quarta-feira, 24 de junho de 2020

Ideologia política também é reação fisiológica

Palavras por dizer by Levi Leonel
Os estados do corpo o ajudam a decidir o que fazer frente aos fatos da vida. Como diz David Eagleman, em seu livro “Cérebro, uma biografia”: “as emoções fazem mais do que dar riqueza a nossa vida – também são o segredo por trás de como dirigimos o que fazemos em cada momento”. Neurocientistas já relacionam a região do córtex orbitofrontal, um pouco acima dos olhos, como aquela que recebe os sinais que advém do corpo, tais como, fome, excitabilidade nervosa, sede, alegria. Eles nos ajudam a escolher o que fazer, depois que resumos de sensações corporais nos indicam o que decidir a partir de um balanço dos ganhos e perdas ligados a cada evento. Isto indica que o cérebro não é exatamente aquele que comanda “o corpo do alto” (idem), mas sim aquele órgão que recebe sinais físicos do corpo para levar o eu a tomar decisões. Uma imensidão de informações externas está ajudando o cérebro a dirigir o eu para sua melhor performance possível, apesar de todos os problemas que significa agir. Sem garantias, toda ação depende da interpretação que o cérebro está habituado a fazer dos mesmos sinais que vem do corpo, que por sua vez, por meio de um sistema absurdo de conexões com o ambiente, fornece material para a reação. “Na maioria das situações, os sinais fisiológicos são mais sutis e ficamos inclinados a não ter consciência deles. Porém [são] essenciais para conduzir as decisões que precisamos tomar” (idem).
Como decidir frente a uma guloseima; se vai devora-la ou declinar deste prazer? Sua experiência corporal ajudará na decisão – desconforto corporal em cascata, do tipo transpiração na palma das mãos por saber que vai interromper a dieta, desconforto estomacal, intestinal; mas, também a delícia de sentir na boca aqueles sabores. Aí você pode, em um momento que reluta, ler as informações nutricionais e sentir desconforto físico tão sutil, que não o percebe. Mas o cérebro sim. E aí “os estados fisiológicos do corpo [são a chave ajuda] a desequilibrar esta batalha”, permitindo que uma rede de sensações vençaa outra, surgido o ato de decidir.
 Às vezes essas escolhas são tão sutis e intrincadas que não se percebe sua ação a não ser como um comportamento geral que chamamos de ideologia. O neurocientista Read Montague (citado por Eagleman), conseguiu demonstrar que há ligação “entre a opinião política de uma pessoa e o caráter das suas reações emocionais” [corporais] (idem). Ele colocou pessoas frente a imagens com fezes, cadáveres, comida com moscas etc. e registrou suas reações de repulsa. Depois fez um levantamento sobre a ideologia política de cada um perguntando sobre controle de armas, aborto, sexo antes do casamento e outras escolhas cotidianas. Montague “descobriu que, quanto mais enojado o participante fica com as imagens, mais politicamente conservador ele deve ser. Quanto menos enojado, mais liberal. A correlação é tão forte, que a reação neural de uma pessoa a uma única imagem repulsiva prevê sua pontuação no teste de ideologia política com uma precisão de 95%” (idem).
O estudo aponta para a ideia de que sua orientação política, sua ideologia, aparece num ponto qualquer a meio caminho entre as reações fisiológicas ao ambiente e as reações cerebrais, ou no entremeio corpo/mente, unindo aquilo que é corporeidade com aquilo que é do pensamento. Se há essa correlação entre ideologia conservadora e reação de repulsa por imagens e situações que enojam, resta saber como isso foi aprendido durante a evolução de criança em adulto. Mas esta é outra história. A leitura do livro “Cérebro: uma biografia” pode ajudar a entender esse mistério.     

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

A psicanálise e seu dispositivo de análise!

