emoções intensas que ameaçavam seu sentimento de integridade e de identidade e que lhes foi necessário, a fim de sobreviver psiquicamente, erigir um sistema muito sólido para evitar o retorno de suas experiências traumáticas portadoras de aniquilamento” (pag. 105) vivendo de um modo “que não leva em consideração nem sentimentos, nem acontecimentos carregados de afetos, nem a realidade psíquica de outros indivíduos”, inclusive, no caso de MJ, deixando de levar em conta a realidade psíquica do terapeuta, anulando-o. Vejamos em que termos:
       [...]
       MJ: Depois que passei a tomar (remédios) deixei de ser violenta. Fico muito violenta, sabe. O médico disse que eu tenho ansiedade com depressão.
       [...]
       MJ: Muito triste. Essa tristeza começou quando eu tinha oito para nove anos. Naquela época minha mãe começou a fazer coisas erradas, coisas sujas. A gente morava em umas terras do pai. Me lembro de ter visto meu pai chegando a cavalo. Ele passou por mim e foi direto para o quarto. Houve uma discussão com um homem que não lembro quem era e como era. Eu fui até a porta do quarto e vi ele com as coisas de dentro da barriga para fora e muito sangue. Não me lembro, não consigo me lembrar... (silêncio) Não sei se ele morreu, mas meu pai foi preso.
       Sua fisionomia é estática, dura, olhos fixos na parede e marejados, a voz esganiçada e entrecortada; sua história é contada como uma criança ansiosa, mas sem a velocidade típica do infantil; seu discurso é ininterrupto, evitando que o terapeuta possa existir.
       […] Aí meu pai foi preso em uma cidade próxima. Eu acho que ele matou, senão não iria preso. Alguns meses depois minha mãe, eu e meus irmãos fomos levados, por um homem, para visitá-lo. Era mais uma das coisas ruins que minha mãe fez. Esse homem frequentava ela. Eu acho que frequentava. Sabe, minha mãe casou-se, aos doze anos, com meu pai que tinha 20 anos a mais. Ela foi usada como mulher, por isso não pôde fazer nada. Aí o meu pai ameaçou de ir embora. Para não ficar falada e a família também, então ela foi obrigada a ir. Acho que é por causa disso que fazia coisas ruins, sujas mesmo.
       [...] Aqui em São Paulo, ela começou a fazer coisas erradas, ruins. A gente sabia, mas ficava quieto. Meu pai brigava e espancava todo mundo, inclusive ela, por causa dela. Minha mãe sempre disse que meu pai tinha uma vida, antes de casar, desregrada, errada. Eu nuca vi nada, mas ela disse que ele era matador. Ninguém falava nisso, mas ela insistia. Disse que casou por medo dele.
[...] Foram doze anos onde vivi de verdade; antes eu era morta e hoje sou morta. Aí deixei meu filho com meu irmão, aquele que morreu. Esse filho me cobra até hoje eu ter feito isso com ele. Ele diz: “Que mãe faz isso com um filho? Fica com o homem ao invés do filho?” Desde então, eu tenho esse gelo dentro de mim. Não tenho sentimento, sou uma pedra. As pessoas dizem: “mas você não ama ninguém?” Eu não amo, não tenho amor no coração. Sou fria. Se não tomo o remédio, fico furiosa, quebro tudo, quero matar alguém, minha filha, meu filho. Quando tomo, é só um gelo no centro do peito. Eles me cobram que eu cuide dos netos. Eu cuido, mas estou doente.
(silêncio).
       Terapeuta: Pedem que ame seus netos?
       MJ Chora. Tira um lenço e enxuga lágrimas.
       MJ: Eles não sabem que eu estou doente? (silêncio)
       Terapeuta: Que a senhora tem gelo no coração, está fria por dentro. Que sua longa história de dores, perdas, de ódio, não lhe permitem, pelo menos no momento, dar conforto, calor, algo quente para os netos.
       MJ: Eu não tenho coração, sou fria como gelo (silêncio; choro). Eles querem que eu cuide dos netos...
       Terapeuta: E a senhora ainda não pode aquecer o próprio coração...
       MJ: (Chorando silenciosa) Eu preciso tanto dizer isso para alguém...
       Terapeuta: Pode dizer isso que te ouço...
       (Choro silencioso, olhos fixos no terapeuta durante alguns segundos).
       Só a posteriori percebi que a primeira sessão foi uma espécie de relatório, que se em algum momento traiu algum sentimento doloroso, nas próximas sessões MJ abandonou completamente tal contato e passou a descrever sua semana, quase sempre iniciando assim: “Essa semana foi igual, com os mesmos problemas, minhas filhas me dando trabalho, fazendo coisas erradas, sujas, ruins...”; ou ainda: “E agora vamos falar do R., meu filho mais novo...”; e listou ciosamente, em praticamente todas as sessões, das que ilustram este trabalho, cada uma das atitudes das filhas e filhos, que, invariavelmente, reprova. Insiste em dizer que isso tudo, as coisas ruins feitas pelos filhos, a decepcionam. Por isso é uma mulher triste, toma remédios e quase não consegue se relacionar com ninguém.
       Green diz: “O traço essencial desta depressão é que ela se dá na presença de um objeto, ele mesmo absorto num luto. A mãe, por uma razão ou outra, se deprimiu. A variedade dos fatores desencadeantes é muito grande. [...] Em todos os casos, a tristeza da mãe e a diminuição do interesse pela criança estão em primeiro plano.” (GREEN, 1980, p.247) [...] O que aconteceu naquele momento foi uma mudança brutal, verdadeiramente mutativa da imago materna. Até então, como testemunha a presença no sujeito de uma autêntica vitalidade que sofreu uma brusca interrupção, um emperramento onde permanece ainda bloqueada, uma relação rica e feliz se dava com a mãe.” (p.248)
Até o momento em que deixa de vir à análise, não foi possível mais que intuir uma infância, digamos razoável, anterior à “morte” da mãe. O relato não deixava entrever fatos concretos, até porque a paciente não tinha memória dos primeiros anos da infância. Pela hostilidade subjacente em seu discurso, pela violência aplacada pelos remédios, pela desafetação, pode-se pensar com Green que: “Tudo teria terminado como nas civilizações desaparecidas, das quais os historiadores procuram em vão a causa da morte levantando a hipótese de um abalo sísmico que teria destruído o palácio, o templo, os edifícios e as habitações, das quais só restam ruínas. Aqui, o desastre limita-se a um núcleo frio que posteriormente será superado, mas que deixa uma marca indelével nos investimentos eróticos dos sujeitos em questão". (p. 248)
       Esse núcleo negativo é o resultado de uma implosão, uma explosão ao contrário, por não ter a quem atacar, agredir. Não há contra quem defender-se da interdição e com quem dividir suas angústias. Seu ódio advém de um vazio de ser, um vazio de substância, assim só pode se manifestar como paralisia, anestesia, de modo comatoso.
       “Depois da criança ter tentado uma vã reparação da mãe absorta por seu luto, que lhe fez sentir a medida de sua impotência, depois de ter vivido a perda do amor da mãe e a ameaça da perda da própria mãe e que lutou contra a angústia através de diversas maneiras ativas, entre elas a agitação, a insônia ou os terrores noturnos, o Eu vai pôr em ação uma série de defesas de outra natureza” (p. 249). MJ relata, em várias sessões, sua imensa dificuldade para dormir, sua ansiedade, raiva, excitação, tudo sendo sedado diariamente. É a única maneira de poder manter, minimamente, os laços afetivos, ainda que sem afeto – o negativo do afeto.
       Pensei no termo negativo do afeto, na tentativa de seguir o raciocínio greeniano; penso que tal luto pode ser simbolizado por uma metáfora – a do filme negativo de uma foto que possui todos as referências da futura foto, mas sem as cores que esta exibirá após passar pelo processo de revelação ou as cores perdidas na catástrofe psíquica que sofreu. Definitivamente o negativo do afeto possui todas as palavras do amor, mas não vem com o calor e as cores do amor. Interessantemente seus afetos podem ter a imagem periférica de um afeto, mas seu núcleo é gelado. Por causa disso Green dirá que trata-se de “um assassinato psíquico do objeto, realizado sem ódio.”
       Um ódio frio. MJ diz, frequentemente, que gostaria de sentir amor, mas não sabe o que é isso. Beija os netos e os filhos, mas não sente nada. Segundo Green, ela “se sente incapaz de amar, mas que continua a amar”. [...] “Todavia, como se diz, ‘o coração não está presente’” (p. 249). O coração não pode estar presente porque sua substância, seus músculos, suas veias, são desvitalizadas pela não-presença da mãe; uma presença negativa, uma vez que não-presença é um modo de estar presente, mas sem calor materno. Diga-se de passagem que não se trata de ausência; falo aqui de uma presença insubstancial. Como diz MJ em nosso primeiro encontro: Desde então, eu tenho esse gelo dentro de mim. Não tenho sentimento, sou uma pedra. As pessoas dizem: “mas você não ama ninguém?” Eu não amo, não tenho amor no coração. Sou fria. Se não tomo o remédio, fico furiosa, quebro tudo, quero matar alguém, minha filha, meu filho. Quando tomo, é só um gelo no centro do peito. Eles me cobram que eu cuide dos netos. Eu cuido, mas estou doente.
       Ou noutra sessão: É. Eu não sei sentir ainda. Eu não tenho nada no coração. Eu sou uma pedra de sentimentos. [...] (lacrimejando) É. Quando venho aqui, eu posso falar; posso tirar uma sujeira negra de dentro do meu peito; o senhor sabe que eu casei embaixo de mentira. Minha vida é só mentira. É negra. (silêncio). [...]O que o senhor vai fazer para me ajudar? Eu gostaria de chorar um dia inteiro para tirar essa nuvem negra de dentro de mim... gelada; tenho até medo de não aguentar. Minha filha vai fazer algo ruim... eu tomo remédio, não posso cuidar dos netos... perdi tanta gente, tenho medo de não cuidar, perdi meu pai, meu irmão, um filho, meu marido, minha sogra... eu quero chorar e tirar essa coisa fria e negra que tenho no peito.
       “A outra face do desinvestimento é a identificação segundo um modo primitivo com o objeto”. [...] “De fato, não há reparação verdadeira, mas mimetismo, cuja finalidade, não podendo mais ter o objeto, é continuar a possuí-lo tornando-se não como ele, mas ele mesmo”. [Esta] “identificação produz-se à revelia do Eu do sujeito e contra sua vontade. Daí seu caráter alienante”. (GREEN, 1980, p.249)
       Isso nos remete a noção de “um corpo para dois” ou mais extensamente “uma psique para dois, um sexo para dois, uma vida para dois”, trazida à luz por J. McDougall (Corpo e história, 1985, p. 10). MJ não pode deixar de sentir que as filhas, especialmente a mais nova, estão vivendo por meio de sua vida, quando diz: “Eu morro em cima delas”. Ou: “Elas estão erradas, não podem viver desse jeito”. McDougall chegou a “formular a problemática paradoxal desses pacientes nestes termos: se o fantasma fundamental prescreve que o amor conduz à morte e que somente a indiferença a toda libidinização garante a sobrevivência psíquica, aumenta de modo notável sua vulnerabilidade psicossomática”, criando uma espécie de pensamento único que a protege de seus medos mais primitivos de separação materna. Entre as várias “técnicas” de sobrevivência psíquica, MJ procura impor uma única forma de viver, inclusive dizendo que V. (sua filha mais nova) é sua única chance de se salvar. Sempre que MJ se decepciona com um dos filhos salvadores, delega para o próximo filho a missão do último. Então diz: Ela era a menina dos meus olhos, mas agora mentiu. [...]A V. era minha última esperança de alguém dar certo naquela casa. […] Mas eu não posso fazer isto com minha filha... eu nunca vou poder tirar esse lado negro de mim... se eu soubesse pelo menos ser uma mãe de amor.
       Terapeuta: Uma mãe quentinha, aconchegante?
       MJ: Eu dou beijo no R. e ele diz: “Cadê o sentimento”? Uma mãe sem coração (respiração convulsiva; silêncio). Uma mãe sem coração (silêncio). Sou muito violenta. Nunca bati na V., mas bati na Ve...(segunda filha)(silêncio). Principalmente se uma delas mentir para mim.