O instrumento que o psicanalista usa para compreender o sintoma de seu analisando se chama "interpretação". É sua ferramenta para operar o dispositivo psicanalítico na busca de um caminho significativo entremeio a grande floresta enfeitiçada pelos desejos inconscientes de cada sujeito. É uma floresta encantada, com duendes, fadas, lobos maus, bruxas malvadas, princesas, feras e herois, funcionando a revelia da pessoa - que pensa estar no comando de suas ideias - sendo arrastada por essa trama de pensamentos, fantasias, desejos e pulsões, sob a sombra de sua consciência.
A interpretação é, então, o operador verbal, que deixa ver os ecos e luzes desta obscura floresta; ecos e luzes que surgem na forma de atos falhos, lapsos de língua, esquecimentos, sonhos, devaneios, chistes; e também no "como" a pessoa diz seus pensamentos e sentimentos; no ritmo, intensidade, conexão emocional com os outros e um sem número de associações livres. Na verdade, a livre associação de palavras pede a interpretação do analista.
Mas ai do analista que esquece que cada palavra tem um significado particular a cada pessoa. Acabará impingindo ao analisando sentidos estrangeiros a ele e fracassando ao entrar em contato com sua realidade singular. Isso porá a sucumbir todo o esforço da dupla - analista e analisando soçobram no mar de significados sem sentidos para ambos e a embarcação analítica não resistirá a borrasca da insatisfação.
Por isso o método psicanalítico implica que, além de ser respeitada a singularidade do analisando, o analista tenha, ainda, o cuidado de ter sempre em vista que o analisando seja dono de sua própria ressignificação, abstendo-se o analista de "ensinar", "orientar" ou "estudar" a história pessoal que se descortina (ou que se cerra obstinadamente) aos seus ouvidos.
Ao psicanalista resta expor o discurso do analisando. Um discurso que o analisando recusa, resiste, desloca; um discurso-sintoma de uma realidade psíquica que o analisando não cederá à luz a não ser com muito esforço. Finalmente, o analista não pode expor este sintoma, antes que o analisando tenha preparo para dele fazer uso significativo. Errando este timing, quase tudo terá sido em vão. Por isso, psicanalista e analisando devem ter a paciência de um artesão, deixando que o objeto a ver se mostre em seu tempo próprio.  

domingo, 3 de janeiro de 2016

Qual é o sofrimento psíquico do corrupto?

Como desenvolver um pensamento psicanalítico e ressignificar a palavra corrupção, se esta não advém da teoria psicanalítica? Há muito a psicanálise se esbate com palavras florescidas em outras disciplinas ou que vieram do senso comum. Mas, neste caso, como superar a dificuldade metodológica de criar um pensamento psicanalítico da corrupção, palavra que não surgiu no consultório de terapia? Ou pior, como analisar psicanaliticamente uma palavra tão carregada de juízo de valor, sem cair em psicanálise aplicada, de um já sabido pela clínica, tornando o objeto “corrupção” apenas ilustração de uma teoria? É o que Luís Claudio Figueiredo tenta responder em seu artigo “Pensamento clínico e corrupção. A corrupção entre ligações e desligamentos”, apresentado recentemente no XIX Encontro do curso de Especialização em Psicoterapia Psicanalítica (outubro 2015). Faço um comentário, antecipando que LCF pode não concordar com meus termos...