Elas querem que eu tenha amor (silêncio). Eu morro em cima deles e eles não agradecem. Eu morro todos os dias. Eu dou a vida para elas, eu cuido, estou presente, me preocupo, quero que tudo dê certo para elas. Mas eu não posso dar meu coração, eu tenho um buraco no lugar de coração. É um vazio só. Beijo meu neto, tão lindo, mas não sinto nada; minha boca é fria. Eles são lindos, e eu quero ter algum sentimento por eles, mas eu não sei qual!
       Green: “O segundo fato é, como sublinhei, a perda do sentido. A 'construção' do seio cujo prazer é a causa, a finalidade e a garantia, desmoronou de uma só vez, sem razão. Mesmo imaginando a inversão da situação pelo sujeito que se atribui, numa megalomania negativa, a responsabilidade da mutação, há uma distância impreenchível entre a falta que o sujeito se recriminaria de ter cometido e a intensidade da reação materna. No máximo, ele poderia pensar que essa falta está ligada à sua maneira de ser mais do que a algum desejo interdito; de fato, lhe é interdito ser” (GREEN, 1980, p. 250), a não ser por meio de seus filhos, que nestas alturas a impedem de ser, tomando o lugar da mãe.
Segundo Green, estes fatos iniciais provocam: a)“O desencadeamento de um ódio secundário (Grifo do autor), que não é nem primeiro nem fundamental, colocando em jogo desejos de incorporação regressiva, mas também posições anais tingidas de um sadismo maníaco onde se trata de dominar o objeto, de maculá-lo, de vingar-se dele etc.” Em MJ a mãe morta é a todo o tempo manchada, submetida ao desprezo para rescindir um contrato amoroso inicial que se estende ad infinitum. Na melhor das hipóteses sua mãe morta “reencarna” diariamente na pele seus filhos, permitindo que MJ possa exercer suas posições anais, especialmente posicionando-se como mãe sem amor, que se sente obrigada a amar. b)“Excitação auto-erótica (Grifo do autor) instala-se pela procura de um prazer sensual puro, prazer de órgão no limite, sem ternura, sem piedade, que não necessariamente é acompanhado de fantasias sádicas, mas permanece marcado por uma reticência a amar o objeto”.
       Desafetada de seu amor, MJ não pode dar atenção a alguns sinais amorosos que o ambiente lhe dá, pois o ambiente significa sua mãe desafetada. Ambiente este muito bem representado pela cena terapêutica, onde MJ permite que aconteça um amor sem calor. Ela deseja a terapia, desde que esta não a leve ao amor quente. Mesmo sem desconstruir a terapia, MJ consegue realizar um distanciamento que tem por objetivo manter o terapeuta um negativo de mãe; pede ajuda terapêutica, desde que esta não signifique sentir e, especialmente, levá-la ao confronto com o sentido de suas vivências. A mãe-ambiente trazida à cena por McDougall, a partir de Winnicott, pode ajudar a entender a imensa dificuldade para MJ aceitar que o mundo tenha um olhar diferente do seu. Afinal MJ não apenas tem uma mãe morta, mas também ela é uma mãe morta, portanto o ambiente terapêutico é natimorto. Não pode satisfazer seus desejos nem suas necessidades. c) “Por fim, e sobretudo, a busca de um sentido perdido estrutura o desenvolvimento precoce das capacidades fantasmáticas e intelectuais do Eu (Grifo do autor). [...] Desempenho e auto-reparação unem-se para concorrer à mesma finalidade: a preservação de uma capacidade de superar o desespero da perda do seio pela criação de um seio remendado, pedaço de tecido cognitivo destinado a mascarar o buraco do desinvestimento, enquanto o ódio secundário e a excitação erótica formigam na borda do abismo vazio”. (GREEN, 1980, p.250)
       MJ se expressa assim, logo depois de uma discussão com sua filha e filho mais novos; quarta sessão:
       ... e eu comecei a querer chorar, aí gritei muito alto, muitas vezes e depois entrevei os dentes e corpo todo ficou rígido, sentindo a pele muito fria, os músculos gelados. Não sei quem, me trouxe água com açúcar e um Rivotril que engoli com muito esforço. Com dois Rivotril apaguei e acordei no Domingo. Durante a semana não se falou mais no assunto, como se nada tivesse acontecido.
       Qualquer possibilidade de entrar em contato com maternidade, dependência, nascimento ou fragilidade levam-na a um desespero que somente pode ser aplacado por medidas extremas, onde MJ “desaparece”.
       ... no aniversário de 50 anos minha filha mais velha queria fazer uma surpresa, mas bem no dia tive de ser internada e fiquei vários dias sob calmante; e o aniversário deu em nada. No de 51 anos meus genros, minhas filhas e o R. iam me levar a uma churrascaria na divisa entre Minas e São Paulo [...] Ainda de manhã começou a me dar uma agrura, um frio danado, comecei a passar mal e aí fui para casa [...]eu só descanso em casa; queria tomar o remédio e dormir. Quando cheguei em casa estava todo mundo lá; ficaram decepcionados, daí eu fiquei sabendo que era meu aniversário. Fiquei dopada até o dia seguinte. Agora nesse aniversário de 52 anos eu queria que tudo desse certo, mas aconteceu uma coisa desagradável, que me deixou fora de mim. Estava todo mundo em casa, almoçamos, cortamos o bolo; até aí deu tudo certo. Eu acho que falar com o senhor e depois contar para minha nora me ajudou a superar a depressão e eu não precisei tomar remédio durante o almoço. O senhor sabe que tomo dois comprimidos para depressão durante o dia, não é?
       “A mãe morta havia carregado consigo, no desinvestimento de que fora objeto, o essencial do amor de que tinha estado investida antes de seu luto: seu olhar, o tom de sua voz, seu cheiro, a lembrança de seu carinho. A perda do contato psíquico provocara o recalcamento do traço mnêmico de seu toque. Tinha sido enterrada viva, mas seu próprio caixão havia desaparecido. O buraco que jazia no seu lugar fazia temer a solidão, como se o sujeito corresse o risco de nele soçobrar com seu corpo e pertences” (GREEN, 1980, p. 253).