    Antes de alinhar alguns apontamentos sobre como se dá a corrupção é necessário afastar-se da tentação de ideologizar o termo tal como dizer que um partido é corrupto ou a direita ou esquerda são corruptas, ou patologizar, dizendo que a corrupção é uma doença ou que o corrupto é um doente, retirando a luz sobre o entendimento do que significa corromper.
    Primeiro, é necessário, para que haja a corrupção, um pacto instituído como uma sociedade clandestina, sob a pele do pacto social maior e geral – a sociedade com todos seus dispositivos de funcionamento. Viceja, o pacto ilícito, ao mesmo tempo e no mesmo espaço do pacto lícito, porém à sua revelia e o contradizendo. Essa sociedade clandestina parasita a sociedade legal, sub-repticiamente.
    Depois é preciso entender que a corrupção é necessariamente trabalhada em parcerias, num conluio cooperativo e distribuidor de ganhos, tornando-se uma quadrilha, cujo trato é registrado em planilhas. Quase sempre se trata de dinheiro, mas nem sempre. Pode se tratar de valores e bens de ordem imaterial “distribuídos segundo regras consensuais (por exemplo, as notas de aproveitamento acadêmico e avaliação docente em conluios que envolvem professor e alunos)”, ou lobbies feitos por pessoas que detém algum poder e podem influenciar em negociações legais (e quase sempre imorais) ou ilegais (sempre criminosas).
    Outro aspecto importante na corrupção é que necessita-se de um pacto fundante entre vários cidadãos da sociedade comum, criando uma outra sociedade escondida, mimetizada no tecido dos poderes – suas ações estão à vista, porém não se pode identificá-las facilmente, pois elas estão amalgamadas nas mesmas instituições que visam evitar o surgimento da corrupção. Sua fenomenologia é a da barganha, traindo o pacto social maior. [Assim] “o caráter sagrado de um pacto fundante é profanado quando se torna cobertura e condição de possibilidade de uma prática ilícita”.
Para que a traição ao pacto social, pelo pacto parasitário dos corruptos tenha sucesso, é necessário que haja uma sobreposição da traição pela lealdade, onde os parceiros do pacto ilícito são extremamente leais entre si, mais leais do que o próprio pacto cidadão consegue ser. A lealdade é um valor que permite que, sub-repticiamente, se traia o pacto publicamente aceito pelos agentes de corrupção. Para que sejam corruptos, precisam de estar inseridos profundamente no tecido da sociedade, mais exatamente dentro das instituições públicas e privadas. Declaram lealdade à sociedade exatamente para poderem ter as condições de possibilidade de trair a sociedade. Assim, “o 'bom corrupto', o que é leal, é, ao mesmo tempo, o que trai; ele trai não apenas os que foram mantidos fora do pacto de corrupção, como trai a própria noção de lealdade, pois esta passa a se identificar com o 'direito a trair', exercido pela coletividade corrupta contra a grande coletividade que lhe serve de cobertura”.
    Para que funcione, a pequena coletividade de corruptos, depende de manter fora, de excluir, a grande coletividade. Esta sociedade secreta se exclui do social, excluindo o social de si mesma e evita de todo modo, que a sociedade maior olhe para dentro de sua pequena sociedade exclusiva (que exclui para não ser percebida). É por isso que as 'delações premiadas' da Operação Lava-Jato, são tão mal vistas pela nossa presidente. Está havendo uma traição a lealdade do pacto ilícito. Enquanto o grande pacto social é inclusivo, o pacto corrupto é exclusivo.
    Como podem ser pensadas subjetividades capazes de frequentar estes dois espaços tão paradoxalmente articulados – o pacto social e o conluio? Sabe-se que um sujeito só pode fazer um conluio contra o pacto social se estiver em uma posição privilegiada dentro do pacto maior. Por exemplo, traindo uma instituição que deveria zelar. Somente pela “dupla militância”, uma traindo a outra, usando os próprios valores da outra, para traí-la. Só assim podem ser eficazes e invisíveis. Qual o sofrimento psíquico do corrupto, pergunta LCF?
    Qual o sofrimento psíquico do duplo militante? Não parece ser um conflito porque o ego é anódino e o superego mais anódino ainda, portanto, com ínfimos conflitos entre os desejos do ego e as interdições do superego. Quando isto acontece os desejos e impulsos do ego não são interditados, deixando o sujeito exposto a impulsividade; e sabemos que isso não permite a criação de pactos de corrupção, que são, por excelência, complexos, além de obscuros, exigindo planejamento, planilhas e um sistema de corrupção.