       MJ mencionou várias vezes um buraco no peito. No entanto, apenas esporadicamente se referiu a doenças, embora se pudesse intuí-las a partir de seus relatos paralelos de sofrimentos corporais. Ademais, podemos considerar o uso de remédios psiquiátricos como uma solução aditiva, o que se pode considerar uma somatização (McDougall, op. cit.).
       O sentimento de queda vertiginosa experimentado por MJ parece estar relacionado com uma experiência de desfalecimento psíquico, que seria para a psique o que o desmaio é para o corpo físico, numa espécie de alucinação afetiva da mãe morta, enchendo o vazio com este objeto cadavérico, periodicamente; objeto escolhido para ocupar o corpo e a psique; uma ocupação sem consistência.
Tudo o que se observa em torno deste núcleo – o medo de soçobrar com seu corpo e pertences psíquicos – organiza-se com uma finalidade que podemos notar em três itens: possibilitar a sustentação da vida do Eu, pelo ódio ao objeto, pelo garimpo de uma emoção excitante, pela busca do sentido; reabilitar a mãe morta, interessá-la, distraí-la, devolver-lhe o gosto pela vida, fazê-la rir e sorrir; rivalizar com o objeto do luto na triangulação precoce; a filha de mãe morta vai antecipar as escolhas parentais para defender-se do vazio, de modo especialmente violento.
       É fundamental compreender que a incapacidade de amar, em MJ, só decorre da ambivalência, e, portanto, da sobrecarga de ódio, à medida que o que vem primeiro "é o amor gelado pelo desinvestimento” (GREEN, 1980, p. 254). Essa violência, explica Dejours, não foi mediada pelas representações pré-conscientes, gerando assim, por falta de representação, somatizações variadas (C. DEJOURS, 1991), que foram declaradas por MJ somente em nosso décimo encontro, quando se põe a falar das suas desventuras corporais, confirmando a hostilidade surda por uma mãe fria. “O objeto está, de certa forma, hibernando, conservado no frio”. [...] “De fato, vai encontrar a incapacidade de amar, não apenas por causa da ambivalência, mas porque seu amor continua tão hipotecado à mãe morta. O sujeito é rico, mas não pode dar nada apesar de sua generosidade, pois não dispõe de sua riqueza. Ninguém tomou sua propriedade afetiva, mas ele não pode gozar dela". MJ ilustra isso de modo exemplar essa incapacidade de gozar do que é seu – na verdade não possui o que tem:
       ... aí então, fiquei muito triste por ela (uma irmã). O senhor sabe, eu fui a mãe destas minhas irmãs, cuidei muito delas, pois minha mãe vivia com homem, para cima e para baixo, sem dar atenção a elas. Eu sei o que é bom para elas. [...] ...ela é minha irmã e eu cuidei dela como mãe. Veja o que aconteceu com minha filha V. Essa também não parece ter entendido o que é certo e o que é errado. Também me deu desgosto no aniversário, igualzinho minha irmã.
       Quanto a sua vida sexual MJ vai percebendo-a diminuir, dissipar até ser praticamente nula, especialmente depois do falecimento do marido; não se trata nem de inibição nem de perda de apetite sexual ( GREEN, 1980, p. 255); simplesmente ninguém mais é desejável e, se por acaso alguém o for, ela própria trata de fugir da relação, como é o caso citado em nosso 12º encontro:
       … É que são tantos problemas, que não sei nem por onde começar... Por exemplo, o V. (o inquilino) começou a dar um tipo de problema que jamais imaginei que poderia acontecer comigo. Eu já disse para o senhor que ele tem mania de ficar fazendo elogio; diz que sou a mãe que nunca teve, manda flores, fala para meus filhos que eles não sabem a mãe que têm. Eu já disse para ele ficar quieto no canto dele, por que não quero que meus filhos pensem que tenho alguma coisa com ele. Quando aluguei o quarto dos fundos foi um favor para um sujeito que não era bem vindo na casa dos pais, estava bebendo muito, usando maconha todo dia. Dava dó! Era uma coisa triste de se ver. O problema é que começou a botar as manguinhas de fora; começou a passar a mão no meu cabelo, a me fazer elogio de homem, a ficar muito tempo em casa, já que eu faço comida para todo mundo. Aí ele fica sempre um pouco mais e se aproxima com uma conversa de gratidão e etc. Aí fico pensando: se os outros souberem disso o que irão falar? Onde já se viu uma mulher na minha idade envolvida com um rapaz da idade do V.? Além disso, ele está dentro de minha casa; vão pensar que fiz isso de caso pensado, levando homem para dentro de casa. Mas tudo que eu queria era ajudá-lo a sair das drogas, da bebida; não custava nada fazer isso por ele. Tenho medo da opinião dos meus filhos. Vão achar que eu tinha intenção de levar homem para dentro de casa. É uma vergonha.
       … Outro dia ele trouxe flores para mim. Não achei nada de estranho, porque ele tem o hábito de trazer flores para todo mundo. Mas quando olhei no papel de embrulho transparente vi que estava escrito “eu te amo”. Fiquei muito brava. O senhor já pensou se um dos meus filhos vê uma coisa destas! O que eu iria dizer para os outros. Isso é errado, é feio.
       … Aí chamei-o para uma conversa em particular e disse que não fizesse isso nunca mais. Que eu sou uma mulher que está mais para a mãe dele; que ele é muito novo e deveria respeitar-me. Que eu não vou conviver com estes pensamentos que estão dentro de minha cabeça. (silêncio).
       Terapeuta: Seu desejo por ele...
       MJ: Tenho vergonha deles (constrangida, mas com um sorriso indecifrável). Afinal de contas não quero ele para meu homem....É um absurdo. Eu só poderia ter algo com ele, que não sujasse a memória do meu marido morto. Não poderia namorar, por que isso sujaria sua memória. Meu marido ainda está vivo. Está muito mais que vivo, está presente. Por isso eu só poderia pensar em sexo, para não sujar sua memória. Mas quando tenho estes pensamentos fico descontrolada; tenho de usar mais remédio ainda. Atualmente tenho usado direto, por isso não posso vir à terapia.
       Terapeuta: A senhora não tem vindo à terapia por que tem tido pensamentos sexuais...