    Propõe pensar, então, em uma cisão permitindo que o corrupto possa exibir uma “boa consciência”, e depois, que o corrupto possa usufruir das vantagens da imagem de honesto. Deste modo o sujeito corrupto não se submete aos impulsos e desejos, nem tem que lutar contra o superego. Disto surge um sujeito capaz de grande “autocontrole, cálculo, [de] formação de alianças funcionais”.
Este sujeito frui de grande autocontrole porque não está cindido no ego, como nos casos onde se dá a recusa, um mecanismo em que o ego, simultaneamente, aceita os limites do superego (diferenças, regras, prescrições, leis) e recusa-os. Neste caso, resumindo, a cisão no ego não permitiria a criação de sistemas corruptos, por faltar ao sujeito uma unidade que evitaria o caos.
    O autor pensa, então, numa cisão complexa, onde “[o] personagem corrupto [possui] mais unidade egoica [fruindo] um eu extremamente hábil em permanecer nos dois pactos, ainda que um parasite e traia o outro”. Ele propõe que a cisão se dá no superego, mas não no sentido de criar dois valores e normas contraditórios. Os valores “lealdade” e “solidariedade” que são valores da cidadania, são os mesmos do pacto corrupto. É […] “também a mesma lógica e a mesma racionalidade que vigora nos dois campos”, e são os mesmos objetivos do pacto social aqueles do pacto corrupto parasitário – dinheiro, principalmente. Portanto, os objetivos da transação corrupta, são iguais para os dois campos, permitindo que “seja usado pelo mesmo cidadão em compras absolutamente legais”, após sua lavagem.
    A cisão superegoica do corrupto é tão comum e funcional porque esta dupla militância faz parte de uma certa normalidade social, aparecendo em muitas instâncias da vida citadina. Todos estamos, de algum modo e em algum momento da vida cidadã, vivendo no modelo de dupla militância, quando somos cidadãos da sociedade maior e somos, simultaneamente, leais a uma sociedade secreta, ou sociedades reservadas, clubes, instituições bairristas, sendo que, não raramente, a lealdade aos grupos pode ser contraditória ao pacto social maior, e até mesmo desleal a ele, sem que com isso o tecido social se deteriore ao ponto da ruptura. A dupla militância do corrupto se dá quando “uma militância se alimenta de outra”, parasitando-a e escondendo seu parasitismo, pois “se descoberto, isso seria a morte do parasita; de outro lado, o parasita também vai morrer se sua ação predatória levar a morte o hospedeiro”. Essas tendências à morte colocam os conluios fragilizados por sua própria fantasia de onipotência, fantasia esta que os protegem da vergonha no caso de serem descobertos, fazendo uma grita em nome da decência e ética do bando. Conhecemos o passado de alguns corruptos comprovados da nação, que gritaram pela decência e ética, para depois usar essa voz em seu favor no momento de criar os bandos. No caso de políticos, é comum irem ao palanque defender a honra e ética, falando contra os corruptos antigos, só para em seguida implantarem, escudados pelo discurso da ética, os saqueadores das instituições nas quais se instalam. Talvez, imagino eu, a nossa dupla-militância social explique uma certa complacência com a corrupção, levando o cidadão a eleger os mesmos corruptos cujas práticas parasitárias já foram denunciadas e, eventualmente, punidas. Penso ainda, que há uma certa inveja do cidadão comum, por ser mantido fora destas agremiações...Não é incomum ouvir: Ah se eu tivesse essa oportunidade!
    O corrupto, portanto, vive um estado de contradição generalizada, “um estado crônico de incompatibilidade” entre sua lealdade ao sistema corrupto e a lealdade ao sistema social. E esta contradição se estabiliza, segundo LCF, na dupla militância, é preciso ser um “cidadão acima de qualquer suspeita” para que o cidadão corrupto possa usufruir de máxima eficiência (de poder). O sentimento de culpa “é um sentimento que quase nunca aparece, provavelmente porque a lealdade em relação a uma outra comunidade suprime (grifo do autor) o sentimento de culpa por estar traindo a outra”.
    Ao final das contas LCF não consegue decidir-se por uma “cisão” ou “recalque” e se pergunta o que dirige o corrupto. E encerra:
    “Enfim, diante do corrupto não há motivo de inveja ou de ódio”. Sobre ele pesam contínuas ameaças e sua vida não está nada fácil. Todo o carinho e compreensão que lhe pudermos dedicar ainda há de ser pouco”.