       MJ: É. (silêncio, seguido de um sorriso maroto) Mas não com o senhor. O V. está me pressionando, mas eu não vou cometer nenhuma bobagem… O problema é que ele está nessa insistência comigo. E eu quero respeitar a memória do meu marido, mesmo eu não tendo amado, não tendo sentido nenhum prazer, fui respeitada, fui cuidada. Vivi um casamento de verdade; um casamento onde ele, por causa de ser muito mais velho que eu, me tratou com respeito de pai.
       [...]
       … Pensei também em fugir de casa; viajar um pouco; ir para a casa de uma parente, até o V. esquecer esta história; eu não quero mais pensar besteira. Toda vez que penso qualquer coisa com homem tenho de tomar remédio e ficar dopada; atualmente fico dopada praticamente o tempo todo.
       Terapeuta: A senhora está me contando uma história de amor...
       MJ: Amor errado. Vou acabar fugindo. Não quero acabar como minha mãe. Vou viajar.
       Terapeuta: Como sua mãe acabou?
       MJ: (silêncio, rigidez facial, depois um sorriso indecifrável, mexeu pela primeira vez na cadeira) Terminou como eu... (silêncio demorado)
       “Este núcleo frio queima e anestesia como o gelo, mas enquanto for sentido como frio, o amor permanece não-disponível. Não são somente metáforas. Estes analisandos queixam-se de sentir frio em pleno calor. Têm frio sob a pele, nos ossos, sentem-se enregelados por um calafrio fúnebre, envoltos na sua mortalha” (GREEN, 1980, p. 255).
       Nessas condições MJ não pode conviver com qualquer tipo de sensação um pouco acentuada: muito amor, muito prazer, muito gozo, muita tristeza; por outro lado, a função parental está sobreinvestida e infiltrada por narcisismo, tentando preencher os objetivos narcisistas dos pais. André Green fala então daquilo que seria o calcanhar de Aquiles do Complexo da Mãe Morta; a fantasia da cena primária. Na verdade o que importa na cena primária não é sua realidade e sim, pelo contrário a imaginação da cena primária. Melhor dizendo: a cena primária que se desenrola longe da criança, e por ela fantasiada, chega a ser mais importante para a consecução dos futuros desinvestimentos libidinais do filho da mãe morta. O fato da cena primária ter se desenrolado na ausência do sujeito, provocando uma série de consequências que podem aparecer isoladamente ou agrupadas:
       1. A perseguição por esta fantasia e o ódio aos dois objetos que se forma em detrimento do sujeito. No caso MJ a figura paterna fica isenta do ódio (quinta sessão):
       … Eu mandei fazer uma foto pintada do meu pai e outra minha aos 15 anos. Eu guardei dentro da mala. De vez em quando eu olho a foto dele. Essa semana quando mexi no álbum encontrei uma foto com minha mãe e o meu pai batizando o meu irmão, e observei o quanto a minha mãe não parece com nenhum de nós. Desde que a conheço ela está com a mesma aparência de sempre. Sempre de coque. Parece que não é nada nossa.[...] O meu pai, que saudade do meu pai!. Talvez porque assisti o sofrimento dele. Quando chegamos em SP ele saia pelas ruas vendendo borracha para trazer fubá para a gente comer. Por mais que ele tenha feito... mas a minha mãe saia e deixava a gente, dentro de casa com fome. Eu saia para pedir o que comer na rua.
       2. Podemos, no caso da Mãe Morta interpretar classicamente a cena primária, como cena sádica, onde a mãe sofre uma agressão e humilhação, no momento em que a criança intui prazer da mãe. Mas, o que importa mesmo é que a mãe ou não goza, sofrendo, ou então goza apesar de si mesma, do sentir-se constrangida pela violência paterna.
       … Aqui em São Paulo, ela começou a fazer coisas erradas, ruins. A gente sabia, mas ficava quieto. Meu pai brigava e espancava todo mundo, por causa dela. Inclusive ela. Minha mãe sempre disse que meu pai tinha uma vida, antes de casar, desregrada, errada. Eu nuca vi nada, mas ela disse que ele era matador. Ninguém falava nisso, mas ela insistia. Disse que casou por medo dele. [...] Quando eu tinha doze anos fui usada como mulher, por um tio, que veio junto com ela numa das viagens. Ele me ameaçou, dizendo que contaria para o meu pai. Eu sabia que ele me mataria se soubesse. Me usou três ou quatro vezes. Aí eu comecei a fugir de casa quando ele aparecia e minha mão me batia muito porque eu não ficava em casa. Eu não contei para ela, não contei nada.
       3. Esta situação pode sofrer uma variante desta última, onde a mãe gozando, sentindo prazer, nesta cena sádica, é percebida como cruel, hipócrita, comediante, "espécie de monstro lúbrico que faz dela a Esfinge do mito edipiano muito mais do que a mãe de Édipo" (GREEN, 1980, p.255).
       ...Eu é que fiz o papel de mãe, cuidei dos 11 irmãos. Nestas alturas havia morrido 2 irmãs e 2 irmãos. Depois é que meu irmão mais velho, o B. atirou no meu irmão, por causa da confusão da minha mãe... coisa de homem de ..... (breve silêncio). Minha vida é tão confusa que estou deixando-o confuso. É muita coisa. [...] Eu tenho muito ódio, mas não sei do quê... Só quero dizer que minha mãe, se estiver viva ainda, merece meu respeito de filha, afinal ela é mãe... mas eu não sei notícias, acho que está viva... A mais velha, a M.C., que foi criada pela minha avó materna, chamava a minha mãe de Dona Moça e a avó de mãe, mas ela sabia que a avó não era a mãe.
Terapeuta: Ela nunca chamou a sua mãe de mãe?
       MJ: Não, sempre de Dona Moça.
       Terapeuta: Por quê Dona Moça?
       MJ: Por causa do pai chamá-la de moça.
       Terapeuta: A senhora entende que a sua irmã a chamava de D. Moça com que sentimento?
       MJ: Porque acho que ela não era mãe dela; porque se fosse não tinha deixado a minha avó levar ela embora. Igual eu escuto, que a mãe vai para o baile e deixa crianças em casa que morrem queimadas. É o que eu digo para a minha filha: "Você tem dois filhos, o Vítor e o Guilherme, e você está fazendo como a minha mãe.