segunda-feira, 7 de setembro de 2015

A psicanálise de crianças no adulto

Sandor Ferenczi (1873-1933), psiquiatra e psicanalista húngaro – considerado o “enfant terrible” do movimento criado por Freud – em sua efervescência intelectual e uma série de críticas à técnica ortodoxa de análise, acabou por descobrir a contratransferência – uma reação do analista aos ditos de seu paciente.
A contratransferência se traduz pela tendência do terapeuta a considerar suas as questões do paciente. Após um período de alinhamento ao pensamento de Freud, que aconselhava o terapeuta a não se deixar enlaçar nas questões do paciente, Ferenczi, acabou por preconizar o uso da contratransferência e realizando uma análise em que ambos, terapeuta e paciente, fazem a análise mútua, de modo que os pensamentos, sentimentos e sensações corporais do terapeuta são comunicados ao paciente para que este saiba como o outro o sente e vê, num jogo especular. A análise dos sentimentos e sensações surgidas no terapeuta deveriam ser tratadas na sessão, usando as referências pessoais do paciente. Com isso o paciente se dá conta dos modos pelos quais produz sentidos para sua vida e também os sentidos que lhe são impostos.
Apesar do combate que os psicanalistas dedicaram aos escritos técnicos de Ferenczi, sua obra sobreviveu entre muitos sucessores, que as adaptaram para seus próprios proveitos. Dá para ouvir o eco de suas contribuições no trabalho dos freudianos americanos – principalmente a “técnica ativa”, uma intervenção na terapia, com demonstrações de afetos, sejam eles ternos ou agressivos, bem como a “análise mútua”, momento em que o paciente é incentivado a participar ativamente da terapia, como se fosse o terapeuta. É neste momento que a contratransferência é mais explorada.
Há poucos ferenczianos declarados, porém os winicottianos, como eu, falam de acolhimento, manejo, suporte e regressão à dependência, com traços ferenczianos o suficiente para traduzir um certo tanto da mutualidade em terapia. É por isso que às vezes um paciente ouve de nós: “Deve ter sido muito difícil viver na sua pele”. É tanto uma declaração de sensibilidade humana, quanto um distanciamento salutar, uma vez que nenhum terapeuta pode habitar a pele do seu paciente. Mas também é verdade que a terapia é da transferência e transferência é desejo, é amor. Ora, por conseguinte, a contratransferência também está no reino do amor. Daí que uma terapia é sempre terapia sobre a emergência transferencial.
Bem, os traços da obra ferencziana aparecem mais em outros psicanalistas, como os da Ego Psychology americana, que depois, sob a rubrica de Hartmann, se torna Self Psychology. No entanto, nestas alturas Winnicott já não concorda com o caminho que os Self ou Ego Psychologists impuseram ao pensamento de Ferenczi. De modo geral Winnicott continuará, apesar de sua renovação do pensamento freudiano, entendendo que o inconsciente é o objeto de análise. Enquanto que o freudismo americano coloca o ego (self, indivíduo) como o centro de sua atenção.
De minha parte gosto de saber que foi Ferenczi quem disse que fazia análise de crianças e não de adultos. A mim me parece que jamais analisamos adultos e sim crianças nos adultos. O amor infantil, reprimido ou recalcado; a criança no adulto que pede socorro, exige ser amada, implora carinho, sonha terrores, numa cadeia de desacertos existenciais. Penso que cada paciente me traz pela mãozinha uma criança para analisarmos juntos – falando de seus brinquedos (trabalho, hobbies etc), de seus medos (do amor, sexo, aniquilação, agonias etc). Depois de algum tempo, a criança analisada se torna o centro de uma vida viva e livre. O que vemos é um adulto amando amar e amando ser amado.
(Foto de Freud e Ferenczi - provavelmente 1917 quando Ferenczi servia como médico ao exército húngaro)

terça-feira, 7 de abril de 2015

A clínica do vazio - a análise do limbo de ser!

Os motivos pelos quais uma pessoa procura o psicanalista quase sempre encobrem os motivos reais. Winnicott, psicanalista inglês, cuja obra orienta minha atitude frente ao analisante, tentou várias vezes, e em diferentes momentos, lembrar o analista do "nada no centro" de algumas pessoas - o verdadeiro motivo que leva muita gente até a análise. Em uma nota de 1959, Winnicott expôs o caso de um homem - que ilustra essa experiência do "nada central". Na análise, o psicanalista teve que se haver com um "estado de chafurdamento" que era muito alarmante para o analisante. Depois de analisado o grosso das defesas contra essa mistura de atolamento, lama, lodo, onde nada impressionava, mas também nada podia ser criado, o paciente se deparou com o que chamo de "limbo" - um espaço em que os significados comuns da vida inexistem; apenas se reage ao que é imediato, necessário ou às urgências físicas. Um espaço que é uma borda, uma margem, onde os significados usuais da vida ficam nesta orla, litoralizados, sem poder habitar o centro do eu. "Em determinada camada, quando gradualmente eliminamos todas as colisões, de maneira que ele não tinha mais nada a que reagir, ele se tornou uma coisa no espaço, a ignorar o tempo e a posição", nos informa o psicanalista Winnicott.
Essa experiência de nada central é muito explorada por James Grotstein em seu livro "O buraco negro", relacionando-o com o sem-sentido, o caos e o aleatório no viver. Viver de modo aleatório, caótico e sem sentido é o que toma o centro da pessoa que vivencia este estado de nada ser - sem organização e integração pessoal suficiente para sentir que existe como um "eu". Sente-se uma coisa e frequentemente coisifica o que toca ou vê. Um dos meus pacientes que vive neste estado de viscosidade existencial diz: "olho para as pessoas e as vejo como são por dentro - somente ossos, e órgãos". Seu sofrimento indizível é traduzido cotidianamente em acontecimentos descarnados ou desalmados; suas vivências pessoais são simulacros de vivências, ele as vive como vindas de fora, sem relação pessoal com seus resultados em si mesmo ou no mundo. Suas vivências não lhe concernem; elas são acidentes. Elas não se tornam experiências pessoais; no máximo são vivências. Sua psicanálise remonta um ego que possa migrar a libido das fixações orais, para as anais e finalmente habitar um terreno genital-fálico - um trabalho de uma vida inteira para florescer algo em seu centro.
A psicanálise, em certos casos, apenas proporciona um centro de gravidade para que o conjunto de experiências do eu faça uma rotação e translação minimamente necessárias para que o analisante possa se tornar uma pessoa total, no dizer de Winnicott. Não se trata de uma cura e sim de uma construção que se dá da pele para os órgãos. O problema reside no fato de que o construtor é o próprio analisante, cujo olhar está comprometido pelo nada central e que, a despeito disto, deve erigir seu próprio centro onde nada ou muito pouco viceja. Um trabalho para um Hércules...

quarta-feira, 25 de março de 2015

Para quê serve a Psicanálise?

Por definição, quem procura o psicanalista, está tentando descobrir qual a sua responsabilidade no seu sofrimento; está tentando reescrever seu destino; reescrever sua história e seu futuro. Pois, se o destino não está escrito, o passado também não. 
De algum modo o paciente de análise intui que pode ressignificar suas reminiscências e construir um outro futuro para si. Como a psicanálise não faz milagres, é permitido ao sujeito ser sujeito de sua vida, sem grandes acidentes; é permitido que se enriqueça por si mesmo, que acenda uma vela na escuridão e possa ver algumas sombras. Pois onde há sombra há luz. Mas acredite, com esse pouco de luz dá para se ir longe na arte de existir. A psicanálise é uma vela e não uma bengala. Não ofusca e nem se entrega ao breu. Por isso uma psicanálise incomoda ao analisante e aos que privam de seu entorno.
O resultado, depois deste período de purgatório pessoal, é contentamento e serenidade; energia e atitude; responsabilidade e generosidade. Podemos dizer que o eixo procurado pelo analista e analisante é o eixo do amor. Deste modo, resumindo, é uma psicanálise do amor; seu final é a capacidade para amar, fazer sexo, criar e cuidar, projetar, realizar.
Afinal, foi Freud que disse: “Todo tratamento psicanalítico é uma tentativa para libertar o amor recalcado.” E Sartre disse: "O importante não é aquilo que fizeram de nós, mas o que nós mesmos fazemos com aquilo que fizeram de nós". Essas duas premissas unidas é o que move minha psicanálise...