       4. MJ ora passa por uma identificação com a mãe morta, seja na sua posição afetiva inalterável, entregue a uma excitação erótica de tipo sadomasoquista, onde sua inalteração é um cetro de possessão da libido gelada da mãe morta; ora identifica-se com o pai, agressor da mãe morta (fantasia necrófila), ou reparador pela relação sexual.
       5. MJ, segundo minha avaliação, concordando com Green, passa por uma deslibidinização erótica e agressiva da cena sádica, em proveito de uma intensa atividade mental, que não chega a ser intelectual, mas que faz uma restauração narcísica frente a esta situação que a confunde. A procura de um sentido novamente perdido, desemboca na formação de uma teoria sexual, e estimulação de uma atividade "intelectual" extensa, que restabelece a onipotência narcisista ferida, sacrificando as satisfações libidinais.
       A paciente apresenta uma forte cisão maniqueísta, com um discurso racional, apelando sempre para que o interlocutor aceite que existem coisa certas e coisas erradas. Apelo aqui, de novo, para o negativo da foto, para dizer que o discurso tem todas as características do racional, mas não tem as cores da afetividade.
       6. A intensa e inteira negação de toda a fantasia, com um grande investimento na ignorância de tudo o que diz respeito às relações sexuais, que faz coincidir, no sujeito, com o vazio da mãe morta e o consequente apagamento da cena. A fantasia da cena primária torna-se o pivô central da vida do sujeito, que cobre com a sua sombra o complexo da mãe morta.
       Além disso, a imaginação da cena originária vem eivada de valores anti-eróticos, isto é, o ódio, a homossexualidade e o narcisismo, que vão conjugar seus eleitos para que o Édipo se estruture mal. Isto tem como consequência o reinvestimento da relação feliz com o seio, que se deu em um momento anterior ao surgimento do complexo da mãe morta, mas de modo afetado pelo signo do efêmero, da ameaça catastrófica de tudo perder-se na sujeira, no erro, na ignomínia; a saída para o ego de MJ foi expressar-se a partir de uma falso self, advindo de um falso bebê que se nutriu de um falso seio, conceitos que extraio, de passagem, de Winnicott.
       MJ: Eu entrei na menopausa com 42 anos. Menopausa precoce. Fiz tratamentos tomando hormônios. Faz quatro anos que não desce, mas neste final de semana, comecei a sentir muitas dores nos seios. Eu achei estranho porque tomo todos os remédios direitinho. Sábado veio a menstruação. O ginecologista disse que, dependendo, eu precisaria ficar internada para saber o que está acontecendo. Ai fiquei muito nervosa. Não perguntei porque veio para mim, quatro anos depois. Eu nunca tive problemas de cólicas. Agora eu estou preocupada porque eu nunca tive dor no seio e agora eu estou tendo. A gente vê tanta coisa por aí, câncer. Vou fazer uns exames porque estou com osteoporose, desgaste na bacia, não posso subir escadas ...O menino mais novo da Verônica tem fimose, para ele fazer um pingo de xixi eu tenho que ligar o chuveiro para estimulá-lo. Não entra nem uma agulha no buraquinho ...Talvez eu seja tão amarga, não sinta emoção, nunca senti prazer na minha vida, por todos os problemas que tive. Talvez tenha acontecido muita coisa. Eu acho que ela está se vendendo. Depois do último namorado toda pessoa que encostar nela eu acho que ela vai ter relações, e eu não aceito isso.
       Noutro momento:
       Terapeuta: Seus netos não são seus filhos, são filhos de sua filha.
       MJ: Eu acho que são meus filhos. Eu acho que os meus dois netos são meus filhos. Eu estou fazendo para os meus filhos: o Vítor e o Guilherme (seus netos).
       Terapeuta: A senhora parece muito tensa falando sobre isso...
       MJ: Domingo ela foi com o marido levar o menino ao médico por causa dos sintomas da fimose, vômitos, enjoos. Como demoraram muito eu fiquei preocupada e liguei para a casa dos pais do meu genro e acabou acontecendo uma discussão, porque o pai dele disse que eu estou me comportando como se fosse mãe das crianças e não avó. Ele disse também que a Verônica é uma péssima mãe.

************
       Como pode-se depreender da análise de tão poucas sessões, posto que mal se deu a transferência para balizar o trabalho que ora me proponho, devo dizer que isso resulta em uma compreensão superficial da maior parte dos fenômenos levantados por Green. De qualquer modo, posso seguir suas pistas e concluir, ainda que parcialmente, que MJ possui um falso self, com um falso seio, que por sua vez alimenta um falso bebê. MJ comporta-se, em um modo de ser, patenteado pela marca "como se fosse"; ama como se fosse amor, odeia como se fosse ódio, e assim por diante. Supõe-se que isso tenha surgido a partir de um primeiro momento de contato com a mãe onde esta estava viva, pulsante, por isso, quando evocada, é feita na forma de necessidade e não desejo, aparecendo com os contornos do amor, mas sem a substância do amor. Logo MJ percebe que aquela antiga alegria era uma ilusão e a frase "nunca fui amada" (parafraseando Green) se torna a marca registrada da paciente "à qual o sujeito vai se agarrar e que vai fazer esforços para verificar na sua vida amorosa posterior" (GREEN, 1980, p. 255).
       É o caso de MJ. Laboriosamente tentará demonstrar que jamais foi amada pela mãe, apelando para seu gelo no coração, a falta de amor das filhas e a negação de um dos netos em relação ao outro, chamando-o de amiguinho, priminho, coleguinha, jamais de irmãozinho.

       Consequências clínicas
       MJ confia plenamente na terapia, vindo em todas sessões, aproveitando todos os minutos possíveis, mas dificilmente aceitando qualquer presença do terapeuta. Sempre que o terapeuta aparenta estar entendendo ou interessado na paciente, esta muda o assunto bruscamente. Tal como a mãe morta o terapeuta nasce com luz vital, mas rapidamente é cadaverizado, e no seu lugar existem ouvidos que devem escutar, mas não ouvir; boca para falar, mas não dizer; em suma, qualquer sinal de vida do lado do ouvinte, aciona mecanismos de defesa por repressão, do lado da analisanda, que pode se apresentar violentamente.