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

OFICINAS DA PSICOBIOGRAFIA!

                                                                              
Você sabia que as artes podem ser ferramentas para você renovar sua história de vida? Que são grandes auxiliares, no enfrentamento de sofrimentos psíquicos graves, como depressão, pânico, estresses pós-traumáticos, mas também, em sofrimentos mais difusos como mal estar indefinido, tristeza de luto, fim de relacionamentos e outros de natureza afetiva?

Agende uma 
ENTREVISTA SEM COMPROMISSO para saber mais sobre Psicobiografia e em que grupo você poderia se encaixar melhor. Se preferir, venha a uma palestra de esclarecimentos no dia 12/03/15, quinta feira, as 20 horas.


O que é uma Oficina da Psicobiografia?
Por meio da Psicobiografia você pode usufruir de seus potenciais pessoais, fazendo uma releitura de suas memórias, sensações e sentimentos, elaborando uma nova biografia de si. As oficinas são espaços de amadurecimento pessoal, por meio da narratividade e artes expressivas. Jean-Paul Sartre, um filósofo francês, disse que narrar é melhor que viver. Argumentava que quando vivemos estamos tão profundamente ocupados com a vida, que só em um segundo momento, quando contamos para nós mesmos ou para os outros o que vivemos, é que nos damos conta do que de fato vivenciamos. D. W. Winnicott, psicanalista inglês, relacionava a narrativa com a capacidade para criar cultura, amar, trabalhar. Sabemos que a narratividade não é necessariamente falada, e pode ser expressada pela arte em geral. Aliás, a arte é o observatório privilegiado da narração de si. E a narração de si é, sempre, um aprofundamento das percepções e amadurecimento pessoal.

Convite!
Venha entrar em contato com os conteúdos inconscientes que travam sua criatividade; ao fluírem por meio da expressividade artística, seus potenciais se tornarão potência e você experimentará maior liberdade mental e física, mais fluência da memória, maior concentração, maior contato com seus estados emocionais. A técnica que usamos é Psicobiografia, a narratividade de si por meios expressivos (diversas formas de arte) e a teoria de que sua natural agressividade pode ser desviada para fins de criatividade, deixando de serem expressadas como destrutividade, violência e negatividade. 

Quem pode fazer as oficinas?
Qualquer pessoa com mais de 18 anos, em qualquer condição física e que tenha dificuldades nos relacionamentos interpessoais – familiares, amorosos, trabalho e sociais – e que estas dificuldades estão sendo experiências de sofrimento psíquico importante. Partimos do princípio que viver é um espaço de muitas vivências de ansiedade, mas que pode ser uma experiência de criatividade, alegria e realização pessoal, exatamente porque estes problemas pedem solução e dá prazer solucioná-los. Partindo disso, usamos sua natural agressividade canalizando-a, para se tornarem ferramentas de bem viver, ampliando sua experiência cultural, tanto do ponto de vista interior quanto exterior.

Local: Casa Academus – Rua Afonso Celso, 514 – Vila Mariana.

Palestra de esclarecimento dia 03 de março

Agendamento para entrevistas de esclarecimentos entre 12 e 19 de março 

Dia de início das Oficinas da Psicobiografia: 12 de março.

Valores: R$640. Para as formas de pagamento entre em contato. Pagamentos em até 10 vezes.

Tel: 11-981288749 - Luiza
Email: luizascacca@gmail.com
Skype: levileonel

Facilitadores: Psicólogos Luiza Scaccabarozzi (CRPSP) e Levi Leonel de Souza (CRPSP)