       Essa violência, pensada por Dejours, não foi mediada pelas representações pré-conscientes, gerando (com isso) somatizações (1991), que foram declaradas por MJ somente em nosso décimo encontro, quando se põe a falar das suas desventuras corporais, confirmando a hostilidade surda por uma mãe fria.
       MJ brinda certezas a respeito de sua problemática, em muitos momentos, sendo que cada um destes presentes tem como objetivo, segundo Green, manter o analista paralisado, gelado, confirmando suas expectativas de não ser amada. A linguagem de MJ é, repetidamente, uma retórica de estilo narração. Sinto, frequentemente, que seu papel é me comover, implicar-me, tornar-me testemunha no relato dos conflitos localizados no exterior. Como uma criança que conta à sua mãe seu dia na escola as centenas de pequenos dramas que viveu, para interessá-la e fazê-la participar do que descobriu na sua ausência.
       MJ claramente se desconecta, se desliga para não ser invadida pelo afeto da revivescência mais do que pela reminiscência. Quando cede ao sentir, ao vivenciar, é o desespero que se mostra em toda sua transparência, terminando num arroubo de agressividade; quase sempre encerrando suas frases em um "isto é errado". Quando o terapeuta consegue se aproximar do discurso não feito, MJ, para proteger a mãe morta, que é ela mesma, se sente sem coração, sem amor para dar, deixando claro que ela poderia falar sobre este vazio por horas a fio, mas este vazio não pode ser percebido de fora, pelo outro e por um lapso de tempo se sente esvaziada, branca. É possível que com o andar da terapia possa transparecer o louco amor que MJ nutre pela mãe. Amor este que torna irrealizável a experiência do luto vermelho (cheio de afeto). Ao que tudo indica, toda a estrutura psíquica de MJ visa uma fantasia fundamental: nutrir a mãe morta, para mantê-la num perpétuo estado de mumificação. A mãe está embalsamada e guardada, juntamente com seus pertences, suas experiências amorosas, para ser usufruída mais à frente, num futuro lançado em local e tempos remotos. MJ está, segundo Green, nutrindo o terapeuta com a própria sessão sem o objetivo de melhorar sua vida. Utiliza a sessão para que esta se prolongue indefinidamente, petrificando o terapeuta, "pois o sujeito quer ser a estrela polar da mãe (terapeuta), a criança ideal que toma o lugar de um morto idealizado, rival necessariamente invencível por que não vivo, isto é, imperfeito, limitado, finito". (GREEN, 1980, p. 255)
       O que MJ perdeu, é, essencialmente, o contato com a mãe, que é secretamente mantida nas profundezas de um sarcófago psíquico, onde todas as tentações de troca por objetos substitutos, tais como o trabalho, a família, o homem, deverão fracassar. Ironicamente, o único homem que lhe deu algum prazer, foi justamente aquele que trouxe a mãe doente para que MJ cuidasse em seu leito mortuário, repetindo a cena da mãe morta; homem este que é mantido intacto, tal como uma múmia de sentimentos e vivências.
       Green, repito, escolhe utilizar o quadro terapêutico como espaço transicional, evocando Winnicott, apresentando-se, o terapeuta, de modo interessado, embora neutro; vivo, embora não intrusivo. O autor não recomenda o silêncio do analista, pois isto poderá acionar um mecanismo de repetição enfadonha, em um velório infindável, em silêncio mortuário, mantendo a relação com a mãe morta. A análise corre o risco de soçobrar no aborrecimento fúnebre, ou na ilusão de uma vida libidinal, enfim reencontrada, mas que em futuro muito próximo trará a desilusão, como mortalha. Melhor dizendo, as palavras, podem representar apenas mortalha; as vestes finais de uma mãe morta.
MJ, se nos ativermos à sugestão de Green, deve sentir que o terapeuta está atento às suas proposições. "E, se o paciente expõe este sentimento, é perfeitamente possível mostrar, sem traumas excessivos, o papel defensivo deste sentimento contra um prazer vivido como angustiante". (GREEN, 1980, p.262)
Com o progredir da análise será restituído algo de vida à criança identificada com a mãe morta e esta poderá usar esse sinal de vida, invertendo a dependência infantil pela mãe. De agora em diante a mãe doente é quem passa a depender da criança rediviva, não como uma reparação da mãe, por remorso; a mãe passa a ser um altar de sacrifícios, onde a criança, renuncia aos potenciais pessoais para atingir prazer.
       Em termos de transferência, o paciente traz à análise material para ser interpretado para o terapeuta, como se este dependesse da paciente, mais que ela do terapeuta. Neste momento deve-se então interpretar para o analisando é que tudo se dá como se fosse o analista que tivesse necessidade do analisando, ao contrário do que acontecia antes. Em alguns momentos das sessões MJ passa a sensação de que ela era a depositária do morto, sendo de sua responsabilidade passar sua vida nutrindo sua mãe morta, guardiã do túmulo, única possuidora da chave da sepultura, única possuidora do segredo da Esfinge, desempenhando uma função de genitora nutriz da mãe, como seu bem particular. MJ se tornou a mãe da mãe, cabendo a sua mãe reparar a ferida narcisista de MJ.
Surge aqui um paradoxo: se MJ está de luto, morta, está perdida para a mãe, mas pelo menos, por mais atormentada que esteja, está lá. Presente e morta, porém presente. MJ pode cuidar dela, tentar acordá-la, animá-la, curá-la. Outrossim, se a mãe é curada, ela acorda, se anima e vive, e MJ perde-a também, pois ela a abandonará para cuidar de suas ocupações e para investir outros objetos. MJ está presa entre duas perdas: a falta de vida na presença ou a falta de presença na vida. Disto decorre a extrema ambivalência quanto ao desejo de devolver a vida à mãe.
       A mãe está "morta" (no sentido de não-viva, mesmo se não tiver ocorrido nenhuma morte real); carrega, por isto, MJ para um universo deserto, mortífero. O luto branco da mãe induz o luto branco de MJ, enterrando uma parte de seu Eu na necrópole materna. Nutrir a mãe morta significa, então, manter em segredo o mais antigo amor pelo objeto primordial, sepultado pelo recalcamento primário da separação mal-sucedida entre os dois parceiros da fusão primitiva.

       Resultados clínicos
       Os resultados iniciais apontam para uma certa independência da paciente quanto aos sentimentos e comportamentos dos filhos; abandono espontâneo (quero dizer, sem acompanhamento do psiquiatra) do Diazepan, já completando sete semanas; inclusão espontânea de passeios semanais; redução perceptível, porém ainda incipientes, dos ataques de ódio. Porém, na décima segunda sessão, MJ se apresentou em franca recaída, o que parece confirmar as últimas observações de Green.
***
       Para encerrar passo a palavra para Green: "A situação, no complexo da mãe morta, não pode ser vinculada à posição depressiva comum, nem assimilada aos traumatismos graves da separação real. Não houve, nos casos que descrevo, ruptura efetiva da continuidade das relações mãe-criança. Em contraposição, houve, independentemente da evolução espontânea em direção à posição depressiva, uma contribuição materna importante que vem perturbar a liquidação da fase depressiva, complicando o conflito pela realidade de um desinvestimento materno, suficientemente perceptível pela criança, para ferir seu narcisismo. Esta configuração parece-me conforme aos pontos de vista de Freud sobre a etiologia das neuroses – em sentido amplo – onde a constituição psíquica da criança se forma pela combinação de suas disposições pessoais herdadas e acontecimentos da primeira infância". (foto: Modigliani - retrato feminino)

Levi Leonel de Souza
Psicanalista, Mestre em Ciências da Linguagem, pesquisador convidado pela Universidade do Vale do Sapucaí.
     
       Referências:
BOLLAS, Christopher, Hysteria, São Paulo. Editora Escuta, 2000.
DEJOURS , C. Repressão e subversão em psicossomática Rio de Janeiro. Jorge Zahar Editor, 1991.
GREEN, André Narcisismo de vida, narcisismo de morte São Paulo. Ed. Escuta, 1998.
GROTSTEIN, James S, O buraco negro, Lisboa. Climepsi Editores, 1999.
LAMBOTTE, Marie-Claude, O discurso melancólico, Rio de Janeiro. Companhia de Freud, 1997.
McDOUGALL, J. Teatros do corpo, São Paulo. Martins Fontes, 2000.
McDOUGALL, J. "Um corpo para dois" in Corpo e história, São Paulo. Casa do Psicólogo, 2001.
WINNICOTT, D. W. O brincar e a Realidade, Rio de Janeiro. Imago, 1976.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

O MATRIARCADO - Sociedades Matriarcais – o culto ao feminino

Apontamentos sobre civilizações e sociedades matriarcais e a
extração de uma filosofia da terra e psicologia do corpo

         Tendo em vista a dicotomia patriarcado/matriarcado, podemos nos fazer algumas perguntas: qual o melhor regime de relações sociais - patriarcado ou matriarcado? Governo dos homens ou das mulheres? Existem sociedades dominadas por uma ideologia matriarcal em tempos atuais? É possível apontar, com clareza, onde floresceram sociedades geridas por mulheres, cujo poder feminino, atuando numa religião e numa administração pública, foi o centro das suas relações sociais? O quê uma sociedade orientada pelas mulheres pode ensinar aos homens sobre política, psicologia, filosofia e administração do poder? O que o poder feminino pode inovar, melhorar ou, pelo menos, modificar nas relações sociais, que poderia nos indicar uma alternativa ao patriarcalismo. Há uma falência do patriarcalismo e um consequente retorno do matriarcalismo no cerne do ocidente?

Podem as sociedades matriarcais antigas e atuais nos fornecerem um esboço de um modo de vida, uma filosofia e uma psicologia compatível com as expectativas da civilização contemporânea, principalmente quando evocamos a sustentabilidade do planeta, a ética e política? Nossos apontamentos indicam que as sociedades não patriarcais podem dar respostas instigantes nesses nichos do pensamento ocidental.
Vamos fazer um breve voo sobre as sociedades antigas, chegando nas atuais formas de sociedades matriciais, fixando alguns pontos de referências úteis para o pensamento atual - religiões, psicologias, filosofias. Além disso, introduziremos a ideia de que o corpo precisa ser melhor compreendido para extrairmos de sua realidade, mais saúde existencial - ponto forte dos cultos à mãe. Este tema será explorado em uma palestra com título: "Os poderes do corpo".
Para compreender o matriarcalismo e seu poder, faremos dois caminhos: um retorno aos cultos à Deusa Mãe na pré história (paleolítico e neolítico – entre 2 milhões de anos e 10.000 a.C); e às ideias centrais do feminino no poder, dialogar com o shaktismo na Índia (adoração Tântrica à deusa), com a sociedade Mosuo (China), Minangkabau (Indonésia), os exemplos atuais de sociedades centradas no poder feminino.
Podemos adiantar que estes estudos surpreendem pelas possíveis contribuições das sociedades não-patriarcais às sociedades atuais, orientadas pelo patriarcalismo, no sentido da cooperação, poder horizontalizado, consenso nas decisões sociais e outros deslocamentos do regime de verdades contemporâneas.

Subtema da palestra:
Tantra – o shaktismo medieval indiano; culto do êxtase ou culto da deusa-mãe; trata-se da forma de matriarcalismo com maiores consequências em todo o mundo, por causa da sua divulgação como prática sexual alternativa, fugindo das luzes originais desta cultura.

Levi Leonel de Souza - Psicólogo, psicólogo organizacional, psicanalista psicossomatista, mestre em ciências da linguagem, com o texto “O discurso encarnado: ou passagem da carne ao corpodiscurso” (2008). Autor do livro Energia Vital, Ed. Roka, 1999 e capítulos de livros e artigos sobre as relações do sujeito com seu corpo. Dirige grupos de emagrecimento por meio de controle da mente e do correto pensar.

Local: Casa Urusvati
Dia: 26/11/14
Início: 19:30h as 21:30h.
Taxa: Doações espontâneas
Rua Dr. Luiz Azevedo Filho, 38 – Vila Mariana - Próximo ao metrô Santa Cruz.


foto: http://pt.wikipedia.org/wiki/V%C3%A9nus_de_Willendorf